A mulher de cujos seios gotejou leite, e caiu no ar do forno, é impuro, pois o líquido contamina com vontade ou sem vontade. Se estava varrendo-o e a feriu o espinho e saiu dela sangue, ou se queimou e colocou seu dedo dentro de sua boca, contaminou-se.
Esta última mishná do capítulo encerra a série de casos sobre a contaminação do forno por líquidos, com dois exemplos envolvendo o corpo de uma mulher impura. No primeiro, leite goteja dos seios de uma mulher impura e cai no ar do forno: mesmo que esse gotejamento tenha ocorrido totalmente sem a intenção ou vontade dela — pois não lhe é agradável que o leite escorra assim —, ainda assim o forno se torna impuro, já que, diferentemente da regra do “hechsher” (preparo) dos grãos para receber impureza, que exige vontade do dono, a transmissão da impureza por um líquido já impuro não depende de vontade alguma: o líquido contamina “com vontade ou sem vontade”. No segundo caso, a mesma mulher está varrendo as cinzas de dentro do forno impuro, quando um espinho a fere e sai sangue dela — o sangue de uma ferida sendo também considerado um líquido relevante —, ou então ela se queima e, por reflexo, leva o dedo queimado à boca: a saliva de sua boca, tendo entrado em contato com o ar do forno impuro através da mão ou do dedo que ali havia estado, torna-se ela mesma impura, e o forno se contamina por meio dela.
Já explicamos, na introdução a esta ordem, e disseram em Massechet Tevul Yom, que também para todos os demais impuros, os líquidos que saem deles são como o líquido que eles tocam; e já explicamos que líquidos impuros contaminam vasos; e assim explicaremos, no início de Machshirin, que líquidos impuros contaminam com vontade ou sem vontade — isto é, não é necessário que se toque na coisa que eles contaminam com intenção e vontade, como no caso do hechsher (preparo). Por isso, se uma mulher nidá, ou zavá, ou outra impureza semelhante, gotejou leite de seus seios no forno — ainda que isso tenha sido sem dúvida sem intenção —, o forno se contamina por causa dos líquidos impuros que nele entraram.
Além disso, o inverso: se o forno estava impuro e a mulher estava pura, no momento em que ela retirava as cinzas do forno impuro, sua mão foi ferida, e, ao sair seu sangue, já se contaminou o sangue — sendo os líquidos impuros por estarem no ar do forno impuro —, e no momento em que sai esse sangue, contamina-o com a impureza dos líquidos impuros; e é o sentido de dizer “contaminou-o” — isto é, contaminará a terumá que está em sua boca. E do mesmo modo, quando ela se queima e fere sua mão — pois suas mãos se contaminam no ar do forno, como se explicou em Massechet Yadaim —, e suas mãos, sendo mãos impuras, no momento em que ela as introduz em sua boca, contaminam sua saliva, e há líquidos impuros que se contaminam sem que se tenha tocado com intenção, como precedeu.
Sobre “a mulher de cujos seios gotejou leite”: e ela é impura, e o leite que goteja de seus seios é como um líquido que a tocou e se tornou rishon (primeiro grau).
Sobre “pois o líquido contamina com vontade ou sem vontade”: e ainda que o leite que goteja de seus seios tenha sido sem sua vontade, pois não lhe é agradável, mesmo assim o forno se contaminou; pois, para efeito do hechsher (preparo) das sementes, exige-se especificamente que seja com sua vontade — mas não para contaminar.
Sobre “estava varrendo-o”: estava varrendo o forno impuro para tirar suas cinzas.
Sobre “e um espinho a feriu e saiu dela sangue”: e o sangue da ferida é considerado líquido.
Sobre “e colocou seu dedo dentro de sua boca”: ao modo dos que se queimam com o dedo, que colocam o dedo na boca.
Sobre “contaminou-se”: isto é, o forno se contaminou por causa da saliva e do sangue.
Com esta décima primeira mishná, encerra-se o Perek Chet de Massechet Keilim, capítulo dedicado, em sua maior parte, às leis do forno (tanur) de barro e à transmissão da impureza através de seu ar interior — completando o estudo do forno iniciado nos capítulos anteriores (5 e 6) com suas medidas e sua construção.
O capítulo abriu (8:1) com o forno dividido internamente por tábuas ou cortinas — sem que a divisória o separe, ao contrário do que ocorre com tendas e casas —, e com a colmeia furada e tapada com palha, suspensa no ar do forno, cuja condição de mero divisor (e não de vaso completo) gerou a disputa entre Rabi Eliezer, que a comparava à proteção da tenda do morto, e os sábios, que recusavam a analogia. A mishná 8:2 completou o quadro com a colmeia, a cesta e o odre quando completos — que protegem em ambas as direções —, e com as medidas do furo que os desqualifica, conforme sejam feitos para alimentos, para líquidos, ou para ambos. A mishná 8:3 tratou da serida sem bordas, que não é vaso, e do barril de líquidos puros colocado abaixo ou invertido sobre a boca do forno. A mishná 8:4 estabeleceu o princípio de que o vaso de barro não contamina outros vasos diretamente, mas apenas por meio de líquidos já contaminados por seu ar — a panela que “reclama” de ter sido contaminada pelo próprio líquido, não pelo forno. A mishná 8:5 acrescentou o caso do galo que engoliu o sheretz, e a hierarquia dos graus de impureza entre o sheretz, o forno e o pão. A mishná 8:6 voltou ao tema da tampa hermética (tzamid patil), agora aplicado ao ar do forno, com o caso do recipiente de fermento dividido internamente pelo “kerets”. As mishnayot 8:7 e 8:8 mediram com precisão os limites do “olho” do forno, da kirá e do kupach, e o lugar de assentar a lenha e as panelas, com as disputas entre Rabi Yehudá, os sábios e Rabi Yosei. A mishná 8:9 estendeu essas leis a outras estruturas de cocção e de ofício — o poço com lugar de assentar, os fornos de caiadores, vidreiros e oleiros, e a purna. E as duas últimas mishnayot (8:10–8:11) fecharam o capítulo com uma série de casos sobre a contaminação do forno por líquidos do corpo humano — a boca de quem tocou no impuro por morte, a saliva de quem come com mãos impuras, o leite que goteja dos seios de uma mulher impura, e o sangue e a saliva de quem se fere ou se queima junto ao forno.
O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Tet, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as leis dos vasos de barro e de outros materiais — ao longo dos vinte e dois perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.