Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Chet · Mishná 11 de 11 — última do capítulo

O leite que goteja dos seios da mulher impura, e o encerramento do Perek Chet

הָאִשָּׁה שֶׁנָּטַף חָלָב מִדַּדֶּיהָ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Encerra o capítulo com dois casos de líquidos do corpo de uma mulher impura que contaminam o forno mesmo sem intenção: o leite que goteja, e o sangue ou a saliva de quem se fere ou se queima ao varrê-lo

A mulher de cujos seios gotejou leite, e caiu no ar do forno, é impuro, pois o líquido contamina com vontade ou sem vontade. Se estava varrendo-o e a feriu o espinho e saiu dela sangue, ou se queimou e colocou seu dedo dentro de sua boca, contaminou-se.

Esta última mishná do capítulo encerra a série de casos sobre a contaminação do forno por líquidos, com dois exemplos envolvendo o corpo de uma mulher impura. No primeiro, leite goteja dos seios de uma mulher impura e cai no ar do forno: mesmo que esse gotejamento tenha ocorrido totalmente sem a intenção ou vontade dela — pois não lhe é agradável que o leite escorra assim —, ainda assim o forno se torna impuro, já que, diferentemente da regra do “hechsher” (preparo) dos grãos para receber impureza, que exige vontade do dono, a transmissão da impureza por um líquido já impuro não depende de vontade alguma: o líquido contamina “com vontade ou sem vontade”. No segundo caso, a mesma mulher está varrendo as cinzas de dentro do forno impuro, quando um espinho a fere e sai sangue dela — o sangue de uma ferida sendo também considerado um líquido relevante —, ou então ela se queima e, por reflexo, leva o dedo queimado à boca: a saliva de sua boca, tendo entrado em contato com o ar do forno impuro através da mão ou do dedo que ali havia estado, torna-se ela mesma impura, e o forno se contamina por meio dela.

הָאִשָּׁה שֶׁנָּטַף חָלָב מִדַּדֶּיהָ וְנָפַל לַאֲוִיר הַתַּנּוּר, טָמֵא, שֶׁהַמַּשְׁקֶה מְטַמֵּא לְרָצוֹן וְשֶׁלֹּא לְרָצוֹן. הָיְתָה גוֹרַפְתּוֹ וְהִכַּתָּהּ הַקּוֹץ וְיָצָא מִמֶּנָּה דָם, אוֹ שֶׁנִּכְוָת וְנָתְנָה אֶצְבָּעָהּ לְתוֹךְ פִּיהָ, נִטְמָא:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 8:11
כבר בארנו בפתיחת זה הסדר אמרו במסכת טבול יום ושאר כל הטמאים המשקים היוצאים מהן כמשקין…

Já explicamos, na introdução a esta ordem, e disseram em Massechet Tevul Yom, que também para todos os demais impuros, os líquidos que saem deles são como o líquido que eles tocam; e já explicamos que líquidos impuros contaminam vasos; e assim explicaremos, no início de Machshirin, que líquidos impuros contaminam com vontade ou sem vontade — isto é, não é necessário que se toque na coisa que eles contaminam com intenção e vontade, como no caso do hechsher (preparo). Por isso, se uma mulher nidá, ou zavá, ou outra impureza semelhante, gotejou leite de seus seios no forno — ainda que isso tenha sido sem dúvida sem intenção —, o forno se contamina por causa dos líquidos impuros que nele entraram.

Além disso, o inverso: se o forno estava impuro e a mulher estava pura, no momento em que ela retirava as cinzas do forno impuro, sua mão foi ferida, e, ao sair seu sangue, já se contaminou o sangue — sendo os líquidos impuros por estarem no ar do forno impuro —, e no momento em que sai esse sangue, contamina-o com a impureza dos líquidos impuros; e é o sentido de dizer “contaminou-o” — isto é, contaminará a terumá que está em sua boca. E do mesmo modo, quando ela se queima e fere sua mão — pois suas mãos se contaminam no ar do forno, como se explicou em Massechet Yadaim —, e suas mãos, sendo mãos impuras, no momento em que ela as introduz em sua boca, contaminam sua saliva, e há líquidos impuros que se contaminam sem que se tenha tocado com intenção, como precedeu.

Bartenura · Keilim 8:11
הָאִשָּׁה שֶׁנָּטַף חָלָב מִדַּדֶּיהָ. וְהִיא טְמֵאָה, וְחָלָב הַנּוֹטֵף מִדַּדֶּיהָ הָוֵי כְּמַשְׁקֶה שֶׁנָּגַע בָּהּ…

Sobre “a mulher de cujos seios gotejou leite”: e ela é impura, e o leite que goteja de seus seios é como um líquido que a tocou e se tornou rishon (primeiro grau).

Sobre “pois o líquido contamina com vontade ou sem vontade”: e ainda que o leite que goteja de seus seios tenha sido sem sua vontade, pois não lhe é agradável, mesmo assim o forno se contaminou; pois, para efeito do hechsher (preparo) das sementes, exige-se especificamente que seja com sua vontade — mas não para contaminar.

Sobre “estava varrendo-o”: estava varrendo o forno impuro para tirar suas cinzas.

Sobre “e um espinho a feriu e saiu dela sangue”: e o sangue da ferida é considerado líquido.

Sobre “e colocou seu dedo dentro de sua boca”: ao modo dos que se queimam com o dedo, que colocam o dedo na boca.

Sobre “contaminou-se”: isto é, o forno se contaminou por causa da saliva e do sangue.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Chet · סיום הפרק

הָאִשָּׁה שֶׁנָּטַף חָלָב מִדַּדֶּיהָ

Com esta décima primeira mishná, encerra-se o Perek Chet de Massechet Keilim, capítulo dedicado, em sua maior parte, às leis do forno (tanur) de barro e à transmissão da impureza através de seu ar interior — completando o estudo do forno iniciado nos capítulos anteriores (5 e 6) com suas medidas e sua construção.

O capítulo abriu (8:1) com o forno dividido internamente por tábuas ou cortinas — sem que a divisória o separe, ao contrário do que ocorre com tendas e casas —, e com a colmeia furada e tapada com palha, suspensa no ar do forno, cuja condição de mero divisor (e não de vaso completo) gerou a disputa entre Rabi Eliezer, que a comparava à proteção da tenda do morto, e os sábios, que recusavam a analogia. A mishná 8:2 completou o quadro com a colmeia, a cesta e o odre quando completos — que protegem em ambas as direções —, e com as medidas do furo que os desqualifica, conforme sejam feitos para alimentos, para líquidos, ou para ambos. A mishná 8:3 tratou da serida sem bordas, que não é vaso, e do barril de líquidos puros colocado abaixo ou invertido sobre a boca do forno. A mishná 8:4 estabeleceu o princípio de que o vaso de barro não contamina outros vasos diretamente, mas apenas por meio de líquidos já contaminados por seu ar — a panela que “reclama” de ter sido contaminada pelo próprio líquido, não pelo forno. A mishná 8:5 acrescentou o caso do galo que engoliu o sheretz, e a hierarquia dos graus de impureza entre o sheretz, o forno e o pão. A mishná 8:6 voltou ao tema da tampa hermética (tzamid patil), agora aplicado ao ar do forno, com o caso do recipiente de fermento dividido internamente pelo “kerets”. As mishnayot 8:7 e 8:8 mediram com precisão os limites do “olho” do forno, da kirá e do kupach, e o lugar de assentar a lenha e as panelas, com as disputas entre Rabi Yehudá, os sábios e Rabi Yosei. A mishná 8:9 estendeu essas leis a outras estruturas de cocção e de ofício — o poço com lugar de assentar, os fornos de caiadores, vidreiros e oleiros, e a purna. E as duas últimas mishnayot (8:10–8:11) fecharam o capítulo com uma série de casos sobre a contaminação do forno por líquidos do corpo humano — a boca de quem tocou no impuro por morte, a saliva de quem come com mãos impuras, o leite que goteja dos seios de uma mulher impura, e o sangue e a saliva de quem se fere ou se queima junto ao forno.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Tet, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as leis dos vasos de barro e de outros materiais — ao longo dos vinte e dois perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.