Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Yud-Guimel · Mishná 7 de 8

Os suportes de Ashkelon, os ancinhos de joeirar, e a inovação dos escribas

הַכַּדּוּמִין הָאַשְׁקְלוֹנִין שֶׁנִּשְׁבְּרוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Os suportes de madeira de Ashkelon quebrados, mas com o gancho intacto; o rastelo, o forcado e o ancinho de joeirar, e o pente de cabeça, quando um único dente é substituído por metal; e a reação intrigada de Rabi Yehoshua

Os kadumin ashkelonin (suportes de Ashkelon) que se quebraram, mas cujo gancho (unkeli) permanece intacto, eis que estes são impuros. O rastelo (maavér), o forcado de joeirar (mazré), e o ancinho (magov), e assim também o pente de cabeça, cujo um de seus dentes foi removido e o fizeram de metal, eis que estes são impuros. E sobre todos estes disse Rabi Yehoshua: coisa nova inovaram os escribas, e eu não tenho o que responder.

Esta mishná segue o mesmo princípio da anterior — o de que a madeira a serviço do metal se torna impura — aplicando-o agora a estruturas maiores, feitas de madeira simples, que normalmente não receberiam impureza. Os kadumin ashkelonin são grandes suportes de madeira, feitos em Ashkelon, dos quais se projetam ganchos de metal em várias direções, usados para pendurar vasilhas ou para retirar objetos caídos em poços; embora sejam, em si, meros utensílios de madeira simples (que não recebem impureza), a presença do gancho metálico torna a estrutura inteira impura — e essa impureza persiste mesmo se a estrutura de madeira se quebra, contanto que o gancho continue íntegro e utilizável. O mesmo vale para os três instrumentos de joeirar do celeiro — o rastelo (poucos dentes, para mover a palha), o forcado (mais dentes, para joeirar o trigo) e o ancinho (o mais denso de todos, para separar o grão já joeirado) — e para o pente de cabeça: todos são, por natureza, utensílios simples de madeira, isentos de impureza; mas se um único dente se perde e é substituído por um dente de metal, o utensílio inteiro passa a ser impuro, pois aquele único dente metálico é considerado o elemento ativo a que a madeira serve. Diante dessa série de casos em que um detalhe mínimo de metal transforma um utensílio inteiro de madeira simples em impuro, Rabi Yehoshua reconhece, com certa perplexidade, que se trata de uma inovação introduzida pelos sábios (“os escribas”) — um decreto que vai além da lógica estrita das fontes bíblicas de impureza — e admite não ter argumento para refutá-lo, aceitando-o como halachá recebida.

הַכַּדּוּמִין הָאַשְׁקְלוֹנִין שֶׁנִּשְׁבְּרוּ וְהָאֻנְקְלִי שֶׁלָּהֶן קַיֶּמֶת, הֲרֵי אֵלּוּ טְמֵאִין. הַמַּעְבֵּר, וְהַמַּזְרֶה, וְהַמַּגּוֹב, וְכֵן מַסְרֵק שֶׁל רֹאשׁ שֶׁנִּטְּלָה אַחַת מִשִּׁנֵּיהֶן, וַעֲשָׂאָן שֶׁל מַתֶּכֶת, הֲרֵי אֵלּוּ טְמֵאִין. וְעַל כֻּלָּן אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, דְּבַר חִדּוּשׁ חִדְּשׁוּ סוֹפְרִים, וְאֵין לִי מָה אָשִׁיב:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 13:7
כדומים. הן אונקליות יוציאו בו הכלי כאשר נפל בבור…

Sobre “os kadumin”: são ganchos com que se retira o utensílio quando cai num poço; sua forma é conhecida: é uma peça redonda de ferro, de várias correntes e muitos ganchos pendurados na parte circular, cada um deles com o comprimento de cerca de um amá, e na ponta de cada corrente há um gancho. E “ashkelonin”: atribuídos a Ashkelon.

Sobre “o maavér, o mazré e o magov”: são três tipos de utensílios do celeiro, semelhantes à mão de uma pessoa, com que se separa o trigo e a cevada da palha, e seus nomes variam conforme a diferença de sua forma: um deles, de poucos dentes, separa o trigo no início do processo, da palha grosseira — esse é o maavér; o de mais dentes é o mazré; e o de maior número de dentes chama-se magov. E “o pente”: é conhecido.

Sobre “e eu não tenho o que responder”: quer dizer que ele não pode responder a essa afirmação nem aceitá-la em seu sentido simples, mas permanece em dúvida.

Bartenura · Keilim 13:7
הַכַּדּוּמִין. עֵץ גָּדוֹל אָרֹךְ וְיוֹצְאִים מִמֶּנּוּ אֻנְקְלָיוֹת אֵילָךְ וָאֵילָךְ…

Sobre “os kadumin”: uma grande vara de madeira, comprida, da qual saem ganchos para os dois lados; e penduram nesses ganchos jarras de água ao ar livre, para resfriá-las. E o Rambam explicou: como uma espécie de coroa com ganchos ao redor, com a qual se erguem os utensílios que caíram no poço.

Sobre “os de Ashkelon”: os que se fazem em Ashkelon.

Sobre “o maavér, o mazré e o magov”: utensílios feitos para limpar o cereal da palha e mover a palha de um lugar a outro. O maavér tem dentes e se assemelha à mão de uma pessoa, e com ele se move a palha de um lugar a outro. O mazré — com ele se joeira o trigo na eira, por isso chama-se mazré, e seus dentes são mais numerosos que os do maavér. E o magov tem ainda mais dentes que o mazré, e com ele se separa o cereal depois de joeirado com o mazré.

Sobre “coisa nova inovaram os escribas”: deveriam ser puros, pois são utensílios simples de madeira; e por causa de um único dente de metal não lhes cairia impureza.

Sobre “e eu não tenho o que responder”: por que disseram assim.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.