Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Yud-Tet · Mishná 10 de 10 — última do capítulo

O cesto de esterco que não recebe romãs, e o encerramento do Perek Yud-Tet

מִשְׁפֶּלֶת שֶׁנִּפְחֲתָה מִלְּקַבֵּל רִמּוֹנִים, רַבִּי מֵאִיר מְטַמֵּא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

A última mishná do Perek Yud-Tet: o cesto de esterco (mishpelet) tão danificado que não retém mais romãs — a disputa entre Rabi Meir e os sábios sobre se ele ainda contrai impureza de midrás, repetindo o mesmo princípio da mishná anterior

Um cesto de esterco que se danificou a ponto de não receber romãs: Rabi Meir declara impuro; e os sábios declaram puro, pois, tendo cessado o principal, cessou o secundário.

A décima e última mishná do capítulo aplica a mesma disputa da mishná anterior a um utensílio diferente: a mishpelet, cesto grande usado para transportar esterco e lixo ao campo. A medida convencional para que um cesto como este deixe de ser considerado vaso apto a conter é quando seu rompimento é grande o bastante para que romãs — objeto de tamanho médio usado como padrão em diversas leis de Keilim — já não fiquem retidas dentro dele. Uma vez perdida essa capacidade, discutem novamente Rabi Meir e os sábios: para Rabi Meir, mesmo sem poder mais conter, o cesto continua servindo de assento e, por isso, permanece suscetível à impureza de midrás; os sábios, fiéis ao princípio já enunciado — “tendo cessado o principal, cessou o secundário” —, sustentam que a função de assento é sempre secundária à função de conter nesse tipo de vaso, de modo que, cessada a função principal, cessa também a impureza. A lei segue os sábios, encerrando o capítulo com o mesmo princípio que o atravessou em suas duas últimas mishnayot.

מִשְׁפֶּלֶת שֶׁנִּפְחֲתָה מִלְּקַבֵּל רִמּוֹנִים, רַבִּי מֵאִיר מְטַמֵּא. וַחֲכָמִים מְטַהֲרִים, מִפְּנֵי שֶׁבָּטַל הָעִקָּר, בָּטְלָה הַטְּפֵלָה

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 19:10
מִשְׁפֶּלֶת. הַקֻּפָּה אֲשֶׁר יוֹלִיכוּ בָהּ הַזֶּבֶל אֶל הַשָּׂדוֹת…

Sobre mishpelet: a cesta em que se leva o esterco aos campos, cuja forma é conhecida; e nós a chamamos zambil. E quando ela se danifica a ponto de não receber romãs, segundo o que precedeu, então ela já se purificou, isto é, voltou a não receber impureza. E Rabi Meir diz que, ainda que ela não se torne impura pelo morto, ela se torna impura por midrás, pois é apta para servir de leito; e os sábios dizem que a impureza de midrás é semelhante à destruição para este vaso, pois ele era, de fato, um vaso próprio para se tornar impuro pelo morto, e adquiriu a impureza de midrás, isto é, ele também se torna impuro por midrás. E, quando cessa o principal, e dizemos que ele não se torna mais impuro pelo morto, porque já não resta vaso, então ele também não se torna impuro por midrás; e isso segue o princípio que se esclarecerá no sexto capítulo de Nidá, que é o que disseram: “todo o que se torna impuro por midrás torna-se impuro pelo morto; e há o que se torna impuro pelo morto e não se torna impuro por midrás”. Já ficou claro que a impureza do morto é o principal. E a lei é como os sábios.

Bartenura · Keilim 19:10
מִשְׁפֶּלֶת. קֻפָּה גְּדוֹלָה שֶׁמּוֹלִיכִין בָּהּ הַזֶּבֶל וְהָאַשְׁפָּה…

Sobre “cesto de esterco”: um cesto grande com o qual se transporta o esterco e o lixo. Sobre “que se danificou a ponto de não receber romãs”: pois esta é a medida para que se purifique, quando se perfura no tamanho de saída de uma romã. Sobre “Rabi Meir declara impuro”: ainda que ele seja puro quanto às demais impurezas, é impuro por midrás, pois é apto para assento. Sobre “e os sábios declaram puro”: e a lei é como os sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Yud-Tet · סיום הפרק

מִפְּנֵי שֶׁבָּטַל הָעִקָּר, בָּטְלָה הַטְּפֵלָה

Com esta décima mishná, encerra-se o Perek Yud-Tet de Massechet Keilim — capítulo que sucede o extenso Perek Yud-Chet, dedicado à shidá e ao leito de madeira, e volta sua atenção às cordas e faixas que unem a cama, e depois aos vasos de couro e madeira usados para conter — a tevá, a bolsa de pastor, o odre e o cesto de esterco.

As mishnayot 19:1 e 19:2 abriram o capítulo com a corda que ata a cama: a partir de quando sua tecedura a torna conexão com o leito, a impureza do nó e das franjas necessárias que o sustentam, e as medidas de cinco e dez palmos que determinam se a sobra da corda pendurada para fora da cama é pura ou impura, por servir para atar os cordeiros pascais e para descer as camas.

As mishnayot 19:3 e 19:4 voltaram-se ao mizran, a faixa tecida que envolve a cama: a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yossei sobre até que comprimento o mizran que sai da cama permanece impuro com ela, a medida mínima de sete palmos para que sua sobra gasta ainda seja vaso, e os graus de impureza e desqualificação transmitidos pelo zav carregado sobre a cama e o mizran, conforme estejam dentro ou fora dos dez palmos de conexão.

As mishnayot 19:5 e 19:6 examinaram o que ocorre quando a cama impura — por midrás, por impureza de sete dias, ou por impureza de véspera — é envolvida por um mizran e depois dele separada: no midrás, o mizran desce um grau ao se separar; mas no contato conjunto com um morto ou um sheretz, ambos retêm integralmente o grau adquirido, mesmo separados. A mishná 19:6 fechou com o caso da cama cujas travessas compridas foram substituídas sem mudar os buracos, cuja pureza depende de quais travessas — as novas ou as antigas — venham a se quebrar.

As mishnayot 19:7, 19:8 e 19:9 voltaram-se aos vasos de conter: a tevá com abertura por cima, suscetível apenas à impureza do morto e sensível ao local do dano; a bolsa de pastor e o odre, cujos bolsos internos ora são considerados independentes, ora perdem toda impureza quando danificados; e a tevá com abertura lateral, suscetível também a midrás sob as condições de Rabi Yossei, introduzindo a disputa entre Rabi Meir e os sábios sobre o princípio de que a função secundária cessa junto com a principal.

A última mishná, 19:10, fechou o capítulo aplicando esse mesmo princípio ao cesto de esterco danificado a ponto de não receber romãs — disputa cuja lei segue os sábios.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Vinte, que continuará explorando as leis de impureza dos vasos ao longo dos onze perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.