Há três tipos de cestos: se uma cesta gasta foi remendada sobre uma sólida, segue-se a sólida. Se uma pequena foi remendada sobre uma grande, segue-se a grande. Se eram iguais, segue-se a interna. Rabi Shimon diz: se a concha de uma balança foi remendada sobre o fundo de uma caldeira, por dentro, é impuro; por fora, é puro. Se a remendou em sua lateral, seja por dentro seja por fora, é puro.
A última mishná do capítulo trata dos cestos compostos de duas peças remendadas uma sobre a outra, e da lei que decide seu estatuto de pureza segundo a peça dominante. Quando um cesto velho e gasto (mehuhá) é remendado sobre um sólido, julga-se todo o conjunto pela lei da peça sólida; se ambos estão igualmente gastos ou igualmente sólidos, julga-se pela lei da peça maior; se são de igual tamanho, julga-se pela peça interna. Rabi Shimon ilustra o mesmo princípio com outro exemplo: quando o fundo de uma caldeira se perfura pelo fogo e se cola sobre ele, para reforço, a concha metálica de uma balança — se a colagem foi feita por dentro, a caldeira permanece em sua condição própria e continua suscetível a impureza; se foi feita por fora, a colagem é visível e a caldeira permanece pura; e se foi colada na lateral, seja por dentro seja por fora, é pura em todo caso. A halachá, porém, não segue Rabi Shimon nesta última distinção.
“Mehuhá”: gasta/desfeita. “Beriá”: forte, sólida. E o sentido de “segue-se a sólida”, “segue-se a grande” e “segue-se a interna” é que, se aquela conforme a qual se decide já estava perfurada com abertura do tamanho de uma romã, já se purificou, ainda que a outra tenha sido colada por completá-la. E disse Rabi Shimon algo semelhante a isto: que, quando se perfurou o fundo da caldeira pelo fogo, e tomou-se uma concha de balança de cobre e a colaram ao fundo da caldeira para reforçá-la — se a colaram por dentro, eis que a caldeira permanece em sua lei própria e recebe impureza; e se a colaram por fora, eis que se vê a colagem, e ela é pura; e se a colaram na lateral da caldeira, sendo que sua lateral também já estava perfurada e enfraquecida, eis que ela é pura em todo caso. E não é lei conforme Rabi Shimon. E os princípios de todo este capítulo já os expus a ti antes: que tudo o que não é apto para leito, ou mesmo apto mas não feito para leito, é puro de pisadela, e torna-se impuro por morto e pelas demais impurezas, por ser um utensílio, como estabelecemos no capítulo vinte deste tratado. E tudo o que se disse neste capítulo ser “puro de tudo” — isto se deve, ou por ser de material que não recebe impureza, como os utensílios de pedra e tudo o que vem do mar, como se explicou no capítulo décimo; ou por ser dos utensílios de madeira que contêm quarenta se’á, como já expusemos no capítulo quinze deste; ou por não ter sobre si a condição de utensílio; ou por esta coisa não ser dos utensílios que servem ao homem, segundo o que estabelecemos no capítulo sétimo — e segundo este princípio, o tarbus das azeitonas, o mafatz dos lagares e o lençol de figuras, e semelhantes a eles, não recebem impureza alguma. E entende estes assuntos, que são o fundamento pelo qual julgarás toda impureza e pureza sobre os utensílios, quer conheças a verdade de seu nome na mishná, quer não a conheças.
Sobre “mehuhá”: pano velho e gasto. Sobre “que a remendou”: do termo “remendo sobre remendo”, isto é, que colocou a velha como remendo sobre a nova. Sobre “segue-se a sólida”: julgam-na segundo a lei da sólida; se é impura, é impura; se é pura, é pura. Sobre “pequena sobre a grande”: quer ambas estejam gastas, quer ambas estejam sólidas. Sobre “segue-se a grande”: e se a grande está perfurada do tamanho de uma romã, quebra pela qual se purificou, também a pequena unida a ela é pura, ainda que esteja inteira; e se a grande está inteira, e eis que recebe impureza, também a pequena unida a ela é impura, ainda que esteja perfurada do tamanho de uma romã. Sobre “segue-se a interna”: se a interna é impura, a externa é impura; e se a interna é pura, a externa também é pura. Sobre “Rabi Shimon diz: a concha de uma balança”: vem para esclarecer a palavra do primeiro tanaíta; e trata-se de uma concha de balança de metal, já impura: se a remendou no fundo da caldeira, por dentro, a caldeira é impura; e se a remendou por fora, a caldeira é pura. Sobre “se a remendou em sua lateral”: colou o remendo nas paredes da caldeira, não em seu fundo — quer por fora, quer por dentro —, é puro. E a conclusão de todo este capítulo, e a razão de tudo o que nele se disse “impuro por pisadela”, “impuro por impureza de morto” e “puro de tudo”, é esta: que toda coisa apta para deitar-se — sendo que é feita para deitar-se, ou para sentar-se, ou para apoiar-se sobre ela — é impura por pisadela, exceto se for utensílio de barro, que não se torna impuro por pisadela; pois assim aprendemos do versículo que está escrito (Vayicrá 15): “e o homem que tocar em seu leito” — compara-se seu leito a ele: assim como ele tem purificação na mikvê, também seu leito, que tem purificação na mikvê — excluído fica o utensílio de barro, que não tem purificação na mikvê. E o mafatz, feito para deitar-se, ainda que não tenha purificação na mikvê — pois está escrito (ali, 11): “todo utensílio com que se faz trabalho na água será trazido”, e este não é um utensílio —, ainda assim é impuro por pisadela, pois o incluímos por ampliação a partir do versículo que diz “todo leito”, sendo que “todo” vem para incluir o mafatz; e não tem purificação até que seja cortado e reste dele menos que seis por seis. E os utensílios de pedra, os utensílios de excremento e os utensílios de terra são puros de tudo; e do mesmo modo, tudo o que vem do mar é puro. E o utensílio de madeira que vem na medida, que contém quarenta se’á em líquido, que são um kor em seco, também é puro de tudo, porque não se carrega cheio. E do mesmo modo, uma coisa que não tem sobre si a condição de utensílio, ou que tem a condição de utensílio mas não é dos que servem ao homem, e sim dos que servem aos que servem — é pura; como o tarbus das azeitonas, o mafatz dos lagares e o lençol de figuras, dos quais dizemos na mishná que são puros de tudo, porque não são considerados utensílios dos que servem ao homem.
Com esta décima sétima mishná, encerra-se o Perek Vinte e Quatro de Massechet Keilim — o mais extenso capítulo do tratado até aqui, dedicado a uma longa sequência de listas ternárias que percorrem quase todo o universo material da vida cotidiana e artesanal da época: escudos, carroças, gamelas, baús, estojos de couro, bases, tabuinhas de escrever, camas, cestos, esteiras, odres, sacolas, couros, lençóis, toalhas, luvas de caça e redes de cabelo.
Ao longo de suas dezessete mishnayot, o capítulo aplica, repetidas vezes, a mesma estrutura tripla que rege toda a matéria de impureza dos vasos domésticos: o objeto feito ou apto para deitar-se, sentar-se ou apoiar-se é impuro pela pisadela do zav, a categoria mais grave; o objeto que é utensílio de uso mas não de assento é impuro apenas por impureza de morto e pelas demais impurezas gerais; e o objeto que carece da condição plena de utensílio — por seu material, por seu tamanho, por servir apenas aos servidores do homem, ou por vir na medida-padrão de quarenta se’á — é totalmente puro.
A mishná 24:10 recebeu atenção especial do Rambam, que nela expôs o estatuto peculiar do mafatz (a esteira simples): impuro por pisadela e por impureza de morto segundo o Talmud Bavli (Shabat 84a), mas sem purificação alguma na mikvê, exceto pelo corte até restar dele menos que a medida mínima.
A última mishná, 24:17, fechou o capítulo com a lei dos cestos compostos de peças remendadas — que seguem a peça sólida, a maior ou a interna —, e com a opinião de Rabi Shimon sobre a concha de balança colada ao fundo de uma caldeira, ilustrando, num último exemplo concreto, os mesmos princípios que atravessam todo o capítulo.
O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Vinte e Cinco, que continuará explorando as leis de impureza dos vasos ao longo dos cinco perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.