Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Zayin · Mishná 2 de 6

O dachon: puro quanto à kirá, impuro quanto ao vaso receptor

דָּכוֹן שֶׁיֶּשׁ בּוֹ בֵית קִבּוּל קְדֵרוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O dachon (prateleira lateral) com receptáculo de panelas, puro quanto à lei da kirá e impuro quanto à lei de vaso receptor; seus lados, sempre isentos; sua parte larga, em disputa entre Rabi Meir e Rabi Yehudá; e a mesma regra para a cesta invertida sob uma kirá construída

Um dachon que tem nele um receptáculo de panelas é puro quanto à kirá, e impuro quanto a vaso receptor. Quanto aos seus lados: aquele que os toca não se torna impuro por kirá. Quanto à sua parte larga: Rabi Meir purifica, e Rabi Yehudá impurifica. E do mesmo modo, aquele que vira a cesta e faz sobre ela uma kirá.

O dachon é uma prateleira ou saliência ligada à kirá, sobre a qual se pousa a panela quando é retirada do fogo; às vezes tem, ele próprio, um receptáculo capaz de conter uma ou duas panelas. Sua condição legal é dupla e depende de qual lei se aplica: como parte da kirá, o dachon é puro, pois não é ele mesmo o local do fogo nem o assentamento da cocção; mas, como vaso independente que recebe objetos em seu receptáculo, ele se sujeita à lei geral dos vasos receptores, e por isso pode se tornar impuro por essa via. Os lados do dachon — suas paredes externas, que não fazem parte do receptáculo nem da kirá propriamente dita — ficam isentos por completo: quem os toca não se torna impuro pela lei da kirá, pois eles não têm essa função. Já sobre sua “parte larga” — a superfície ou parede que liga o receptáculo do dachon ao corpo da kirá, e sobre a qual também é possível assentar uma panela — há disputa: Rabi Meir não a considera parte da kirá, e por isso a purifica; Rabi Yehudá a considera parte funcional da kirá, e por isso a impurifica. A mishná conclui com um caso análogo: aquele que vira uma cesta de vime ou de madeira e constrói sobre ela uma kirá, de modo que a cesta sirva de base, e sua largura sobressaia para fora das paredes da kirá, formando ali um apoio semelhante ao dachon — a essa saliência aplicam-se as mesmas regras.

דָּכוֹן שֶׁיֶּשׁ בּוֹ בֵית קִבּוּל קְדֵרוֹת, טָהוֹר מִשּׁוּם כִּירָה, וְטָמֵא מִשּׁוּם כְּלִי קִבּוּל. הַצְּדָדִין שֶׁלּוֹ, הַנּוֹגֵעַ בָּהֶם אֵינוֹ טָמֵא מִשּׁוּם כִּירָה. הָרַחַב שֶׁלּוֹ, רַבִּי מֵאִיר מְטַהֵר, וְרַבִּי יְהוּדָה מְטַמֵּא. וְכֵן הַכּוֹפֶה אֶת הַסַּל וְעוֹשֶׂה עַל גַּבָּיו כִּירָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 7:2
היו עושים מחרס תמונה מרובע ארוך לו אורך ורוחב וגובה…

Faziam de barro uma figura retangular, com comprimento, largura e altura, oca por dentro, e sua superfície superior perfurada com furos redondos, um diante do outro; e a enchiam por dentro com cinza quente, e a montavam por inteiro em sua cabeceira, e a chamavam dachon. E “dachon” e “duchan” são a mesma palavra, pois sua forma é a forma do duchan, que é a plataforma elevada. E a diferença entre ser impuro por lei de kirá ou por lei de vaso receptor é esta: quando sua impureza se dá por ser um vaso que recebe, ele não se torna impuro se estiver construído ligado à terra; e do mesmo modo, quando se perfura até que saia dele aquilo que é feito para receber, não se torna impuro, como se explicou no terceiro capítulo; mas a kirá não é assim.

Disse: e do mesmo modo, aquele que vira uma cesta e faz sobre ela uma kirá — e já sabes que a cesta é da categoria dos vasos de madeira — ela se torna impura por lei de vaso de madeira, não por lei de kirá; e, se a kirá precisar dela, sua parte larga é uma superfície mais larga que ela, ligada a ela, sobre a qual se assentam as panelas no momento da cocção. E do mesmo modo, quando esse dachon se torna impuro, e os alimentos e as bebidas o tocam por fora, julga-se por ele como sendo um vaso receptor: quando se perfura na medida conhecida, é puro e não se torna impuro; e não se julga por ele como sendo uma kirá; e aquilo que se torna impuro é tudo o que é apto para que se cozinhe sobre ele, conforme se explicou (Shabat 38b). E a lei é como Rabi Yehudá.

Bartenura · Keilim 7:2
דָּכוֹן. לְשׁוֹן מָקוֹם. כְּמוֹ דוּךְ פְּלַן…

Sobre “dachon”: termo de lugar, como “duch pelan” (Berachot 18b). E é um lugar saliente da kirá, de modo que, quando se retira a panela da kirá, coloca-se sobre essa saliência; e às vezes tem um receptáculo para duas ou três panelas.

Sobre “puro quanto à kirá”: pois, se a kirá se torna impura, ele não se torna impuro; ou então, porque ele não se torna impuro estando ligado [à terra], como a kirá.

Sobre “seus lados”: as paredes do dachon, que não fazem parte da kirá.

Sobre “sua parte larga”: é a própria parede da kirá, do lado do receptáculo do dachon; e, como o dachon se alarga na direção da kirá, chama-se a isso “rachav” (largo).

Sobre “Rabi Meir purifica”: pois não é considerada como a kirá.

Sobre “e Rabi Yehudá impurifica”: pois é considerada como a kirá. E a lei é como Rabi Yehudá.

Sobre “e do mesmo modo, aquele que vira a cesta”: e constrói sobre ela uma kirá, que sobressai para fora da kirá. E a cesta se torna impura por lei de vaso de madeira; e, quando se constrói sobre ela uma kirá, e a largura da cesta sobressai para fora das paredes da kirá, e ali se assentam as panelas sobre essa saliência, sua lei é como a do dachon.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.