Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Alef · Mishná 4 de 9

Da zavá ao morto, o mais grave de todos

לְמַעְלָה מִן הַזָּב, זָבָה, שֶׁהִיא מְטַמְּאָה אֶת בּוֹעֲלָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra a escala dos avot hatumá: acima do zav está a zavá, acima dela o metzora, acima dele o osso do tamanho de um grão de cevada — e mais grave que todos, o morto, único capaz de contaminar por ohel (tenda)

Acima do zav, a zavá, pois ela contamina aquele que tem relação com ela. Acima da zavá, o metzora, pois ele contamina por entrada [numa casa]. Acima do metzora, o osso do tamanho de um grão de cevada, pois ele contamina por sete dias. Mais grave que todos estes, o morto, pois ele contamina por ohel (tenda), o que nenhum dos outros faz.

A mishná conclui a escala ascendente dos avot hatumá com quatro últimos degraus. A zavá supera o zav porque ela, ao contrário dele, contamina aquele que tem relação com ela com impureza de sete dias completos (assim como a impureza que ela mesma transmite), enquanto o parceiro do zav recebe apenas impureza comum de contato. Acima da zavá está o metzora, que introduz uma modalidade de contaminação inteiramente nova: a contaminação por “entrada” (biá) — quando o metzora entra numa casa, tudo o que está dentro dela se torna impuro, mesmo sem qualquer contato físico. Acima do metzora está o osso do tamanho de um grão de cevada, que introduz outra novidade: ele contamina por sete dias inteiros (como o próprio cadáver), enquanto o metzora, apesar de contaminar por entrada, não impõe esse prazo de sete dias por esse motivo específico. E, no topo absoluto de toda a escala, está o morto (met) — mais grave que todos os anteriores, pois somente ele contamina por “ohel”, isto é, por estar sob o mesmo teto ou cobertura que uma pessoa ou objeto, mesmo sem entrada direta e sem contato algum. Com este último grau, fecha-se a introdução do tratado à hierarquia completa das fontes de impureza, preparando o terreno para as mishnayot seguintes, que tratarão da hierarquia paralela das santidades.

לְמַעְלָה מִן הַזָּב, זָבָה, שֶׁהִיא מְטַמְּאָה אֶת בּוֹעֲלָהּ. לְמַעְלָה מִן הַזָּבָה, מְצֹרָע, שֶׁהוּא מְטַמֵּא בְּבִיאָה. לְמַעְלָה מִן הַמְּצֹרָע, עֶצֶם כַּשְּׂעֹרָה, שֶׁהוּא מְטַמֵּא טֻמְאַת שִׁבְעָה. חָמוּר מִכֻּלָּם, הַמֵּת, שֶׁהוּא מְטַמֵּא בְאֹהֶל, מַה שֶּׁאֵין כֻּלָּם מְטַמְּאִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 1:4
כבר ידעת שזבה ונדה דינן שוה בטומאה. וכאשר בעל האדם זבה הוא יטמא שבעת ימים…

Rambam observa que a lei da zavá é igual à da menstruada em matéria de impureza: quando um homem tem relação com uma zavá, ele fica impuro por sete dias inteiros, conforme já se estabeleceu sobre “e sua menstruação virá sobre ele”. Mas o zav, quando tem relação com uma mulher, não a torna fonte primária de impureza — apenas primeiro grau, como se ela tivesse tocado com a mão numa fonte impura; e o mesmo vale para quem tem relação com uma zavá: apenas se torna como quem tocou uma fonte primária, e não fonte primária ele mesmo.

Sobre o metzora, Rambam explica, apoiando-se em Massechet Nega'im, que quando ele entra numa casa, tudo o que está dentro dela se contamina, mesmo sem qualquer contato — conforme o versículo “fora do acampamento será sua morada”, do qual a tradição extrai que “sua morada é impura”, referindo-se à sua “entrada”. Essa lei aplica-se apenas ao metzora em seus “dias de conclusão” (isto é, durante o período ativo da lepra), não em seus “dias de contagem” (após a cura). Do fato de a mishná colocar o metzora acima da zavá, Rambam conclui que o metzora também contamina por carregamento como ela, e que também forma objeto de deitar como o zav e a zavá.

Sobre o osso do tamanho de um grão de cevada, Rambam remete ao início de Massechet Ohalot, onde se explica esta lei baseada em “e todo o que tocar num osso, ou numa sepultura, ficará impuro”. Explica que a mishná não menciona aqui a vaca ruiva, o bode enviado (sair hamishtaleach) nem os bodes queimados, pois estes não contaminam por contato nem por carregamento — apenas por um ato específico de manuseio, sem relação com a ordem crescente aqui estabelecida.

Bartenura · Keilim 1:4
שֶׁהִיא מְטַמְּאָה אֶת בּוֹעֲלָהּ. טֻמְאַת שִׁבְעָה…

Bartenura explica: “pois ela contamina aquele que tem relação com ela” refere-se à impureza de sete dias — pois está escrito sobre a menstruada “e sua menstruação virá sobre ele, ficará impuro por sete dias”, e está escrito também sobre a zavá “como os dias de sua menstruação será impura”, ensinando-se por analogia que ela contamina aquele que tem relação com ela da mesma forma. Mas o zav não contamina sua parceira com impureza de sete dias, apenas com impureza de contato e carregamento.

Sobre “acima da zavá, o metzora”: porque o metzora forma objeto de deitar e de sentar como a zavá, e é ainda mais grave, pois contamina por entrada — quando entra numa casa, tudo o que está dentro fica impuro, mesmo sem contato, pois está escrito “fora do acampamento será sua morada”, ensinando que sua morada é impura. Daqui disseram: se o metzora se senta debaixo de uma árvore e um puro passa, o puro se contamina; mas se o puro está sentado debaixo da árvore e o metzora passa, o puro não se contamina. O mesmo vale para a veste ou pedra com a mancha da lepra. E isto se aplica apenas ao metzora em seus dias de reclusão definitiva (chilut), não em seus dias de contagem, isto é, após a tosquia e os pássaros, quando ele não contamina por entrada nem forma objeto de deitar e sentar.

Sobre “acima do metzora, o osso do tamanho de um grão de cevada, pois ele contamina impureza de sete dias”: pois está escrito “e lavareis vossas vestes no sétimo dia, e ficareis puros” — todas as impurezas com que vos contaminais por um morto não serão menores que sete dias. E ainda que o metzora seja mais grave que o osso do tamanho de um grão de cevada — pois o metzora contamina tudo o que está na tenda quando entra nela, e o osso não contamina por ohel — ainda assim, nesta escala particular, o osso é mais grave, pois contamina impureza de sete dias. E assim todos esses graus “acima” mencionados não significam que o segundo seja mais grave que o primeiro em tudo — há muitos casos em que o primeiro tem uma gravidade que o segundo não tem — mas apenas quanto ao aspecto específico enumerado é que o segundo é mais grave.

Sobre “mais grave que todos, o morto”: há entre os anteriores alguns mais graves que o morto em certos aspectos — pois o zav e a zavá formam objeto de deitar e de sentar, e contaminam sob uma pedra pesada, o que o morto não faz. Mas, nesta escala particular, o morto é o mais grave de todos, pois contamina por ohel. E aquilo em que o metzora contamina por entrada não é como a impureza de ohel: se ele apenas introduziu a mão numa casa contaminada, a casa permanece pura; e mesmo que ele entre inteiro exceto pelo nariz, permanece pura, pois entrada parcial não se chama entrada — até mesmo uma divisória protege a casa onde está o metzora, como se ensina em Nega'im, capítulo 13: se ele entra numa sinagoga, fazem-lhe uma divisória de dez palmos de altura, entrando ele primeiro e saindo por último. Já o morto contamina por ohel mesmo em circunstâncias equivalentes a essas. Há também outra distinção: entre metzora sentado e metzora passando, como explicado acima, o que não ocorre com o morto.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.