Rabi Shimon diz: os cordeiros precedem as cabras em todo lugar. Poder-se-ia pensar que é porque são mais escolhidos que elas — ensina o versículo (Vayicrá 4): “e se um cordeiro trouxer seu sacrifício para chatat” — ensina que ambos são equivalentes. As rolas precedem os pombinhos em todo lugar. Poder-se-ia pensar que é porque são mais escolhidos que eles — ensina o versículo (ali, 12): “e um pombinho ou uma rola para chatat” — ensina que ambos são equivalentes. O pai precede a mãe em todo lugar. Poder-se-ia pensar que a honra do pai supera a honra da mãe — ensina o versículo (ali, 19): “cada homem, a sua mãe e a seu pai temerás” — ensina que ambos são equivalentes. Mas disseram os Sábios: o pai precede a mãe em todo lugar, porque ele e sua mãe são obrigados na honra de seu pai. E assim no estudo da Torá: se o filho mereceu diante do mestre, precede o pai em todo lugar, porque ele e seu pai são obrigados na honra de seu mestre.
— A última mishná do tratado extrai um princípio hermenêutico geral a partir de três pares que, na prática cotidiana e na ordem usual de menção da Torá, aparecem sempre na mesma sequência fixa. Em cada caso, Rabi Shimon poderia ter concluído, da ordem sistemática de menção — cordeiros antes de cabras, rolas antes de pombinhos — que a espécie mencionada primeiro é objetivamente superior, mais escolhida, que a segunda. Mas ele demonstra o contrário a partir de um único versículo em que a ordem se inverte: a respeito da chatat do indivíduo comum, a Torá diz primeiro “se uma cabra trouxer seu sacrifício” e depois “se um cordeiro trouxer seu sacrifício”, prova de que a sequência habitual não reflete hierarquia real, mas apenas costume de menção — e o mesmo raciocínio se aplica ao par de aves, rolas e pombinhos, cuja ordem também se inverte em Vayikra 12 a respeito da oferenda da parturiente. O terceiro par, pai e mãe, é o mais delicado: a Torá poderia sugerir que a honra devida ao pai supera a devida à mãe, pois em geral ele é mencionado primeiro; mas o próprio versículo do temor devido aos pais (Vayikra 19) inverte a ordem, mencionando a mãe antes do pai, provando que, no plano estritamente bíblico, o dever de honra e temor para com ambos é rigorosamente equivalente. Os Sábios, contudo, acrescentam uma camada prática que não contradiz esse princípio, mas o complementa: na prática cotidiana, o pai precede a mãe, não porque a Torá o valorize mais, mas porque a própria mãe está, ela mesma, obrigada a honrar o marido — e essa obrigação adicional da mãe justifica, na prática, dar precedência ao pai sem negar sua equivalência bíblica de fundo. A mishná fecha o tratado inteiro com o paralelo mais elevado dessa mesma lógica: no estudo da Torá, se um discípulo já recebeu a maior parte de sua formação intelectual de um mestre determinado, esse mestre precede o próprio pai do discípulo em qualquer situação prática — devolver um objeto perdido, resgatar do cativeiro, socorrer em perigo de vida — pelo mesmo raciocínio: o próprio pai está, ele também, obrigado a honrar aquele mestre. Assim, o tratado que começou classificando as trinta e seis transgressões que separam a pessoa de seu povo termina afirmando, no caso mais próximo e pessoal de todos, que toda precedência humana repousa, em última análise, sobre obrigações recíprocas de honra, e não sobre hierarquias absolutas de valor.
“E se um cordeiro trouxer seu sacrifício para chatat, fêmea sem defeito o trará” — este versículo, que menciona o cordeiro depois de o versículo anterior já ter mencionado a cabra, é a base de Rabi Shimon para provar que a Torá considera cordeiros e cabras absolutamente equivalentes como oferenda de chatat, apesar de o cordeiro ser costumeiramente mencionado primeiro em outros contextos.
“E, quando se completarem os dias de sua purificação, por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano para olá e um pombinho ou uma rola para chatat, à entrada da tenda do encontro, ao sacerdote” — ao mencionar o pombinho antes da rola, invertendo a ordem costumeira, este versículo prova que rolas e pombinhos são, perante a Torá, absolutamente equivalentes como oferenda de ave.
“Cada homem, a sua mãe e a seu pai temerás, e meus sábados guardareis; Eu sou o Eterno, vosso Deus” — ao mencionar a mãe antes do pai, este versículo prova que o temor devido a ambos os pais é, no plano bíblico, absolutamente equivalente, ainda que a lei rabínica estabeleça, por outro motivo, a precedência prática do pai.
רבי שמעון אומר כבשים קודמין לעזים בכל מקום כו': כבר נתבאר בסוף פרק שני ממציעא שאם היה אביו תלמיד חכם אביו קודם לרבו ואפילו היה רבו מובהק רוצה לומר שרוב חכמתו ממנו והוא כוונתו במה שאמר כאן אם זכה הבן לפני הרב רוצה לומר שקבל ממנו רוב חכמתו: ומה שאמר בכ"מ רוצה לומר להשיב אבידה ולפדות ולהחיות ולפרוק מעליו כמו שנזכר במציעא והדומים לו מכל הדברים שיש בהם לבסוף נזק או תועלת רבו קודם והענין כולו מבואר. סליק פירוש המשניות להרמב"ם ממסכת כריתות
Bartenura explica: “os cordeiros precedem as cabras” — em todo lugar o versículo antecipa os cordeiros às cabras, como está escrito (Shemot 12) “dos cordeiros e das cabras tomareis”, e assim também (Bamidbar 15) “ou para a rês entre os cordeiros ou entre as cabras”. Poder-se-ia pensar que quem disser “sobre mim uma olá” e tiver um cordeiro e uma cabra, deva trazer especificamente o cordeiro. “Ensina o versículo: e se um cordeiro trouxer seu sacrifício”: e antes desse, está escrito “e trará seu sacrifício, uma cabra” — aqui a Torá antecipou a cabra ao cordeiro, para ensinar que ambos são equivalentes, e traga o que quiser. “As rolas precedem os pombinhos”: pois na maioria dos lugares está escrito primeiro rolas e depois pombinhos. “O pai precede a mãe”: em todo lugar, como socorrer, resgatar do cativeiro, sustentar e descarregar junto com ele. E se seu pai é sábio, mesmo que não seja equivalente a seu mestre, seu pai precede o mestre, mesmo que o mestre seja um mestre principal.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Vav, sexto e último capítulo, e com ele toda a Massechet Keritot. A Guemará do Talmud Bavli fecha o tratado, em Keritot 28b, com a fórmula tradicional acima — “Retornaremos a ti, 'Aquele que traz um asham', e concluída está a Massechet Keritot” —, o hadran que expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado, citando as palavras de abertura do próprio Perek Vav. A Guemará escolhe encerrar a última página do tratado com um ensinamento de paz: “disse Rabi Elazar, em nome de Rabi Chanina: os sábios da Torá multiplicam a paz no mundo, como está dito (Yeshayahu 54): 'e todos os teus filhos serão discípulos do Eterno, e grande será a paz de teus filhos' — não leias banaich, teus filhos, mas bonaich, teus construtores.”
Este último capítulo, distribuído por Keritot 23b–28b, retomou o asham talui do Perek Hei sob um ângulo diferente: o destino do animal quando se descobre, antes ou depois do abate, que a dúvida não correspondia a pecado real (6:1), contrastado com o asham certo, o boi apedrejado e a novilha decapitada, cada um com seu próprio ponto de não retorno (6:2); a disputa entre Rabi Eliezer, para quem o asham talui é essencialmente uma oferenda voluntária dos piedosos, e os Sábios, que o restringem à dúvida concreta de transgressão grave (6:3); o alcance do Dia do Perdão sobre cada tipo de obrigação, conforme o grau de conhecimento do próprio pecado (6:4) e sua aplicação ao caso específico da parturiente em dúvida (6:5); a mecânica das duas selaim mínimas do asham e as três combinações de compra com dinheiro consagrado (6:6); o princípio de que cada chatat pertence exclusivamente à pessoa e ao pecado exato que a gerou, sem transferência nem para o próprio filho (6:7); a flexibilidade — e seus limites — entre os quatro graus da oferenda escalonada (6:8); e, por fim, o princípio de que os pares de espécies aparentemente desiguais nos sacrifícios — cordeiros e cabras, rolas e pombinhos, pai e mãe — são, perante a Torá, absolutamente equivalentes, ainda que o costume e a lei rabínica estabeleçam precedências práticas entre eles (6:9).
Massechet Keritot, dedicada às transgressões puníveis com caret e às ofertas que as expiam, percorreu seis perakim e quarenta e três mishnayot: desde a lista das trinta e seis transgressões de caret e a mecânica dupla de chatat e asham talui (Perek Alef), passando pelas leis da mulher em dúvida sobre o parto e da chatat comum trazida por várias pessoas (Perek Bet), pela classificação minuciosa dos tipos de gordura proibida e permitida (Perek Guimel), pelas condições exatas de responsabilidade por transgressão inadvertida (Perek Dalet), pela série combinatória de dúvidas entre peças consagradas, proibidas e comuns que fecha o Perek Hei, até este capítulo final sobre o asham talui, o Dia do Perdão, o valor do asham e a oferenda escalonada. Segue-se, na ordem de Seder Kodashim, Massechet Meilá, dedicada às leis do uso indevido de bens consagrados ao Templo.