Massechet Keritot, o sétimo tratado de Seder Kodashim, recebe seu nome da palavra caret — a extirpação, o corte da alma perante o Céu, a mais grave das penas que a Torá impõe sem intervenção de um tribunal humano. O tratado abre enumerando as trinta e seis transgressões às quais a Torá associa esta pena quando cometidas intencionalmente e sem testemunhas de advertência: os incestos mais graves, a idolatria, a blasfêmia, a profanação do Shabat e do Dia do Perdão, o consumo de sangue e gordura proibida, o abate fora do Templo, e a mistura ilícita do óleo da unção e do incenso, entre outras. A partir daí, Massechet Keritot desenvolve o sistema tríplice de responsabilidade que rege cada uma destas transgressões: caret para quem age intencionalmente, uma oferenda pelo pecado (chatat) de valor fixo para quem age por engano, e um asham talui — oferta de culpa condicional — para quem tem apenas dúvida se transgrediu. O tratado dedica também largo espaço às ofertas de parturiente e às incertezas médicas e rituais que cercam o aborto, examinando com precisão notável quando um feto abortado obriga, isenta, ou deixa em dúvida a mulher quanto à oferenda devida.
Com Rambam, Bartenura e Rashi: o capítulo abre com a lista das trinta e seis extirpações da Torá (1:1) e o princípio tríplice — caret na intenção, chatat no engano, asham talui na dúvida — com as exceções da contaminação do Templo (Rabi Meir) e da blasfêmia (Sábios) (1:2). Segue com uma série dedicada às ofertas de parturiente e à incerteza sobre o que foi abortado: as que trazem oferenda comida, com a divergência entre Rabi Meir e os Sábios sobre a forma exigida (1:3); as que trazem oferenda não comida, por permanecer a dúvida, com a distinção de Rabi Yossi entre mulheres separadas e reunidas (1:4); as que não trazem oferenda alguma — sacos fetais sem forma, criaturas não humanas, o aborto antes do quadragésimo dia e a cesariana, com a divergência de Rabi Shimon (1:5); o longo debate entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre o caso-limite da noite do octogésimo primeiro dia (1:6); e fecha com o princípio de que múltiplas dúvidas ou certezas de fluxo ou parto exigem apenas uma oferenda, encerrado com o episódio histórico de Rabban Shimon ben Gamliel, que baixou o preço exorbitante dos ninhos em Jerusalém ensinando esta lei publicamente diante do tribunal (1:7).
Com Rambam, Bartenura e Rashi: o capítulo abre contrastando os que “carecem de expiação” — já purificados pela imersão, mas ainda impedidos de comer consagrados até trazerem sua oferenda — com os que trazem a mesma oferenda tanto pelo intencional quanto pelo involuntário (2:1–2:2). Segue com a acumulação de transgressões repetidas sob uma única oferenda: a serva visitada muitas vezes, o nazireu recontaminado, o marido ciumento com múltiplos suspeitos, o leproso com recaídas sucessivas (2:3), e a mulher que perde vários fetos em sequência, com a divergência de Rabi Yehuda (2:4). A segunda metade dedica-se a uma comparação recorrente entre a serva meio-escrava prometida a um servo hebreu e todas as demais relações proibidas — pena, gênero da oferenda, responsabilidade de cada parte, consumação do ato e a exceção do intencional (2:4), a definição precisa de quem é essa serva, com as opiniões de Rabi Akiva, Rabi Yishmael e Rabi Elazar ben Azarya (2:5), e por fim as isenções do menor e do adormecido, que a serva, sozinha entre as relações proibidas, não segue (2:6).
O maior capítulo do tratado, com Rambam e Bartenura: o capítulo abre retomando a chatat por comer gordura proibida sob um ângulo novo: quando a palavra de terceiros ou a admissão do próprio pecador estabelece a obrigação (3:1), quantas porções da mesma espécie se somam numa única inadvertência e quantas espécies distintas se separam (3:2), e o limite de tempo — o kedei achilat peras — dentro do qual essa soma vale, estendido também à impureza alimentar e ao vinho na entrada do Templo (3:3). Segue tratando da acumulação de proibições distintas sobre um único ato: o impuro que come, em Yom Kipur, gordura consagrada já tornada sobra ritual, acumulando quatro chatot e um asham (3:4); e uma sequência de casos de relações proibidas em que a mesma mulher acumula seis ou mais nomes proibidos para o mesmo homem, ao longo de sucessivos casamentos — a filha e a neta (3:5), a sogra e as gerações acima dela (3:6). A segunda metade registra quatro perguntas que Rabi Akiva levou a seus próprios mestres: sobre a irmã que é também irmã do pai e da mãe (3:7), sobre o membro pendente do animal, resolvido por analogia aos doentes de chagas de Jerusalém (3:8), sobre abater ou comer sobra ritual de cinco sacrifícios, com a réplica do próprio Rabi Akiva ao caal vachomer que lhe ofereceram (3:9), e sobre trabalhos repetidos em vários Shabatot, num vaivém de provas com Rabi Eliezer que a mishná deixa, deliberadamente, sem solução (3:10).
Com Rambam, Bartenura e Rashi: o capítulo mais breve do tratado até aqui reúne os casos de dúvida genuína que obrigam ao asham talui: as cinco dúvidas sobre o fato, a medida, o item, a pessoa e o dia (4:1); o duplo paralelo entre a soma de porções e a multiplicação por espécies distintas, aplicado à gordura e à sobra ritual, à esposa nidá e à irmã, e ao crepúsculo entre Shabat e Yom Kipur, com a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre a exigência de identificação precisa do pecado (4:2); e o fecho, em que Rabi Shimon Shezuri, Rabi Shimon e Rabi Yehuda refinam essa disputa até seu limite mais estreito — a diferença entre a intenção geral de transgredir e a execução precisa do ato —, com a exclusão do mitassek a partir do próprio texto de Vayikra (4:3).
Com Rambam, Bartenura e Rashi: o capítulo abre classificando os sangues do abate que obrigam a caret ou chatat — degola, perfuração, arrancamento e sangria mortal — e os que ficam isentos por não serem dam hanefesh, com a divergência de Rabi Yehuda sobre o sangue do escorrimento (5:1). Segue-se um bloco sobre a dúvida de meilá: a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios sobre se ela obriga ao asham talui, a proposta de Rabi Tarfon de unificar pagamento e oferta condicional (5:2), a restrição de Rabi Akiva a essa proposta aos casos de valor pequeno, e o caso paralelo da chatat de ave da mulher em dúvida sobre o parto (5:3). A segunda metade desenvolve, com rigor quase matemático, a série das duas peças em dúvida — não sagrada e consagrada (5:4), não sagrada e gordura proibida (5:5), gordura proibida e consagrada (5:6), gordura proibida comum e consagrada (5:7), e gordura proibida comum e sobra ritual (5:8) — mantendo ao longo de toda a série a disputa entre Rabi Shimon, que permite sociedade condicional entre dois comensais, e Rabi Yosei, que a rejeita.
Com Rambam, Bartenura e Rashi — fecho do tratado: o capítulo final retoma o asham talui do Perek Hei sob um ângulo novo: o destino do animal quando se descobre, antes ou depois do abate, que a dúvida não correspondia a pecado real, contrastado com o asham certo, o boi apedrejado e a novilha decapitada (6:1–6:2). Segue a disputa entre Rabi Eliezer, para quem o asham talui é essencialmente uma oferenda voluntária dos piedosos, e os Sábios, que o restringem à dúvida concreta de transgressão grave (6:3), o alcance do Dia do Perdão sobre cada tipo de obrigação (6:4–6:5), a mecânica das duas selaim mínimas do asham (6:6), o princípio de que cada chatat pertence exclusivamente à pessoa e ao pecado exato que a gerou (6:7), a flexibilidade entre os quatro graus da oferenda escalonada (6:8), e fecha com o ensinamento de Rabi Shimon de que cordeiros e cabras, rolas e pombinhos, pai e mãe são pares absolutamente equivalentes perante a Torá (6:9) — encerrado pela Guemará com a fórmula tradicional do hadran e um ensinamento sobre a paz que os sábios da Torá multiplicam no mundo.