Em todas as relações proibidas: seja um adulto, seja um menor — o menor é isento. Seja um desperto, seja um adormecido — o adormecido é isento. Seja um agente involuntário, seja um agente intencional — o involuntário responde com chatat, e o intencional com caret.
— A mishná fecha o Perek Bet retomando, uma última vez, o contraste entre a serva prometida e as demais relações proibidas que dominou as três mishnayot anteriores — mas agora pela via inversa: em vez de anunciar explicitamente a diferença, enuncia a regra geral válida para todas as relações proibidas comuns, deixando à Guemará explicitar, em cada cláusula, como o caso da serva se desvia dela. Em toda relação proibida, se um dos participantes é menor de idade (sem capacidade jurídica para o ato) e o outro é adulto, apenas o adulto responde; o menor está isento e o maior é obrigado. Se um dos participantes está desperto e o outro dormindo, sem consciência do ato, o que dormia está isento e o desperto é obrigado. E, quanto à consciência do próprio ato proibido, o padrão já conhecido se repete: o involuntário expia com uma chatat, o intencional responde com caret. Como mostra a Guemará, na serva prometida cada uma destas três cláusulas se altera radicalmente, porque ali a obrigação de um depende sempre da punibilidade da outra: se ela é menor ou dorme, também ele fica isento, ainda que seja adulto e desperto — pois o versículo equipara sua oferenda aos açoites dela, e sem açoites não há oferenda.
Rambam explica que já se esclareceu no sétimo capítulo de Sanhedrin que aquele que se deita com uma menor é responsável quando ele é adulto, sendo ela de três anos e um dia ou mais; e igualmente o menor cuja parceira é adulta, se ele tem nove anos e um dia, pois abaixo de nove anos e um dia sua penetração não é considerada penetração — e isto vale para as demais relações proibidas. Mas quanto à serva prometida, ele não é responsável por uma menor, ainda que ela tenha mais de três anos e um dia, até que ela seja adulta; e igualmente nas demais relações proibidas, tanto o desperto quanto o adormecido são responsáveis, exceto na serva prometida, onde, se ela estava dormindo, ele também é isento — saiba isto. E já se esclareceu que não há diferença nela entre o involuntário e o intencional.
Bartenura explica que “todas as relações proibidas”: se um dos dois, o homem ou a mulher, é adulto, e o outro é menor, o menor é isento e o adulto é obrigado. Mas na serva não é assim: se um dos dois é menor, o adulto também é isento, pois estão equiparados um ao outro — “bikoret haverá” e “e trará seu asham” — quando ela é açoitada, ele traz oferenda; se a mulher não é açoitada, o homem não traz oferenda. Sobre “seja um desperto, seja um adormecido — o adormecido é isento”: e o desperto é obrigado; mas na serva prometida o desperto também é isento, pois estão equiparados um ao outro, como dissemos. Sobre “o involuntário responde com chatat e o intencional com caret”: e na serva prometida, se ele age intencionalmente e ela involuntariamente, ambos são isentos, pois, não sendo a mulher açoitada, o homem não traz asham; mas se ele age involuntariamente e ela intencionalmente, ela é açoitada e ele responde com oferenda.
Rashi explica que “todas as relações proibidas”: se um dos dois, o homem ou a mulher, é adulto, e o outro é menor, um é obrigado e o outro é isento; e na serva não é assim, como se explica na Guemará. Sobre “o involuntário responde com chatat e o intencional com caret”: e na serva, embora, se ele age intencionalmente e ela involuntariamente, ambos sejam isentos — visto que ela não é açoitada, conforme dissemos acima “bikoret haverá, e trará seu asham”, e, se não [é açoitada], são isentos — contudo, se ele age involuntariamente e ela intencionalmente, ela responde com açoites e ele com asham, como dissemos neste mesmo capítulo, que o involuntário e o intencional são iguais no caso de quem se deita com a serva.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Bet de Massechet Keritot. O capítulo abriu contrastando duas categorias de acúmulo distintas das que fecharam o Perek Alef: os que “carecem de expiação” — já purificados pela imersão, mas ainda impedidos de comer consagrados até trazerem sua oferenda — e os que trazem a mesma oferenda tanto pelo ato intencional quanto pelo involuntário (2:1–2:2). Em seguida, tratou da acumulação de transgressões repetidas sob uma única oferenda: a serva visitada muitas vezes, o nazireu recontaminado, o marido ciumento com múltiplos suspeitos, o leproso com recaídas sucessivas (2:3), e a mulher que perde vários fetos em sequência, com a divergência de Rabi Yehuda sobre quais partos exigem oferenda separada (2:4). A segunda metade do capítulo dedicou-se a uma comparação sistemática e recorrente entre a serva meio-escrava prometida a um servo hebreu e todas as demais relações proibidas da Torá — contrastando pena, gênero da oferenda, responsabilidade do homem e da mulher, o que conta como consumação do ato, e a exceção do intencional (2:4), a definição precisa de quem é essa serva, com as opiniões de Rabi Akiva, Rabi Yishmael e Rabi Elazar ben Azarya (2:5), e por fim as isenções do menor, do adormecido, e a regra geral de involuntário e intencional que a serva, sozinha entre todas as relações proibidas, não segue (2:6).
O tratado prossegue no Perek Guimel, com a regra de que aquele que come gordura proibida em cinco tigelas distintas pode, conforme o caso, ser obrigado a uma ou a várias oferendas de chatat.