Disseram-lhe: “Comeste gordura proibida” — ele traz chatat. Uma testemunha diz: “comeu”, e uma testemunha diz: “não comeu”; uma mulher diz: “comeu”, e uma mulher diz: “não comeu” — ele traz asham talui. Uma testemunha diz: “comeu”, e ele diz: “eu não comi” — está isento. Duas testemunhas dizem: “comeu”, e ele diz: “eu não comi” — Rabi Meir o obriga. Disse Rabi Meir: se duas testemunhas o levariam a uma morte grave, não o levarão a uma oferenda leve? Disseram-lhe: e se ele quiser dizer “fui intencional”?
— A mishná abre o Perek Guimel voltando ao tema com que o tratado começou — a chatat por comer gordura proibida — mas agora pela ótica de como se estabelece a obrigação quando o próprio comensal não tem certeza, ou quando terceiros o informam do que fez. Se alguém lhe diz “comeste gordura proibida” e ele silencia, sem desmentir, isso já basta para trazer chatat, pois seu silêncio equivale a reconhecimento. Se, porém, o testemunho é dividido — uma pessoa afirma e outra nega — ele fica em dúvida genuína e traz um asham talui, a oferenda de culpa condicional. Mas se ele mesmo nega categoricamente, mesmo diante de duas testemunhas que afirmam o contrário, ele está isento de chatat: a Torá exige que seja o próprio pecador a reconhecer sua falta (“e lhe for notificado o seu pecado”), não que outros o notifiquem contra sua vontade. Rabi Meir discorda, argumentando por caal vachomer: se duas testemunhas bastam para condenar alguém à pena capital, com mais razão devem bastar para uma oferenda leve. Os sábios respondem com um argumento sutil: se ele quisesse mentir para se livrar da chatat — que só se aplica ao pecado involuntário — ele poderia simplesmente alegar que agiu intencionalmente, já que o intencional está isento de oferenda; o fato de negar o próprio ato, em vez de admiti-lo como intencional, mostra que sua palavra merece confiança, e por isso ele não é obrigado com base no testemunho alheio contra a sua própria negação.
Rambam explica que “disseram-lhe” não significa necessariamente duas pessoas, mas mesmo uma só: quando alguém lhe diz “comeste gordura proibida” e ele não a desmente, mas silencia diante do que lhe foi dito, ele traz chatat. Mas se ele tem certeza de que não comeu e diz “eu não comi”, ainda que mil pessoas testemunhem contra ele e ele as desminta, não é obrigado à chatat, pois está dito: “ou lhe for notificado o seu pecado” — e não que outros o notifiquem. E não é lei conforme Rabi Meir.
Bartenura explica “disseram-lhe”: mesmo um só que lhe diz “comeste gordura proibida” e ele silencia e não o desmente. “Ele traz chatat”: com base na palavra dele mesmo (no silêncio como reconhecimento). “Duas pessoas lhe dizem: comeste gordura proibida”: e mesmo cem; e ele as desmente e diz “tenho certeza de que não comi” — ele não traz oferenda com base na palavra delas, pois está escrito “ou lhe for notificado o seu pecado”, e não que outros o notifiquem. “Rabi Meir o obriga”: e não é lei conforme Rabi Meir. “Se duas testemunhas o levariam etc.”: como se testemunhassem contra ele que matou alguém. “E se ele quiser dizer fui intencional”: se ele quisesse se eximir com uma mentira, poderia ter dito “fui intencional”, e o intencional está isento de oferenda.