Seder Kodashim · Massechet Keritot · Perek Guimel · Mishná 2 de 10

Uma espécie soma, várias espécies separam

אָכַל חֵלֶב וְחֵלֶב בְּהֶעְלֵם אֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Duas porções da mesma proibição, numa só inadvertência, somam-se para uma única chatat; quatro proibições diferentes, na mesma inadvertência, exigem uma chatat para cada uma

Comeu gordura proibida e gordura proibida numa única inadvertência — não é obrigado senão a uma única chatat. Comeu gordura proibida, sangue, sobra e piggul numa única inadvertência — é obrigado por cada um deles. Isto é mais rigoroso em várias espécies do que numa única espécie. E é mais rigoroso numa única espécie do que em várias espécies: pois, se comeu cerca de meio azeitona e voltou a comer cerca de meio azeitona da mesma espécie, é obrigado; de duas espécies, está isento.

— A mishná continua tratando da acumulação, mas agora sobre a quantidade mínima (kazayit, o tamanho de uma azeitona) e sobre a diferença entre repetir a mesma transgressão e cometer transgressões distintas, tudo dentro de uma única inadvertência (não interrompida por um momento de consciência). Comer gordura proibida duas vezes, sem que nada tenha interrompido a inadvertência entre uma e outra, gera apenas uma chatat, porque continua sendo a mesma transgressão. Mas comer, na mesma inadvertência, quatro coisas proibidas de categorias diferentes — gordura, sangue, sobra ritual (notar) e carne imprópria por intenção errada no sacrifício (piggul) — obriga a uma chatat separada para cada uma, porque são proibições distintas, e a inadvertência única não as funde em uma só. Daí o paradoxo que a mishná explicita: há maior rigor em muitas espécies do que numa só — porque ali cada categoria gera obrigação própria mesmo sem atingir sozinha a quantidade mínima em cada uma isoladamente, contanto que cada uma tenha seu próprio kazayit; e há maior rigor numa só espécie do que em muitas — porque ali, ao contrário, duas porções menores que a medida mínima se somam para completar o kazayit e gerar obrigação, o que não ocorre quando as porções pertencem a espécies proibidas diferentes: nesse caso, se nenhuma delas sozinha chega ao kazayit, ele está isento de ambas.

אָכַל חֵלֶב וְחֵלֶב בְּהֶעְלֵם אֶחָד, אֵינוֹ חַיָּב אֶלָּא חַטָּאת אֶחָת. אָכַל חֵלֶב וְדָם וְנוֹתָר וּפִגּוּל בְּהֶעְלֵם אֶחָד, חַיָּב עַל כָּל אֶחָד וְאֶחָד. זֶה חֹמֶר בְּמִינִין הַרְבֵּה מִמִּין אֶחָד. וְחֹמֶר בְּמִין אֶחָד מִמִּינִין הַרְבֵּה, שֶׁאִם אָכַל כַּחֲצִי זַיִת וְחָזַר וְאָכַל כַּחֲצִי זַיִת מִמִּין אֶחָד, חַיָּב. מִשְּׁנֵי מִינִין, פָּטוּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keritot 3:2

Rambam explica que isto se aplica porque é uma única inadvertência; mas se comeu gordura e gordura em duas inadvertências, é obrigado a duas chatot, pois o princípio estabelecido é que as inadvertências separam. E o que diz “da mesma espécie é obrigado” vale mesmo que a preparação do cozimento tenha mudado — se comeu meio azeitona deste prato e meio azeitona daquele prato, do mesmo alimento — pois pratos diferentes não separam.

Bartenura · Keritot 3:2
חֵלֶב וְחֵלֶב. שְׁנֵי זֵיתֵי חֵלֶב: בְּהֶעְלֵם אֶחָד. אֲבָל בִּשְׁנֵי הֶעְלֵמוֹת חַיָּב עַל כָּל אֶחָד וְאֶחָד, דְּקַיְמָא לָן הֶעְלֵמוֹת מְחַלְּקִין: מִמִּין אֶחָד חַיָּב. הָא קָמַשְׁמַע לָן דְּאַף עַל גַּב דְּאֵין הַשְּׁנֵי חֲצָאֵי זֵיתִים מִתַּמְחוּי אֶחָד דְּהַיְנוּ מִתַּבְשִׁיל אֶחָד, אֶלָּא הֵם מִתַּבְשִׁילִין חֲלוּקִין, אֲפִלּוּ הָכִי מִצְטָרֵף, לְפִי שֶׁאֵין תַּמְחוּיִין מְחַלְּקִין:

Bartenura explica “gordura e gordura”: duas porções de azeitona de gordura proibida. “Numa única inadvertência”: mas em duas inadvertências é obrigado por cada uma, pois o princípio estabelecido é que as inadvertências separam. “Da mesma espécie é obrigado”: isto vem ensinar que, embora as duas meias-azeitonas não sejam do mesmo prato — ou seja, do mesmo cozido — mas de cozidos distintos, ainda assim se somam, porque os pratos não separam.