Disse Rabi Akiva: perguntei a Rabi Eliezer: quem faz muitos trabalhos, de uma mesma categoria de trabalho, em muitos Shabatot, numa única inadvertência, o que é? É obrigado a um só por todos, ou a um para cada um? Disse-me: é obrigado por cada um, por caal vachomer: e se a nidá, que não tem múltiplas consequências nem múltiplas chatot, é obrigado por cada uma relação, o Shabat, que tem múltiplas consequências e múltiplas chatot, não é justo que seja obrigado por cada um? Disse-lhe eu: não; se dissestes isso quanto à nidá, que nela há duas advertências — pois ele é advertido quanto à nidá e a nidá é advertida quanto a ele — dirás o mesmo quanto ao Shabat, que nele há apenas uma advertência? Disse-me: quem se deita com as menores o prova, que nelas há apenas uma advertência e, ainda assim, é obrigado por cada uma. Disse-lhe eu: não; se dissestes isso quanto a quem se deita com as menores, que, embora não haja nelas agora duas advertências, há nelas depois de certo tempo, dirás o mesmo quanto ao Shabat, que não há nele nem agora nem depois de certo tempo? Disse-me: quem se deita com um animal o prova. Disse-lhe eu: o animal é como o Shabat.
— A última mishná do Perek Guimel encerra a série de quatro perguntas de Rabi Akiva com a mais elaborada delas, desta vez dirigida não a Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua, mas a Rabi Eliezer. O caso: alguém realiza, em vários Shabatot diferentes, vários trabalhos que pertencem todos à mesma categoria geral (por exemplo, variações da mesma melachá principal), sabendo que é Shabat mas ignorando que aquele trabalho específico é proibido — permanecendo, portanto, numa única inadvertência contínua que atravessa vários sábados. É obrigado a uma única chatat, como se fosse um só ato repetido, ou a uma chatat para cada Shabat, como se cada um fosse um corpo distinto? Rabi Eliezer responde afirmativamente, por caal vachomer a partir da nidá: se uma mulher menstruada, cuja proibição não envolve múltiplas categorias de ação nem múltiplas chatot (apenas a relação em si), ainda assim obriga a uma chatat separada para cada relação mantida com ela, o Shabat — que envolve múltiplas categorias de trabalho proibido e, potencialmente, múltiplas chatot por natureza — deveria, com mais razão, obrigar a uma chatat separada para cada dia. Rabi Akiva refuta: a nidá tem uma característica que o Shabat não tem — uma dupla advertência, pois tanto o homem quanto a própria mulher nidá são advertidos a respeito da proibição (cada um responsável por sua parte), enquanto o Shabat tem apenas uma advertência, dirigida a quem trabalha. Rabi Eliezer contra-ataca com outro exemplo: quem se deita com meninas menores de idade, que têm apenas uma advertência (pois elas não são halachicamente responsáveis), ainda assim é obrigado a uma chatat separada para cada uma — provando que a dupla advertência não é o fator decisivo. Rabi Akiva refuta de novo: as menores, embora não tenham a advertência agora, virão a tê-la quando crescerem — um potencial futuro que o Shabat nunca terá (o próprio ato de trabalho nunca se tornará, por si, uma segunda advertência). Rabi Eliezer tenta um último exemplo: quem tem relações com um animal, que nunca terá advertência alguma, presente ou futura, e ainda assim é obrigado a uma chatat separada para cada ato. E aqui, no momento em que se esperaria a réplica final de Rabi Akiva, a mishná encerra com uma frase enigmática e sem resolução: “o animal é como o Shabat” — que a Guemará interpreta como o próprio Rabi Akiva reconhecendo que o caso do animal está no mesmo patamar de dúvida que o caso original do Shabat, sem que nenhum dos dois lados tenha, de fato, vencido o debate. É assim, em aberto, que se encerra tanto esta mishná quanto o Perek Guimel inteiro.
Rambam explica que é preciso recordar tudo o que se explicou no sexto capítulo de Shabat, e então se saberá que Rabi Akiva fez a Rabi Eliezer duas perguntas: a primeira, sobre quem realizou muitos trabalhos derivados de um mesmo trabalho principal num único Shabat — se isso equivale a realizar muitos trabalhos principais numa única inadvertência, obrigando a uma chatat para cada um, ou se, por serem todos da mesma categoria, obriga apenas a uma; Rabi Eliezer respondeu que é obrigado por cada um, pois os trabalhos derivados são, para ele, equiparados aos principais. A segunda pergunta é sobre quem realiza o mesmo trabalho em vários Shabatot diferentes — por exemplo, acendendo fogo neste Shabat e no seguinte, sempre sabendo que é Shabat, mas ignorando que aquele ato é um trabalho proibido: é responsável por cada um, segundo todos, pois os dias de Shabat são como corpos distintos, semelhante a quem se deita com várias arayot numa única inadvertência, responsável por cada uma por serem corpos distintos, ainda que o ato em si não mude. Mas a pergunta real de Rabi Akiva era sobre quem é inadvertido quanto ao Shabat e intencional quanto ao trabalho — ou seja, sabe que a melachá é proibida em Shabat, mas em cada um dos sábados ignora que aquele dia é Shabat, sem que haja consciência entre um e outro; ainda que passem dias como um Shabat entre eles, todos esses Shabatot são contados como um só, por estar em inadvertência quanto ao Shabat, semelhante a quem acendeu fogo o dia inteiro num único Shabat, que não é obrigado senão a uma chatat — ou é obrigado a uma chatat para cada trabalho, isto é, para cada acender de fogo que fez num Shabat e no seguinte e no terceiro e no quarto? E respondeu-lhe Rabi Eliezer que é obrigado por cada um, mesmo sem nova consciência entre eles, e todos os Shabatot são como um Shabat só, semelhante a quem se deita com a nidá, que, embora seja um único corpo, é obrigado por cada relação, mesmo sem consciência entre uma e outra para separar. E já se explicou na Guemará que, assim como não há consciência intermediária na nidá, também não há consciência intermediária no Shabat — mas não é lei; pois, na ausência de consciência intermediária, não é obrigado senão a uma única chatat, isto é, pelo acender de fogo.
Bartenura explica “muitos trabalhos de uma mesma categoria”: muitos derivados de um mesmo trabalho principal. “E em muitos Shabatot”: os mesmos que fez neste Shabat, fez também em outros, todos numa única inadvertência. “Disse-me: é obrigado por cada um”: respondeu-lhe às duas perguntas para o rigor — quem faz o mesmo trabalho em muitos Shabatot com intenção quanto ao Shabat e inadvertência quanto aos trabalhos é obrigado por cada Shabat; e os derivados dos trabalhos são como os próprios trabalhos, sendo obrigado por cada derivado, mesmo sendo todos de uma mesma categoria principal, como se tivesse feito muitas categorias principais. “E se a nidá”: na Guemará dizemos: ensina-se sobre nidot, quem se deita com cinco mulheres nidot é obrigado por cada uma, por serem corpos distintos. “Múltiplas consequências”: várias questões, como o Shabat, que tem trabalhos principais e seus derivados; mas a nidá só tem a obrigação da relação em si. “E a nidá é advertida quanto a ele”: pois está escrito “e ambos serão exterminados do meio de seu povo”. “Quem se deita com as menores”: quem se deita com cinco menores nidot é obrigado por cada uma, embora a menor não seja advertida. “Quem se deita com um animal o prova”: que é obrigado por cada relação. “O animal é como o Shabat”: ou seja, assim como tenho dúvida quanto ao Shabat, tenho dúvida também quanto ao animal. E Rabi Akiva não aceitou de Rabi Eliezer nem quanto a quem faz o mesmo trabalho em muitos Shabatot como corpos distintos, nem quanto aos derivados dos trabalhos serem como os próprios trabalhos. E não é lei conforme Rabi Eliezer.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Guimel de Massechet Keritot, o mais extenso do tratado. O capítulo abriu retomando o tema da chatat por comer gordura proibida, mas sob um ângulo novo: quando e como a palavra de terceiros ou a admissão do próprio pecador estabelecem a obrigação (3:1), quantas porções da mesma espécie se somam numa única inadvertência e quantas espécies distintas se separam (3:2), e qual o limite de tempo — o famoso kedei achilat peras — dentro do qual essa soma ainda vale, estendido também à impureza alimentar e ao vinho na entrada do Templo (3:3). A partir daí, o capítulo passou a tratar da acumulação de proibições distintas sobre um único ato: o impuro que come, em Yom Kipur, gordura consagrada já tornada sobra ritual, acumulando quatro chatot e um asham (3:4); e uma sequência de casos de relações proibidas em que a mesma mulher, ao longo de sucessivos casamentos, acumula seis, sete ou mais nomes proibidos para o mesmo homem — a filha e a neta (3:5), a sogra e as gerações acima dela (3:6). A segunda metade do capítulo registrou quatro perguntas que Rabi Akiva levou a seus próprios mestres, num raro relato em primeira pessoa dentro da Mishná: sobre a irmã que é também irmã do pai e da mãe (3:7), sobre o membro pendente do animal, resolvido por analogia ao costume médico dos doentes de chagas em Jerusalém (3:8), sobre abater ou comer sobra ritual de cinco sacrifícios, com a réplica do próprio Rabi Akiva ao caal vachomer que lhe ofereceram (3:9), e, por fim, sobre trabalhos repetidos em vários Shabatot, num vaivém de provas com Rabi Eliezer que a mishná deixa, deliberadamente, sem solução (3:10).
O tratado prossegue no Perek Dalet, mais breve, com os casos de dúvida genuína que geram asham talui: a incerteza sobre se a pessoa comeu gordura proibida, sobre a quantidade consumida, ou sobre qual de dois itens — um proibido e outro permitido — foi de fato ingerido.