Seder Kodashim · Massechet Keritot · Perek Guimel · Mishná 5 de 10

Uma relação, seis chatot

יֵשׁ בָּא בִיאָה אַחַת וְחַיָּב עָלֶיהָ שֵׁשׁ חַטָּאוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mesma mulher pode acumular, para seu próprio pai, os nomes de filha, irmã, nora, cunhada e mulher casada em nidá — e uma única relação carrega, então, seis chatot

Há quem tenha uma única relação e seja obrigado por ela a seis chatot: quem se deita com a própria filha é obrigado por ela por ser sua filha, e sua irmã, e mulher de seu irmão, e mulher do irmão de seu pai, e mulher de homem, e nidá. E quem se deita com a filha de sua filha é obrigado por ela por ser filha de sua filha, e sua nora, e irmã de sua mulher, e mulher de seu irmão, e mulher do irmão de seu pai, e mulher de homem, e nidá. Rabi Yossei diz: se o velho transgrediu e casou com ela, é obrigado por ela também por ser mulher de seu pai. E o mesmo vale para quem se deita com a filha de sua mulher, e com a filha da filha de sua mulher.

— A mishná abandona o terreno dos alimentos proibidos e passa a tratar de relações proibidas, retomando o tema que ocupou boa parte do Perek Bet — mas agora não mais comparando a serva prometida às demais arayot, e sim mostrando como um único ato pode acumular vários nomes proibidos ao mesmo tempo sobre a mesma pessoa. O caso, exemplificado pela Guemará e por Bartenura: um homem se deita com sua própria mãe, e dela nasce uma filha; essa filha é, ao mesmo tempo, filha dele e irmã dele (por parte de mãe) — dois nomes que já nascem juntos. Essa filha, então, é dada em casamento a um dos irmãos do homem (o que é permitido, pois ela não é parenta proibida para o tio); com esse casamento, soma-se a ela o nome de mulher de seu irmão. Se o irmão morre e ela se casa com outro irmão do pai (o tio-avô da moça), soma-se o nome de mulher do irmão de seu pai. Ela então se casa com qualquer outro homem, tornando-se mulher de homem, e por fim torna-se nidá. Se, depois de tudo isso, o pai original se deita com ela, ele é responsável por seis chatot separadas — uma para cada nome que ela carrega em relação a ele, todos acumulados por sucessivas proibições que somam (cada casamento soma um nome novo, sem cancelar os anteriores, porque a mulher nunca deixou de ser proibida a ele desde o início). O mesmo raciocínio se aplica, com um nome a mais, a quem se deita com a filha de sua neta (bat bito): ali, além dos nomes de filha da filha, nora, irmã da mulher, cunhada e as demais, soma-se ainda mais um grau de parentesco, totalizando sete chatot potenciais. Rabi Yossei acrescenta um caso extremo: se o próprio avô (o pai original, já idoso) transgrediu e se casou com essa neta-sobrinha depois que ela ficou viúva de um filho dele, um novo neto seu que mais tarde se casasse com ela seria também responsável pelo nome de mulher de seu pai. E a mesma estrutura de acumulação se repete, paralelamente, para quem se deita com a filha de sua mulher (enteada) e com a filha da filha de sua mulher.

יֵשׁ בָּא בִיאָה אַחַת וְחַיָּב עָלֶיהָ שֵׁשׁ חַטָּאוֹת. הַבָּא עַל בִּתּוֹ, חַיָּב עָלֶיהָ מִשּׁוּם בִּתּוֹ וַאֲחוֹתוֹ וְאֵשֶׁת אָחִיו וְאֵשֶׁת אֲחִי אָבִיו וְאֵשֶׁת אִישׁ וְנִדָּה. וְהַבָּא עַל בַּת בִּתּוֹ, חַיָּב עָלֶיהָ מִשּׁוּם בַּת בִּתּוֹ וְכַלָּתוֹ וַאֲחוֹת אִשְׁתּוֹ וְאֵשֶׁת אָחִיו וְאֵשֶׁת אֲחִי אָבִיו וְאֵשֶׁת אִישׁ וְנִדָּה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, אִם עָבַר הַזָּקֵן וּנְשָׂאָהּ, חַיָּב עָלֶיהָ מִשּׁוּם אֵשֶׁת אָב. וְכֵן הַבָּא עַל בַּת אִשְׁתּוֹ, וְעַל בַּת בַּת אִשְׁתּוֹ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keritot 3:5

Rambam explica que a primeira halachá segue dois dos três princípios — proibição simultânea e proibição que soma: quando Reuven, por exemplo, se deita com sua mãe e ela lhe dá uma filha, essa filha é filha e irmã dele ao mesmo tempo — duas proibições vindo juntas — e pode se casar licitamente com qualquer um dos irmãos de Reuven, pois casamento válido se dá mesmo com quem é proibido por proibição negativa; quando ela se casa com um dos tios, torna-se proibida a todos os demais tios, e por essa mesma soma torna-se proibida também a Reuven como mulher de seu irmão; se o tio morre ou a divorcia, ela volta a ser permitida aos demais irmãos do avô de Reuven; casando-se com um deles, soma-se a Reuven o nome de mulher do irmão do pai; enviuvando, é permitida a qualquer pessoa; casando-se, torna-se mulher de homem, soma-se a Reuven esse nome; tornando-se nidá, soma-se-lhe também esse. Se Reuven se deita então com essa filha, sendo ela mulher de homem e nidá, é responsável por seis chatot. O segundo caso segue o mesmo modelo com a neta: quando o filho de sua filha se casa com ela, ela se torna também nora; quando se casa com outro parente, cunhada; e assim por diante, chegando a sete chatot possíveis numa única relação. Rabi Yossei acrescenta que, se o próprio avô transgride e se casa com essa neta (proibição apenas rabínica, pois ela é neta em segundo grau), e depois um filho pequeno desse avô, ao crescer, viesse a se casar com ela por levirato, somar-se-ia a ele o nome de mulher de seu pai, e por extensão ao próprio Reuven. E o mesmo vale, paralelamente, para a filha da mulher e para a filha da filha da mulher, que seguem exatamente a mesma estrutura de acumulação que a filha e a neta biológicas.

Bartenura · Keritot 3:5
בִּתּוֹ וַאֲחוֹתוֹ. כְּגוֹן שֶׁבָּא עַל אִמּוֹ וְהוֹלִיד מִמֶּנָּה בַּת וַהֲרֵי הִיא בִּתּוֹ וַאֲחוֹתוֹ מֵאִמּוֹ, וְאֵשֶׁת אָחִיו שֶׁנִּשֵּׂאת לוֹ קֹדֶם לָכֵן וּמֵת, וּלְאַחַר מִיתָתוֹ נְשָׂאָהּ אֲחִי אָבִיו וּבָא זֶה אָבִיהָ עָלֶיהָ בְּנִדָּתָהּ, וְהַשְׁתָּא אִסּוּר בִּתּוֹ וַאֲחוֹתוֹ בָּאִין כְּאַחַת. וְאַף עַל פִּי שֶׁהִיא מַמְזֶרֶת וַאֲסוּרָה לָבֹא בַּקָּהָל, כְּשֶׁנִּשֵּׂאת לַאֲחִי אָבִיהָ קִדּוּשִׁין תּוֹפְסִין בָּהּ, לְפִי שֶׁקִּדּוּשִׁין תּוֹפְסִין בְּחַיָּבֵי לָאוִין: חַיָּב עָלֶיהָ מִשּׁוּם בַּת בִּתּוֹ וְכַלָּתוֹ. כְּגוֹן שֶׁנְּשָׂאָהּ בְּנוֹ: וַאֲחוֹת אִשְׁתּוֹ. שֶׁהָיָה נָשׂוּי אֶת בַּת חֲתָנוֹ שֶׁהִיא אֲחוֹת בַּת בִּתּוֹ מִן הָאָב: וְאֵשֶׁת אָחִיו. שֶׁמֵּת בְּנוֹ וּנְשָׂאָהּ אָחִיו שֶׁל זֶה: אִם עָבַר הַזָּקֵן. אָבִיו שֶׁל זֶה, וּנְשָׂאָהּ, וְאַחַר כָּךְ בָּא עָלֶיהָ זֶה, חַיָּב אַף עַל אֵשֶׁת הָאָב: וְכֵן הַבָּא עַל בַּת אִשְׁתּוֹ. חַיָּב עָלֶיהָ מִשּׁוּם כָּל אֵלּוּ שֶׁחַיָּב בְּבִתּוֹ:

Bartenura explica “sua filha e sua irmã”: como quem se deita com sua mãe e dela tem uma filha, e ela é filha e irmã dele por parte de mãe; e mulher de seu irmão, que se casou com ele antes e morreu, e depois de sua morte casou-se com o irmão do pai, e este, o pai dela, se deita com ela em sua nidá — e aqui a proibição de filha e de irmã vêm juntas. E ainda que ela seja mamzeret e proibida de entrar na congregação, quando se casa com o irmão do pai o casamento se firma nela, pois o casamento se firma em quem é proibido por proibição negativa. “É obrigado por ela por ser filha de sua filha e sua nora”: como quando seu filho se casa com ela. “E irmã de sua mulher”: quando ele era casado com a filha de seu genro, que é irmã da filha de sua filha por parte de pai. “E mulher de seu irmão”: quando seu filho morre e o irmão deste se casa com ela. “Se o velho transgrediu”: o pai deste, e se casou com ela, e depois este se deita com ela, é responsável também por mulher do pai. “E o mesmo vale para quem se deita com a filha de sua mulher”: é responsável por ela por todos os nomes pelos quais é responsável em relação à própria filha.