Admon diz sete coisas: aquele que morreu e deixou filhos e filhas — quando o patrimônio é abundante, os filhos herdam e as filhas são sustentadas; e com patrimônio escasso, as filhas são sustentadas e os filhos mendigam de porta em porta. Admon diz: por eu ser homem, perdi? Disse Rabán Gamliel: vejo as palavras de Admon. — A mishná abre a lista das sete leis de Admon com um caso de tensão entre herança e sustento na divisão de um patrimônio entre filhos e filhas. Quando o patrimônio deixado pelo pai falecido é abundante — suficiente para sustentar todos os filhos, homens e mulheres, até que as filhas atinjam a maioridade —, a regra padrão se aplica: os filhos homens herdam integralmente os bens (conforme a lei bíblica de sucessão), e as filhas recebem sustento das posses herdadas até se casarem. Mas quando o patrimônio é escasso — insuficiente para sustentar a todos —, a mishná inverte completamente a prioridade: as filhas recebem sustento primeiro, esgotando se necessário todo o patrimônio, e os filhos, mesmo sendo os herdeiros legais, ficam sem nada, obrigados a mendigar de porta em porta até crescerem e poderem se sustentar sozinhos. Admon protesta contra essa inversão com uma pergunta retórica contundente: justamente por ser do sexo que a lei privilegia como herdeiro, ele — o filho homem — acaba sendo o mais prejudicado quando o patrimônio é escasso, perdendo tudo em favor das irmãs. Rabán Gamliel expressa apoio explícito à posição de Admon, reconhecendo a força de seu argumento.
A Torá, na história das filhas de Tzelofchad, já reconhece que a herança da filha depende inteiramente da ausência de filhos homens — quando há filho, ele herda tudo; só na falta dele a filha herda. A mishná, ao tratar do sustento (não da herança em si), leva essa mesma lógica de prioridade masculina a uma reviravolta prática: mesmo onde os filhos continuam sendo os herdeiros legais por excelência, quando o patrimônio é pequeno demais para sustentar a todos, a preocupação com as filhas — que, sem dote, ficariam sem perspectiva de casamento — inverte a ordem de prioridade, deixando os filhos sem nada até que cresçam.
Rambam define com precisão técnica o que separa "patrimônio abundante" de "patrimônio escasso": abundante é aquele suficiente para sustentar todos os filhos, homens e mulheres, até que as filhas atinjam a maioridade; qualquer patrimônio inferior a essa medida é considerado escasso. Apesar de Rabán Gamliel ter expressado apoio à posição de Admon no próprio texto da mishná, Rambam decide que a lei prática não segue Admon — ou seja, mesmo com patrimônio escasso, prevalece a regra de que as filhas são sustentadas e os filhos ficam sem nada, apesar do protesto registrado do próprio Admon sobre a aparente injustiça dessa inversão.
Bartenura registra duas definições de "patrimônio escasso": segundo uma leitura, é aquele insuficiente para sustentar filhos e filhas por doze meses inteiros; segundo a leitura de Rambam, é qualquer patrimônio insuficiente para sustentar ambos até que as filhas atinjam a maioridade — uma medida bem mais ampla e protetora das filhas. Bartenura explica ainda o protesto de Admon: precisamente por ser do sexo que teria direito a herdar todo o patrimônio caso ele fosse abundante, o filho homem acaba sendo quem mais perde quando o patrimônio é escasso, ficando sem nada em favor das irmãs. E confirma, por fim, que a lei não segue Admon.