A mulher que disse: era mulher casada, e sou divorciada — é confiável, pois a boca que proibiu é a boca que permitiu. E se há testemunhas de que era mulher casada, e ela diz: sou divorciada — não é confiável. Disse: fui cativa e sou pura — é confiável, pois a boca que proibiu é a boca que permitiu. E se há testemunhas de que foi cativa, e ela diz: sou pura — não é confiável. E se depois de casada vieram testemunhas, eis que ela não sai. — Em ambos os casos, ninguém sabia previamente do fato desfavorável (que ela era casada, ou que foi cativa) até que ela mesma o revelasse; por isso, sua palavra sobre o fato favorável que se segue (a divorciada, a pura) é aceita junto com ele, pois ela poderia simplesmente ter silenciado sobre tudo. Mas quando há testemunhas independentes do fato desfavorável, sua palavra sozinha já não basta para estabelecer o fato favorável, pois ela já não está criando a informação prejudicial com sua própria boca. A mishná acrescenta um caso especial: se ela já se casou de novo com base em sua própria declaração, e só depois surgiram testemunhas do cativeiro, ela não precisa deixar o novo marido — pois presume-se que, tendo se arriscado a casar abertamente, ela não teria mentido sobre sua pureza.
A Guemará deriva o princípio de "a boca que proibiu é a boca que permitiu" (hapeh sheassar hu hapeh shehitir) da própria estrutura dos votos: assim como a palavra de uma pessoa é suficiente para criar uma proibição sobre si mesma através de um voto, a mesma palavra, quando qualifica ou esclarece essa proibição, também é suficiente para dissolvê-la ou delimitá-la. A Guemará debate longamente a fonte exata deste princípio, chegando a citar o caso de quem diz "minha filha, esta, eu a entreguei em casamento" — mostrando que a Torá confia na palavra de quem tem autoridade sobre um fato para tanto proibir quanto para esclarecer os limites dessa proibição, desde que seja a mesma declaração, no mesmo fôlego.
Rambam, no Perush HaMishná, distingue o cativeiro (que não impede a permanência no casamento já contraído) da impureza comprovada por testemunhas (que sempre obriga a saída), e acrescenta o caso da mulher que dá explicação plausível para uma declaração anterior contraditória.
Rambam esclarece que "depois de casada" na mishná não significa necessariamente que ela já tenha se casado de fato, mas sim que já foi autorizada a se casar com base em sua própria declaração — a partir desse ponto, mesmo que surjam testemunhas de que ela foi cativa (mas sem atestar impureza), ela não precisa deixar o casamento. Mas se as testemunhas atestarem especificamente que ela foi de fato violada (nitme'at), ela deve sair mesmo que já tenha vários filhos desse casamento — pois nesse caso a proibição é certa, e não apenas uma dúvida resolvida por sua palavra. Rambam acrescenta ainda, com base na Guemará, que se a mulher primeiro declarou ser casada e depois, mudando sua história, disse ser solteira, mas ofereceu uma explicação plausível (amtelá) para a primeira declaração — por exemplo, que disse aquilo por vergonha ou para afastar pretendentes indesejados — sua segunda declaração é aceita, desde que não haja testemunhas contrárias.
Bartenura esclarece o sentido de "depois de casada" e a distinção entre cativeiro simples e impureza comprovada; Rashi, sobre a Guemará, define os termos "fui cativa" e "sou pura".
Bartenura confirma a leitura de Rambam: "depois de casada" refere-se ao momento em que ela já foi autorizada a se casar com base em sua própria palavra — não necessariamente que o casamento já se consumou. A partir desse ponto de autorização, testemunhas que venham apenas confirmar que ela foi cativa (sem atestar violação) não a obrigam a sair; ela permanece no casamento e pode inclusive se casar a princípio com outro, caso ainda não tivesse se casado. Mas testemunhas que atestem impureza efetiva sempre obrigam a saída, independentemente de quantos filhos ela já tenha tido nesse casamento — pois a proibição de permanecer casada com um kohen (ou a situação análoga) não é anulada pela existência de descendência.
Rashi define os termos precisos da mishná: "fui cativa" significa que ela foi levada cativa por gentios; "sou pura" significa especificamente que não foi violada sexualmente por um gentio durante o cativeiro — condição essencial para permanecer apta ao casamento com um kohen, já que a mulher violada por um não-judeu torna-se proibida a ele. Rashi nota ainda que a mishná qualifica precisamente que a permissão concedida é "permitida a um kohen" (mutteret le-khohen), o caso mais restritivo e, portanto, o mais demonstrativo da força do princípio: mesmo para o padrão mais exigente de pureza, a palavra da própria mulher, na ausência de testemunhas, é suficiente.