Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Bet · Mishná 8 de 10

Uma só testemunha eleva alguém à kehuná? A disputa entre Rabi Yehuda, Rabi Elazar e Rabán Shimon ben Gamliel

רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵין מַעֲלִין לַכְּהֻנָּה עַל פִּי עֵד אֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná avança o tema da mishná anterior para o caso mais complexo: alguém cuja linhagem sacerdotal já é presumida (não apenas alegada por ele mesmo), mas contra quem surgiu um boato desqualificador. Quantas testemunhas são necessárias para restituí-lo à kehuná?

Rabi Yehuda diz: não se eleva à kehuná com base em uma só testemunha. Disse Rabi Elazar: quando? Onde há contestadores. Mas onde não há contestadores, eleva-se à kehuná com base em uma só testemunha. Rabán Shimon ben Gamliel diz, em nome de Rabi Shimon ben HaSegan: eleva-se à kehuná com base em uma só testemunha.Rabi Yehuda exige o padrão pleno de duas testemunhas sempre que se trata de elevar alguém à condição sacerdotal, mesmo sem oposição declarada. Rabi Elazar distingue: quando não há ninguém contestando sua kehuná, uma única testemunha basta para confirmá-la, pois não há razão real para dúvida; mas se há contestadores formais que alegam sua desqualificação, é necessário o padrão pleno de duas testemunhas para superá-los. Rabán Shimon ben Gamliel, segundo a Guemará, discorda de Rabi Elazar num ponto mais sutil: mesmo quando já houve contestação formal por dois contestadores, e o homem foi rebaixado da kehuná, uma única testemunha posterior que ateste sua aptidão pode ser somada a um testemunho anterior — dado em momento diferente — para restabelecer sua condição, equilibrando dois contra dois e devolvendo-o à sua presunção original de aptidão.

רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵין מַעֲלִין לַכְּהֻנָּה עַל פִּי עֵד אֶחָד. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר, אֵימָתַי, בִּמְקוֹם שֶׁיֵּשׁ עוֹרְרִין. אֲבָל בִּמְקוֹם שֶׁאֵין עוֹרְרִין, מַעֲלִין לַכְּהֻנָּה עַל פִּי עֵד אֶחָד. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן הַסְּגָן, מַעֲלִין לַכְּהֻנָּה עַל פִּי עֵד אֶחָד:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Ezra 2:62
אֵלֶּה בִקְשׁוּ כְתָבָם הַמִּתְיַחְשִׂים וְלֹא נִמְצָאוּ וַיְגֹאֲלוּ מִן הַכְּהֻנָּה
Estes buscaram seu registro de genealogia, e não foi encontrado, e foram excluídos do sacerdócio.

Este versículo, que relata a exclusão de famílias sacerdotais cuja linhagem não pôde ser comprovada documentalmente na volta do exílio babilônico, é a base histórica da preocupação da mishná com o rigor probatório da kehuná. A Guemará situa aqui uma exigência estrutural: em regra, a genealogia sacerdotal já estabelecida (por exemplo, pela presunção de que o pai era conhecidamente kohen) não pode ser abalada por um mero boato sem prova formal, e a disputa entre os tannaim gira em torno de qual padrão de testemunho é necessário tanto para desqualificar quanto para restabelecer essa presunção.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica com um exemplo concreto o mecanismo da soma de testemunhos (tzeruf) segundo Rabán Shimon ben Gamliel, e conclui que a halachá segue sua opinião.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 2:8
וְהַלָּכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל, לְפִי שֶׁהָעִקָּר אֶצְלֵנוּ שֶׁהָעֵדוּת מִצְטָרֶפֶת וַאֲפִלּוּ הָיוּ בֵּינֵיהֶם כַּמָּה שָׁנִים, וְכָמוֹ כֵן הָעֵדִים יְכוֹלִים לְהָעִיד זֶה שֶׁלֹּא בִּפְנֵי זֶה בְּכָל הָעֵדִיּוֹת חוּץ מִגֵּט

Rambam ilustra a disputa com um caso concreto: um homem cujo pai era reconhecidamente kohen tem, contra si, um boato de que é filho de mulher divorciada (ben gerushá) e, por isso, desqualificado — e é rebaixado da kehuná. Vem então uma única testemunha e diz "eu sei que ele é kohen", e ele é restaurado, pois uma testemunha basta quando não há contestadores formais. Depois surgem dois contestadores formais que o rebaixam novamente, e então uma nova testemunha ateste sua aptidão. Rabán Shimon ben Gamliel soma essa testemunha à primeira, dada em momento anterior, resultando em duas testemunhas de aptidão contra duas de desqualificação — e a presunção original prevalece, restaurando-o à kehuná. Os sábios (tanna kama) discordam, exigindo que as duas testemunhas de aptidão depusessem no mesmo momento. Rambam conclui que a halachá segue Rabán Shimon ben Gamliel, pois o princípio geral é que testemunhos se somam mesmo quando dados em momentos distintos, e mesmo quando uma testemunha depõe sem a presença da outra — regra válida em todos os tipos de testemunho, exceto na entrega de um documento de divórcio (guet).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha o mesmo mecanismo de soma de testemunhos e confirma a halachá conforme Rabán Shimon ben Gamliel; Rashi, sobre a Guemará, explica por que a opinião de Rabán Shimon ben Gamliel não coincide simplesmente com a de Rabi Elazar.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Ketubot 2:8
וַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל שֶׁהָעֵדִים מִצְטָרְפִין אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא הֵעִידוּ עֵדוּתָן כְּאֶחָד

Bartenura resume o mecanismo: quando a genealogia de alguém já é presumida (o pai é conhecido como kohen) e surge um boato de desqualificação seguido de contestação formal por dois contestadores, uma testemunha isolada que atesta sua aptidão pode ser somada a outra testemunha isolada, dada em ocasião distinta, para juntas formarem o par necessário — equilibrando os dois contestadores e restabelecendo a presunção original. Rabi Elazar, por sua vez, exige que as duas testemunhas de aptidão testemunhem simultaneamente. Bartenura confirma que a halachá segue Rabán Shimon ben Gamliel.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 26a
רַבָּן שִׁמְעוֹן הַיְנוּ רַבִּי אֱלִיעֶזֶר... דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר סָבַר עִרְעוּר חַד — הֲוֵי עִרְעוּר, וְאֵין אֶחָד נֶאֱמָן עָלָיו לְהַכְשִׁירוֹ. וְנָפַק עֲלֵיהּ קָלָא — קוֹל בְּעָלְמָא וְלֹא עֵדוּת, וְאַחְתִּינֵיהּ — מִן הַכְּהֻנָּה עַד שֶׁיִּבְדְּקוּ אֶת הַדָּבָר

Rashi esclarece a pergunta inicial da Guemará: à primeira vista, a posição de Rabán Shimon ben Gamliel parece idêntica à de Rabi Elazar, já que ambos aceitam uma única testemunha para restabelecer a kehuná quando não há contestadores formais efetivos. A diferença real, explica Rashi, está no caso em que já houve contestação dupla e o homem foi rebaixado: ali, Rabi Elazar exige que a prova de restabelecimento venha de duas testemunhas simultâneas, enquanto Rabán Shimon ben Gamliel permite somar testemunhos de momentos diferentes. Rashi nota também que um mero boato (kol) — sem testemunho formal de dois contestadores — já é suficiente para provocar uma investigação cautelar e uma remoção temporária da kehuná, "até que se apure o assunto", mas não equivale a uma contestação formal para efeitos desta disputa.