A mulher que foi presa pelos gentios por causa de dinheiro, é permitida a seu marido. Por causa de vidas, é proibida a seu marido. Uma cidade que um exército sitiante conquistou — todas as esposas de kohanim que se encontrarem nela estão desqualificadas. E se há testemunhas para elas, mesmo um escravo, mesmo uma serva, eis que estes são confiáveis. E ninguém é confiável sobre si mesmo. Disse Rabi Zecharya ben HaKatzav: por este Templo! Não se afastou a mão dela da minha mão desde a hora em que os gentios entraram em Jerusalém até que saíram. Disseram-lhe: ninguém testemunha sobre si mesmo. — Quando a prisão visa apenas extorquir dinheiro, os captores têm interesse em preservar a mulher intacta para garantir o pagamento, e por isso ela é permitida mesmo a um marido kohen. Mas quando ela está sob ameaça de morte, presume-se que, desesperada, poderia ter cedido a algum dos captores em troca de sua vida, e por isso torna-se proibida mesmo a um marido israelita comum. Numa cidade conquistada de assalto, presume-se que houve violação generalizada, desqualificando todas as esposas de kohanim ali encontradas — salvo se houver testemunhas, para as quais a halachá excepcionalmente aceita até um escravo ou uma serva, normalmente inválidos para testemunhar. Mas ninguém pode testemunhar sobre si mesmo: nem mesmo Rabi Zecharya ben HaKatzav, que jurou solenemente que sua esposa esteve o tempo todo ao seu lado, pois o status de sua esposa é, para efeitos deste testemunho, equiparado ao seu próprio status, e ele não pode ser testemunha de si mesmo.
A Torá já distingue entre a violação ocorrida num contexto onde a mulher poderia ter gritado por socorro (na cidade) e onde não poderia (no campo) — a moça do campo é considerada isenta de culpa, presumindo-se que não consentiu. A Guemará estende esse mesmo raciocínio à situação da mulher sob cativeiro ou sítio: quando ela está sob controle total dos captores, sem possibilidade real de resistência ou fuga (a situação da cidade conquistada), presume-se coação; mas quando ainda há alguma condição de escolha real, como na prisão por dívida, onde os captores têm interesse em preservá-la intacta, a presunção de coação plena não se aplica automaticamente da mesma forma.
Rambam, no Perush HaMishná, distingue os graus de risco conforme o poder relativo entre gentios e israelitas, e explica por que mesmo quem resgatou a mulher com seu próprio dinheiro pode testemunhar sobre ela e desposá-la.
Rambam explica que a permissão de a mulher voltar ao marido, mesmo tendo sido presa por dívida, depende do equilíbrio de poder: quando os gentios têm domínio pleno e opressivo sobre os judeus, mesmo a prisão por dinheiro é motivo de suspeita e a proíbe a um marido kohen. E toda essa gradação de proibição — presa por dinheiro, presa por acusação capital, cidade conquistada — aplica-se apenas quando o marido é kohen, pois o princípio geral estabelece que a violação sofrida por uma mulher israelita comum não a proíbe a seu próprio marido israelita, já que ela não teve culpa. Rambam acrescenta a lógica por trás da confiabilidade de quem resgatou a cativa com seu próprio dinheiro: ninguém gasta dinheiro à toa, e por isso presume-se que ele investigou e confirmou sua pureza antes de pagar o resgate, tornando-se assim confiável para testemunhar sobre ela e, sendo kohen, também apto a desposá-la.
Bartenura distingue cada grau de risco e a leniência específica das testemunhas normalmente desqualificadas; Rashi, sobre a Guemará, esclarece o motivo da recusa ao juramento de Rabi Zecharya ben HaKatzav.
Bartenura explica a lógica de cada categoria: na prisão por dinheiro, os captores temem prejudicar seu próprio interesse financeiro e por isso não tratam a mulher como objeto disponível — daí a permissão mesmo a um marido kohen, desde que o poder relativo entre as partes não seja de opressão total. Na prisão por acusação capital, porém, ela está condenada à morte e sob controle total de seus captores; teme-se que, em desespero por salvar a vida, tenha consentido com um deles — e por isso torna-se proibida mesmo a um marido israelita comum, algo que uma violação forçada normalmente não causaria. Bartenura confirma ainda que, na exceção de testemunho válido mesmo vindo de um escravo ou serva, aplica-se a mesma leniência já vista na lei da mulher cativa (mishná 2:6), pois trata-se igualmente de uma situação de difícil comprovação.
Rashi identifica a expressão "por este Templo" (hama'on hazeh) como uma fórmula solene de juramento, referindo-se à morada Divina. Ele nota que, embora os sábios tenham rejeitado o testemunho de Rabi Zecharya ben HaKatzav sobre sua própria esposa — pois o status dela, para este fim, é tratado como extensão do status dele mesmo, e ninguém testemunha sobre si —, a Guemará relata que, ainda assim, os sábios recomendaram uma prática de cautela adicional para casais nessa situação: que a esposa saia de casa sempre acompanhada à frente pelos filhos, e volte a entrar atrás deles, de modo que o marido e a esposa nunca fiquem a sós no pátio enquanto os filhos permanecem do lado de fora — uma salvaguarda prática para evitar qualquer aparência de segredo indevido, mesmo quando a confiança pessoal entre o casal é plena.