Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Zayin · Mishná 10 de 10

Os que são forçados a divorciar: o leproso, o coletor, o curtidor

וְאֵלּוּ שֶׁכּוֹפִין אוֹתוֹ לְהוֹצִיא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná fecha o Perek Zayin com a lista concreta de defeitos e ofícios repugnantes que forçam o marido a divorciar a esposa — mesmo que ela tenha se casado sabendo disso —, e a disputa entre Rabi Meir e os sábios sobre se ela pode recusar-se a continuar casada mesmo tendo aceitado a condição, encerrando com o caso do curtidor de Sidon.

E estes são os que são forçados a divorciar: o leproso, o portador de pólipo nasal, o coletor de excrementos de cães, o fundidor de cobre e o curtidor de couro, quer esses defeitos existissem neles antes de casarem, quer tenham nascido depois de casarem. E sobre todos eles disse Rabi Meir: ainda que tenha feito condição com ela, ela pode dizer, "eu pensava que eu podia aceitar, e agora não posso aceitar". E os sábios dizem: ela aceita contra sua vontade, exceto o leproso, por causa de que ele o consome. Aconteceu em Sidon com um curtidor que morreu e tinha um irmão curtidor; disseram os sábios: ela pode dizer, "a teu irmão eu podia aceitar, mas a ti não posso aceitar".Diferente da mishná anterior, que tratava de defeitos físicos gerais e não forçava o divórcio, esta mishná lista ofícios e condições específicas — cujo traço comum é o odor ou repugnância física que tornam a convivência conjugal intolerável — que são graves o bastante para forçar o divórcio, quer o marido já os tivesse antes do casamento (e a esposa aceitou sabendo, ou não sabendo), quer tenham surgido depois. Rabi Meir sustenta que, mesmo que ela tenha explicitamente aceitado essa condição no momento do casamento, ela ainda pode mudar de ideia depois, alegando que subestimou o quanto seria capaz de suportar; os sábios discordam, sustentando que uma vez aceita a condição, ela deve honrá-la contra sua vontade — com a única exceção do leproso, cuja doença, segundo eles, "a consome", degenerando-a fisicamente pela própria convivência íntima, tornando essa uma exceção mesmo para os sábios. O caso de Sidon ilustra que, mesmo quando os sábios concordam que ela deve aceitar o ofício em geral, a identidade pessoal específica do marido importa: aceitar um irmão curtidor não implica aceitar o outro.

וְאֵלּוּ שֶׁכּוֹפִין אוֹתוֹ לְהוֹצִיא, מֻכֵּה שְׁחִין, וּבַעַל פּוֹלִיפּוֹס, וְהַמְקַמֵּץ, וְהַמְצָרֵף נְחֹשֶׁת, וְהַבֻּרְסִי, בֵּין שֶׁהָיוּ בָם עַד שֶׁלֹּא נִשְּׂאוּ וּבֵין מִשֶּׁנִּשְּׂאוּ נוֹלָדוּ. וְעַל כֻּלָּן אָמַר רַבִּי מֵאִיר, אַף עַל פִּי שֶׁהִתְנָה עִמָּהּ, יְכוֹלָהּ הִיא שֶׁתֹּאמַר, סְבוּרָה הָיִיתִי שֶׁאֲנִי יְכוֹלָהּ לְקַבֵּל, וְעַכְשָׁיו אֵינִי יְכוֹלָה לְקַבֵּל. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, מְקַבֶּלֶת הִיא עַל כָּרְחָהּ, חוּץ מִמֻּכֵּה שְׁחִין, מִפְּנֵי שֶׁמְּמִקָּתוֹ. מַעֲשֶׂה בְצִידוֹן בְּבֻרְסִי אֶחָד שֶׁמֵּת וְהָיָה לוֹ אָח בֻּרְסִי, אָמְרוּ חֲכָמִים, יְכוֹלָה הִיא שֶׁתֹּאמַר, לְאָחִיךָ הָיִיתִי יְכוֹלָה לְקַבֵּל, וּלְךָ אֵינִי יְכוֹלָה לְקַבֵּל:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O tratamento severo dado à lepra (tzaraat) nesta mishná — a única exceção que os sábios reconhecem mesmo contra uma aceitação prévia da esposa — ecoa o isolamento e a gravidade únicos que a Torá atribui a essa condição entre todas as aflições físicas.

Vayikrá (Levítico) 13:46
כָּל יְמֵי אֲשֶׁר הַנֶּגַע בּוֹ יִטְמָא, טָמֵא הוּא, בָּדָד יֵשֵׁב, מִחוּץ לַמַּחֲנֶה מוֹשָׁבוֹ
Todos os dias em que a chaga estiver nele será impuro; impuro é ele, habitará só, fora do acampamento será sua habitação.

A Torá determina que o metzora (leproso) deve viver isolado, fora do acampamento, enquanto durar sua condição — um tratamento único entre todas as impurezas, refletindo tanto o risco de contágio quanto a gravidade espiritual atribuída à doença. Este isolamento bíblico fundamenta a exceção que a mishná concede mesmo dentro da posição dos sábios, que em geral sustentam que a esposa deve honrar sua aceitação prévia do defeito do marido: no caso específico do metzora, cuja proximidade física é descrita pela Guemará como algo que literalmente "a consome" (devido à natureza da doença e o receio de contágio na intimidade), nem mesmo uma aceitação explícita a obriga a permanecer casada contra sua vontade.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, identifica cada um dos ofícios e condições mencionados, e confirma que a lei final segue os sábios contra Rabi Meir.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 7:10
מֻכֵּה שְׁחִין הַמְּצֹרָע. בַּעַל פּוֹלִיפּוֹס סִרְחוֹן הָאַף. מְקַמֵּץ שֶׁמְּקַבֵּץ צוֹאַת הַכְּלָבִים לְעַבֵּד בּוֹ עוֹרוֹת. מְצָרֵף נְחֹשֶׁת הַמְּחַצֵּב נְחֹשֶׁת מִמַּחְצֵב שֶׁלּוֹ. וּבֻרְסִי הוּא מְעַבֵּד הָעוֹרוֹת. וְהִלְכָה כַּחֲכָמִים

Rambam identifica cada termo: "acometido de chaga" (מֻכֵּה שְׁחִין) é o leproso; "portador de pólipo" é aquele cujo nariz exala mau odor; "coletor" é quem recolhe excrementos de cães para usá-los no processo de curtimento de couro; "fundidor de cobre" é quem extrai o cobre bruto de sua mina de origem, trabalho que produz odor forte; e "curtidor" é aquele que processa peles de animais em couro — todos ofícios associados a odores fortes e desagradáveis que tornam a proximidade física repugnante. Rambam decide que a lei final segue os sábios, e não Rabi Meir.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura confirma as mesmas identificações de Rambam e acrescenta a origem bíblica da expressão "consumir"; Rashi, sobre a Guemará, detalha a razão da exceção do leproso e confirma o desfecho do caso de Sidon.

Bartenura · רע"ב
Ketubot 7:10
מֻכֵּה שְׁחִין. מְצֹרָע. בַּעַל פּוֹלִיפּוֹס. רֵיחַ הַחֹטֶם. וְהַמְקַמֵּץ. מְקַבֵּץ צוֹאַת כְּלָבִים. וְהַמְצָרֵף נְחֹשֶׁת. הַמְּחַתֵּךְ נְחֹשֶׁת מִמְּקוֹם מוֹצָאוֹ מִן הָאָרֶץ, וּמַסְרִיחַ הוּא. וְהַבֻּרְסִי. מְעַבֵּד עוֹרוֹת. מִפְּנֵי שֶׁמְּמִקָּתוֹ. מְמַסְמַסְתּוֹ, לְשׁוֹן הָמֵק בְּשָׂרוֹ (זכריה יד). וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Bartenura confirma as mesmas identificações de cada ofício, acrescentando que a expressão "porque o consome" (mimikato) — usada para justificar a exceção do leproso mesmo dentro da posição dos sábios — deriva da mesma raiz hebraica de "sua carne se consumirá" (hamek besaro), do livro de Zacarias 14, uma imagem de decomposição gradual da carne que ilustra o efeito temido da proximidade contínua com a doença. Bartenura confirma que a lei final segue os sábios, e não Rabi Meir.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 77a
מְקַמֵּץ צוֹאַת כְּלָבִים — לֹא יָדַעְתִּי מָה צֹרֶךְ בָּהּ, אֲבָל בְּאַשְׁכְּנַז רָאִיתִי שֶׁשּׁוֹרִין בָּהֶם הַבְּגָדִים לִפְנֵי כִבּוּסָן יוֹם אוֹ יוֹמַיִם. חִשְׁלֵי דּוּדֵי — מְחַשְּׁלִין וּמְרַדְּדִין נְחֹשֶׁת וְעוֹשִׂין מִמֶּנּוּ יוֹרוֹת וּמַסְרִיחַ הוּא

Rashi confessa não saber com precisão qual era o uso prático dos excrementos de cães no processo de curtimento em sua época, mas relata um costume que observou pessoalmente na Alemanha (Ashkenaz), de deixar roupas de molho nesse material por um ou dois dias antes de lavá-las — provavelmente por sua propriedade de amaciar o couro ou tecido. Sobre o fundidor de cobre, Rashi explica que se trata de quem martela e forja o cobre bruto para fabricar caldeirões, um trabalho que produz mau odor. Com esta mishná encerra-se o Perek Zayin, que passou dos votos do marido contra a esposa aos defeitos que dissolvem o casamento — de um extremo ao outro das causas que rompem a vida conjugal.