Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Alef · Mishná 8 de 10

Os serviços do Templo reservados aos homens: semichot, tenufot e as exceções da sotá e da nezirá

הַסְּמִיכוֹת וְהַתְּנוּפוֹת נוֹהֲגִין בַּאֲנָשִׁים וְלֹא בְנָשִׁים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema da distinção de gênero, a mishná lista oito atos rituais específicos do serviço do Templo, todos reservados aos homens que trazem oferendas, com a exceção notável — e comovente — da mulher suspeita (sotá) e da nazirita (nezirá), que agitam suas próprias oferendas de farinha com as próprias mãos.

As imposições de mãos (semichot), os agitares (tenufot), as aproximações (hagashot), os punhados (kemitzot), as queimas no altar (haktarot), os degolamentos de aves (melikot), as aspersões (hazaot) e os recebimentos de sangue (kabalot) se aplicam aos homens e não às mulheres, exceto a oferta de farinha (minchá) da sotá e da nezirá, que elas mesmas agitam.A mishná enumera oito atos técnicos do procedimento sacrificial no Templo — a imposição de mãos sobre a cabeça do animal antes do abate, o agitar da oferenda em determinadas direções, a aproximação da oferenda de farinha ao canto sudoeste do altar, o retirar um punhado dela para ser queimado, a própria queima no altar, o degolamento de aves com a unha do sacerdote, a aspersão do sangue e o recebimento do sangue no recipiente sagrado — e estabelece que todos esses atos, ainda que a própria trazida da oferenda seja obrigação tanto de homens quanto de mulheres, só podem ser fisicamente realizados por homens (mesmo quando se trata de uma sacerdotisa oferecendo sua própria minchá). A única exceção — dramática, dado o contexto de ambas as situações — é a mulher suspeita de adultério (sotá) e a mulher que fez voto de nazireado (nezirá): ambas, ao trazerem sua respectiva oferenda de farinha, são as únicas mulheres em toda a Torá que agitam pessoalmente sua própria oferenda com as próprias mãos, um gesto ritual normalmente reservado exclusivamente aos homens.

הַסְּמִיכוֹת, וְהַתְּנוּפוֹת, וְהַהַגָּשׁוֹת, וְהַקְּמִיצוֹת, וְהַהַקְטָרוֹת, וְהַמְּלִיקוֹת, וְהַהַזָּאוֹת, וְהַקַּבָּלוֹת, נוֹהֲגִין בַּאֲנָשִׁים וְלֹא בְנָשִׁים, חוּץ מִמִּנְחַת סוֹטָה וּנְזִירָה, שֶׁהֵן מְנִיפוֹת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam traça a cadeia de analogias verbais que estende a exigência de tenufá pelas próprias mãos da sotá à nezirá.

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 1:8
כָּל אֵלּוּ הַמְּנוּיוֹת בָּאוּ בִּלְשׁוֹן זָכָר... וְלָמַדְנוּ הַנָּזִיר מִסּוֹטָה, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר בְּסוֹטָה וְנָתַן עַל כַּפֶּיהָ אֵת מִנְחַת הַזִּכָּרוֹן, וְנֶאֱמַר בְּנָזִיר וְנָתַן עַל כַּפֵּי הַנָּזִיר... אַתְיָא כַּף כַּף מִסּוֹטָה

Rambam observa que todos os oito atos rituais desta mishná são descritos na Torá em linguagem gramatical masculina — "e imporá sua mão", "e agitará", "e aproximará", "e tomará um punhado" — indicando que sua execução física é reservada aos homens. Explica então a cadeia de derivação que estabelece a exceção: a Torá diz explicitamente, sobre a sotá, "e porá em suas [próprias] mãos a oferenda memorial", ensinando que ela mesma a agita; e o mesmo verbo "porá em suas [próprias] mãos" reaparece, quase idêntico, sobre o nazir — permitindo à Guemará aprender, por analogia verbal ("kaf kaf"), que a nezirá agita sua oferenda exatamente como a sotá agita a sua.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi sobre a Guemará (Kidushin 36a) confirma que a mesma expressão hebraica cobre tanto a mão quanto o recipiente, e Bartenura detalha, ato por ato, o que fica vedado à mulher.

Rashi · רש״י
Kidushin 36a, s.v. אחת היא
אַחַת הִיא - מַשְׁמָעוּת שְׁתֵּיהֶן בֵּין בְּיָד בֵּין בִּכְלִי

Rashi observa, num ponto técnico da Guemará sobre o recebimento do sangue (kabalá), que a mesma expressão bíblica carrega um único e mesmo sentido, seja o recebimento realizado com a própria mão do sacerdote, seja por meio do recipiente sagrado (mizrak) — ambos os modos se enquadram igualmente na categoria de "recebimento" reservada aos homens que oficiam o serviço.

Bartenura · רע״ב
Kidushin 1:8
הַסְּמִיכוֹת וְהַתְּנוּפוֹת. אֵינָהּ סוֹמֶכֶת, וְאֵינָהּ מְנִיפָה, וְאֵינָהּ מַגֶּשֶׁת מִנְחָה בְקֶרֶן מַעֲרָבִית דְּרוֹמִית כְּמִשְׁפָּטָהּ, אִם הִיא כֹהֶנֶת, וְאֵינָהּ קוֹמֶצֶת וְלֹא מַקְטֶרֶת, וְאֵינָהּ מוֹלֶקֶת עוֹף, וְאֵינָהּ מְקַבֶּלֶת דָּם בַּמִּזְרָק, וְאֵינָהּ מַזָּה דָם

Bartenura percorre a lista item por item, aplicando-a explicitamente à mulher, inclusive à sacerdotisa (mesmo uma filha de kohen apta ao serviço não realiza nenhum desses atos): ela não impõe as mãos sobre o animal, não agita a oferenda, não a aproxima do canto sudoeste do altar segundo o procedimento próprio — mesmo sendo ela mesma sacerdotisa —, não retira o punhado, não o queima, não degola aves com a unha, não recebe o sangue no recipiente sagrado, e não realiza a aspersão do sangue. Todos esses atos permanecem, sem exceção alguma além da sotá e da nezirá, reservados aos homens que oficiam o serviço do altar.