O homem consagra [em kidushin] por si mesmo ou por seu agente. A mulher se consagra por si mesma ou por sua agente. O homem consagra sua filha, quando ela é uma naará, por si mesmo ou por seu agente. Aquele que diz a uma mulher: "Consagra-te a mim com esta tâmara", "consagra-te a mim com esta" — se em uma delas há o valor de uma perutá, ela está consagrada; e se não, ela não está consagrada. [Se disse:] "com esta, e com esta, e com esta" — se há o valor de uma perutá em todas elas juntas, ela está consagrada; e se não, ela não está consagrada. Se ela estava comendo uma a uma [à medida que as recebia], ela não está consagrada, a menos que em uma delas haja o valor de uma perutá. — A mishná estabelece primeiro o princípio geral de que o kidushin pode ser realizado diretamente pelo próprio homem e pela própria mulher, ou por meio de um agente (shaliach) nomeado por qualquer um dos dois — aplicando ao casamento o princípio talmúdico de que "o agente de um homem é como ele mesmo". O mesmo vale para o pai que consagra sua filha ainda naará (jovem, entre os doze e doze anos e meio, antes da maioridade plena). Em seguida, a mishná examina um caso técnico: um homem oferece tâmaras a uma mulher, repetindo a fórmula de consagração a cada tâmara ("consagra-te a mim com esta... consagra-te a mim com esta..."). Como cada oferta foi acompanhada de sua própria declaração de kidushin, cada tâmara constitui um ato de consagração independente — e basta que uma única tâmara, isoladamente, valha uma perutá para que o kidushin seja válido. Mas se ele disse a fórmula de consagração apenas uma vez, referindo-se a todas as tâmaras juntas ("com esta, e com esta, e com esta"), então as tâmaras se somam, e é a soma total que precisa alcançar o valor de uma perutá. Por fim, a mishná trata do caso em que a mulher começa a comer as tâmaras uma a uma antes que a série toda lhe seja entregue: cada tâmara já consumida passa a ser, retroativamente, um empréstimo (já que ela não a possui mais fisicamente), e a consagração só se completa com a última tâmara — de modo que o kidushin só é válido se essa última tâmara, por si só, valer uma perutá.
Rambam estabelece o princípio geral por trás da mishná — o agente de um homem é considerado como ele mesmo — mas explica por que, ainda assim, é preferível que o próprio homem realize o kidushin pessoalmente: como regra, um homem não deve desposar uma mulher antes de vê-la, pois há o receio de que ela não lhe agrade e ele acabe vivendo com ela sem amá-la, o que transgride o preceito "amarás ao teu próximo como a ti mesmo". Pela mesma razão, ensina Rambam, um pai não deve casar sua filha enquanto ela é menor, mas deve esperar que ela cresça e diga "por fulano eu quero" — e por isso a mishná menciona a filha naará, e não a filha ainda pequena, ainda que tecnicamente o kidushin de uma menina pequena feito pelo pai também seja válido. Quanto à régua da perutá: a tâmara final é tratada como dívida (mecanismo pelo qual o kidushin com dívida somado a uma perutá é válido, pois entende-se que a intenção da mulher recai sobre a perutá), mas se a soma consumida já valia uma perutá e restou menos do que uma perutá, o kidushin é inválido, por se tratar de consagração feita inteiramente com dívida.
Bartenura explica que a ordem da mishná — "por si mesmo" antes de "por seu agente" — não é acidental: cumprir o kidushin pessoalmente é preferível, pois quem se ocupa com o próprio corpo no cumprimento de um preceito recebe recompensa maior do que quem o faz por intermédio de outro. Sobre a régua da perutá no caso das tâmaras comidas uma a uma, Bartenura precisa o mecanismo: a expressão "uma delas" só pode se referir à última tâmara da série, pois todas as anteriores, já consumidas, tornaram-se uma dívida da mulher para com o homem; quando se chega à última tâmara, o kidushin se completa, e se essa última tâmara vale uma perutá, trata-se de um kidushin com dívida somado a uma perutá — válido, pois entende-se que a intenção da mulher recaiu sobre a perutá. Mas se a última tâmara não vale uma perutá, o kidushin equivale a consagração feita inteiramente com dívida, o que é inválido.
Rashi observa que a Guemará deriva do versículo de Shemot sobre o sacrifício pascal — "e o imolará toda a assembleia da congregação de Israel" — o princípio de que o agente de um homem é considerado como ele mesmo. Sobre a menção específica à filha naará, Rashi confirma o ensinamento de Bartenura: com maior razão o kidushin realizado pelo pai é válido quando a filha ainda é pequena (ketaná), mas a mishná escolheu mencionar a naará para nos ensinar um comportamento correto — que, de início (lechatchilá), o pai não deveria casar a filha enquanto ela é pequena, como se explica adiante na Guemará.