Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Bet · Mishná 10 de 10 — encerrando o Perek Bet

Terumot, dízimos e as águas da purificação: quando até um israelita comum pode consagrar com bens sacerdotais

הַמְקַדֵּשׁ בִּתְרוּמוֹת וּבְמַעַשְׂרוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o capítulo, a mishná contrasta com a lista de proibições de proveito da mishná anterior: aqui, os itens sagrados listados têm, sim, valor comercial reconhecido — podem ser legitimamente vendidos aos cohanim ou aos impuros que precisam deles —, e por isso servem validamente para o kidushin.

Aquele que consagra com terumot, com dízimos, com os dons [do cohen], com as águas da purificação ou com as cinzas da purificação — eis que ela está consagrada, mesmo que ele seja um israelita [não cohen].Encerrando o Perek Bet, a mishná ensina que, ao contrário dos itens da mishná anterior — todos proibidos ao proveito —, os itens agora listados têm valor comercial legítimo e reconhecido, e por isso servem validamente para o kidushin. A terumá (grande e a do dízimo) e os dízimos (o primeiro dízimo e o dízimo do pobre) são bens que, embora reservados para consumo por cohanim, levitas ou pobres respectivamente, podem ser legitimamente vendidos a quem tem direito de consumi-los — e portanto têm valor de mercado real. O mesmo vale para os "dons" (matanot) — o braço, as bochechas e o estômago do animal, dados ao cohen — e para as águas e cinzas usadas no ritual de purificação da impureza contraída por contato com um cadáver (mei chatat e efer chatat): mesmo sendo destinados a um uso ritual específico, uma pessoa impura que precisa deles pode legitimamente comprá-los, ou pagar por sua entrega e preparação. A mishná fecha com uma precisão importante: mesmo um israelita comum — não um cohen ou levita — pode consagrar validamente com esses itens, desde que os tenha adquirido legitimamente (por exemplo, herdando-os de um avô materno que era cohen, ou possuindo produtos ainda não separados como terumá mas que, por direito, já lhe pertencem para separar), pois a propriedade legítima do item, e não a identidade tribal de quem o possui, é o que determina a validade do kidushin. Com esta mishná, encerra-se o Perek Bet de Massechet Kidushin — dez mishnayot dedicadas à mecânica jurídica detalhada do kidushin: quem pode realizá-lo, os efeitos do erro e da condição, os limites impostos pelas uniões proibidas, e os tipos de bens que podem ou não servir como seu objeto.

הַמְקַדֵּשׁ בִּתְרוּמוֹת וּבְמַעַשְׂרוֹת וּבְמַתָּנוֹת וּבְמֵי חַטָּאת וּבְאֵפֶר חַטָּאת, הֲרֵי זוֹ מְקֻדֶּשֶׁת, וַאֲפִלּוּ יִשְׂרָאֵל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 2:10
הַמְקַדֵּשׁ בִּתְרוּמוֹת וּבְמַעַשְׂרוֹת וּבְמַתָּנוֹת כוֹ׳. תְּרוּמוֹת, תְּרוּמָה גְדוֹלָה וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר, וּמַעַשְׂרוֹת, מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וּמַעֲשַׂר עָנִי, וּמַתָּנוֹת, הַזְּרוֹעַ וְהַלְּחָיַיִם וְהַקֵּיבָה... וַאֲפִלּוּ אֵין נִכְלָלִים אֶלָּא בְּיִשְׂרָאֵל, שֶׁנָּפְלוּ לוֹ טְבָלִים מִבֵּית אֲבִי אִמּוֹ כֹּהֵן, וְקָא סָבַר מַתָּנוֹת שֶׁלֹּא הוּרְמוּ כְּמוֹ שֶׁהוּרְמוּ דָּמוּ, וּכְבָר זָכָה בָּהֶן.

Rambam identifica com precisão cada categoria mencionada na mishná — terumá grande e terumá do dízimo; primeiro dízimo e dízimo do pobre; o braço, as bochechas e o estômago como dons sacerdotais — e explica o caso específico do israelita comum: trata-se de alguém que herdou produtos ainda não separados (tevel) da casa de seu avô materno, que era cohen; a lei considera que "dons ainda não separados são como se já tivessem sido separados", de modo que ele já adquiriu, de fato, a propriedade legítima sobre a futura terumá e pode vendê-la a quem tem direito de consumi-la — e, portanto, também consagrar validamente com ela. Rambam explica ainda que as águas e cinzas de purificação podem ser legitimamente vendidas ao impuro que precisa delas para se purificar, cobrando-se o transporte da água e das cinzas, mas nunca o ato ritual da aspersão em si.

Bartenura · Kidushin 2:10
הַמְקַדֵּשׁ בִּתְרוּמוֹת. תְּרוּמָה גְדוֹלָה וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר: וּבְמַעַשְׂרוֹת. מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וּמַעְשַׂר עָנִי: וּמַתָּנוֹת. הַזְּרֹעַ וְהַלְּחָיַיִם וְהַקֵּבָה: וּבְמֵי חַטָּאת. וּבְמֵי אֵפֶר חַטָּאת... וַאֲפִלּוּ יִשְׂרָאֵל. הָכִי קָאָמַר, וַאֲפִלּוּ יִשְׂרָאֵל שֶׁנָּפְלוּ לוֹ תְּרוּמוֹת וּמַתָּנוֹת מִבֵּית אֲבִי אִמּוֹ כֹּהֵן, שֶׁזָּכָה בָּהֶם וְיָכוֹל לְמָכְרָם לַכֹּהֲנִים... דְּמַתָּנוֹת שֶׁלֹּא הוּרְמוּ כְּמִי שֶׁהוּרְמוּ דָּמוּ:

Bartenura confirma a mesma identificação técnica de cada categoria e explica em detalhe o caso do israelita: mesmo que ele não tenha ainda separado formalmente a terumá de seus produtos (tevel), sendo herdeiro de um cohen, a lei o trata como se já tivesse feito a separação — os produtos já são, de fato, seus para separar e vender aos cohanim, e ele pode legitimamente usar esse valor para consagrar uma mulher. Sobre as águas e cinzas de purificação, Bartenura reafirma que se pode cobrar por trazê-las e prepará-las (misturar as cinzas na água), mas nunca pelo próprio ato ritual de aspergir ou de "consagrar" as águas — o serviço ritual em si permanece gratuito, distinto do valor comercial do material.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Kidushin 58a, s.v. מתני' ובמתנות
מַתְנִיתִין וּבְמַתָּנוֹת - הַזְּרוֹעַ וְהַלְּחָיַיִם וְהַקֵּיבָה:

Rashi identifica sucintamente os "dons" (matanot) mencionados na mishná com os três presentes específicos que a Torá determina que todo israelita entregue ao cohen de qualquer animal abatido para consumo comum: o braço dianteiro, as bochechas e o estômago — itens que, apesar de destinados por lei ao cohen, têm valor comercial próprio e reconhecido, o que os torna aptos, como os demais itens da mishná, a servir de objeto válido para o kidushin.

Com esta mishná encerra-se o Perek Bet de Massechet Kidushin — dez mishnayot dedicadas à mecânica jurídica detalhada do kidushin: quem pode realizá-lo (por si ou por agente), os efeitos do erro sobre o objeto ou sobre condições pessoais declaradas, a distinção entre condição explícita e casamento sem especificação, os limites impostos pelas uniões proibidas (arayot), e os diferentes tipos de bens — proibidos ou permitidos ao proveito — que podem servir como objeto da consagração. O tratado prossegue, no Perek Guimel, com os casos de kidushin por condição (tenaim) mais complexos e os casos de dúvida sobre a validade do kidushin.