Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Guimel · Mishná 3 de 13

O kidushin condicionado a um bet-kor de terra: a mesma regra aplicada aos bens imóveis

עַל מְנָת שֶׁיֶּשׁ לִי בֵּית כּוֹר עָפָר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema da mishná anterior, agora com bens imóveis: a mesma estrutura de condições — posse alegada, posse em local específico, e a promessa de mostrar a terra — é aplicada a um terreno do tamanho de um bet-kor (a área necessária para semear um kor de grãos).

‘Com a condição de que eu tenha um bet-kor de terra’ — ela está consagrada, e ele [de fato] tem. ‘Com a condição de que eu tenha [terra] em tal lugar’ — se ele tem naquele lugar, ela está consagrada; e se não, ela não está consagrada. ‘Com a condição de que eu te mostre um bet-kor de terra’ — ela está consagrada, e ele deve mostrar-lhe; e se ele lhe mostrou num vale [que não é dele], ela não está consagrada.Diferente do dinheiro, que pode ser escondido, a posse de terra costuma ser de conhecimento público — por isso, quando o homem afirma ter um bet-kor de terra sem que ninguém confirme o fato, a mishná ainda assim a considera consagrada por dúvida, e não com certeza, pois se algo tão notório como um terreno realmente lhe pertencesse, normalmente correria essa notícia; ainda assim subsiste a possibilidade remota de que ele o possua sem que se saiba, e por isso não se descarta o kidushin. Quando ele especifica um lugar determinado, a validade passa a depender diretamente do fato: se ele realmente possui terra ali, o kidushin vale; se não, não vale — não há aqui espaço para dúvida, pois o lugar é verificável. E, como no caso do dinheiro sobre a mesa, mostrar-lhe um terreno num vale aberto — onde há muitos lotes e nenhum sinal de que aquele em particular lhe pertença — não cumpre a condição, e o kidushin não se efetiva.

עַל מְנָת שֶׁיֶּשׁ לִי בֵית כּוֹר עָפָר, הֲרֵי זוֹ מְקֻדֶּשֶׁת וְיֶשׁ לוֹ. עַל מְנָת שֶׁיֶּשׁ לִי בְמָקוֹם פְּלוֹנִי, אִם יֶשׁ לוֹ בְאוֹתוֹ מָקוֹם, מְקֻדֶּשֶׁת. וְאִם לָאו, אֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת. עַל מְנָת שֶׁאַרְאֵךְ בֵּית כּוֹר עָפָר, הֲרֵי זוֹ מְקֻדֶּשֶׁת וְיַרְאֶנָּה. וְאִם הֶרְאָהּ בַּבִּקְעָה, אֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 3:3
עַל מְנָת שֶׁיֶּשׁ לִי בֵּית כּוֹר עָפָר הֲרֵי זוֹ מְקֻדֶּשֶׁת כוֹ': מַה שֶּׁאָמַר בְּכָאן יֶשׁ לוֹ, רוֹצֶה לוֹמַר שֶׁאָז תִּהְיֶה מְקֻדֶּשֶׁת בְּוַדַּאי, וְאִם אָמַר שֶׁאֵין אֶצְלוֹ שׁוּם דָּבָר הֲרֵי זוֹ מְקֻדֶּשֶׁת בְּסָפֵק דְּחַיְישִׁינַן שֶׁמָּא יֶשׁ לוֹ, וְהִשְׁמִיעָנוּ זֶה הַדִּין בְּמָעוֹת וּבְקַרְקַע, שֶׁלֹּא נֹאמַר אֵין אָדָם יָכוֹל לְהַטְמִין קַרְקַע וְאִלּוּ הָיָה אֶצְלוֹ שׁוּם דָּבָר קָלָא אִית לֵיהּ, לְפִיכָךְ לָמַדְנוּ שֶׁהִיא מְקֻדֶּשֶׁת בְּסָפֵק, וְאִלּוּ הִשְׁמִיעָנוּ גַּם כֵּן זֶה הַדִּין בְּמָעוֹת בִּלְבַד שֶׁמָּא נֹאמַר הַמָּמוֹן אַף עַל פִּי שֶׁנִּרְאֶה שֶׁאֵין לוֹ שׁוּם דָּבָר תִּהְיֶה מְקֻדֶּשֶׁת בְּוַדַּאי לְפִי שֶׁהוּא יָכוֹל לְהַטְמִינוֹ וְאִי אֶפְשָׁר לֵידַע מַה שֶּׁאֵצֶל בְּנֵי אָדָם מִן הַמָּמוֹן, וּלְפִיכָךְ לָמַדְנוּ כְּשֶׁנִּרְאֶה שֶׁאֵין לוֹ שׁוּם דָּבָר שֶׁהִיא מְקֻדֶּשֶׁת בְּסָפֵק. וּמַה שֶּׁאָמַר הֶרְאָה בַּבִּקְעָה, רוֹצֶה לוֹמַר שֶׁאֵינָהּ שֶׁלּוֹ וַאֲפִלּוּ שֶׁקִּבְּלָהּ בִּשְׂכִירוּת אוֹ בְּשֻׁתָּפוּת, אֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת:

Rambam explica que a mishná ensina aqui uma regra paralela à do dinheiro, mas com uma nuance: também sem prova pública de que ele possui o bet-kor de terra, ela fica consagrada por dúvida, pelo receio de que ele realmente o possua. Rambam destaca que essa mesma lei já havia sido ensinada a respeito do dinheiro; repeti-la a propósito da terra ensina que não se deve pensar que ‘ninguém pode esconder um terreno’ — pois se ele de fato tivesse alguma posse, ela costumaria vir a público; e ensiná-la apenas a respeito do dinheiro poderia levar a crer que, por ser mais fácil de esconder, o dinheiro sempre implicaria kidushin certo — daí a necessidade de declarar ambos os casos como dúvida. Sobre ‘mostrar num vale’: significa que a terra não é dele — mesmo que ele a tenha recebido em arrendamento ou sociedade —, e por isso o kidushin não se efetiva.

Bartenura · Kidushin 3:3
בֵּית כּוֹר, מָקוֹם הָרָאוּי לִזְרֹעַ כּוֹר, שֶׁהוּא שְׁלֹשִׁים סְאִין: וְיֶשׁ לוֹ, אִם יֵשׁ עֵדִים שֶׁיֶּשׁ לוֹ מְקֻדֶּשֶׁת וַדַּאי, וְאִם אֵין יָדוּעַ שֶׁיֵּשׁ לוֹ מְקֻדֶּשֶׁת מִסָּפֵק, וְלֹא אָמְרִינַן זוּזֵי דַּעֲבִידֵי אֱנָשֵׁי דְמַצְנְעֵי חַיְישִׁינַן דִּלְמָא אִית לֵיהּ וּמִתְכַּוֵּן לְקַלְקְלָהּ, אֲבָל אַרְעָא לָא חַיְישִׁינַן דִּלְמָא אִית לֵיהּ, דְּאִם אִיתָא דְּאִית לֵיהּ אַרְעָא קָלָא אִית לֵיהּ: וְאִם הֶרְאָהּ בַּבִּקְעָה, שֶׁאֵינָהּ שֶׁלּוֹ, וְאַף עַל גַּב דְּנָחַת בָּהּ לַחֲכִירוּת אוֹ לְקַבְּלָנוּת, אֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת:

Bartenura define o bet-kor como a área de terra apta a receber a semeadura de um kor de grãos, equivalente a trinta se’á. Sobre ‘ele tem’: havendo testemunhas, ela está consagrada com certeza; e mesmo sem prova conhecida, ela fica consagrada por dúvida — mas, diferentemente do dinheiro, que costuma ser guardado em segredo, não se teme, no caso de terra, que ele a esconda sem que ninguém saiba, precisamente porque a posse de um imóvel tende a ser pública. Sobre ‘mostrar-lhe num vale’: trata-se de um vale extenso, com muitos lotes de bet-kor, nenhum dos quais pertence a ele — daí a invalidade do kidushin.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Kiddushin 60b, s.v. מתני' בית כור; ויש לו; ואם הראה בבקעה
מַתְנִיתִין בֵּית כּוֹר – מָקוֹם הָרָאוּי לִזְרֹעַ ל' סְאִין, וְחָשְׁבִינַן לְכָל סְאָתַיִם מֵאָה עַל חֲמִשִּׁים, כַּחֲצַר הַמִּשְׁכָּן חֲמִשִּׁים עַל חֲמִשִּׁים לְבֵית סְאָה, וּבֵית כּוֹר אֶלֶף וַחֲמֵשׁ מֵאוֹת אֹרֶךְ עַל חֲמִשִּׁים רֹחַב, וְאִם אַתָּה מְרַבְּעוֹ תִּמְצָאֶנּוּ מָאתַיִם וְשִׁבְעִים וּשְׁלֹשָׁה וְחָמֵשׁ טְפָחִים עַל מָאתַיִם וְשִׁבְעִים וּשְׁלֹשָׁה וְחָמֵשׁ טְפָחִים וְעוֹד דָּבָר מוּעָט: וְיֶשׁ לוֹ – מַשְׁמַע שֶׁיֵּשׁ עֵדִים שֶׁיֶּשׁ לוֹ, הָא לָאו הָכִי אֵינָהּ מְקֻדֶּשֶׁת וּמֻתֶּרֶת לְאַחֵר, וְאַמַּאי נֵיחוּשׁ שֶׁמָּא יֶשׁ לוֹ: וְאִם הֶרְאָהּ בַּבִּקְעָה – הֲרֵי לִיךְ בִּקְעָה גְדוֹלָה וּבָהּ כַּמָּה בָּתֵּי כוֹרִין, וְאֵין אֶחָד מֵהֶן שֶׁלּוֹ:

Rashi calcula com precisão as dimensões de um bet-kor — cerca de 1500 côvados de comprimento por 50 de largura, equivalente a um quadrado de pouco mais de 273 côvados de lado — e observa uma dificuldade textual: a expressão ‘e ele tem’ pressuporia a existência de testemunhas que confirmem a posse; sem isso, ela deveria ficar livre para se casar com outro, sem a preocupação de que ele porventura tenha mesmo a terra — e é exatamente essa tensão que a Guemará resolve, explicando por que, mesmo sem testemunhas, subsiste aqui uma dúvida real. Sobre ‘mostrar-lhe no vale’, Rashi explica simplesmente que se trata de um vale amplo com muitos lotes de bet-kor, nenhum dos quais é dele — por isso a condição não se cumpre.