‘Com a condição de que eu tenha um bet-kor de terra’ — ela está consagrada, e ele [de fato] tem. ‘Com a condição de que eu tenha [terra] em tal lugar’ — se ele tem naquele lugar, ela está consagrada; e se não, ela não está consagrada. ‘Com a condição de que eu te mostre um bet-kor de terra’ — ela está consagrada, e ele deve mostrar-lhe; e se ele lhe mostrou num vale [que não é dele], ela não está consagrada. — Diferente do dinheiro, que pode ser escondido, a posse de terra costuma ser de conhecimento público — por isso, quando o homem afirma ter um bet-kor de terra sem que ninguém confirme o fato, a mishná ainda assim a considera consagrada por dúvida, e não com certeza, pois se algo tão notório como um terreno realmente lhe pertencesse, normalmente correria essa notícia; ainda assim subsiste a possibilidade remota de que ele o possua sem que se saiba, e por isso não se descarta o kidushin. Quando ele especifica um lugar determinado, a validade passa a depender diretamente do fato: se ele realmente possui terra ali, o kidushin vale; se não, não vale — não há aqui espaço para dúvida, pois o lugar é verificável. E, como no caso do dinheiro sobre a mesa, mostrar-lhe um terreno num vale aberto — onde há muitos lotes e nenhum sinal de que aquele em particular lhe pertença — não cumpre a condição, e o kidushin não se efetiva.
Rambam explica que a mishná ensina aqui uma regra paralela à do dinheiro, mas com uma nuance: também sem prova pública de que ele possui o bet-kor de terra, ela fica consagrada por dúvida, pelo receio de que ele realmente o possua. Rambam destaca que essa mesma lei já havia sido ensinada a respeito do dinheiro; repeti-la a propósito da terra ensina que não se deve pensar que ‘ninguém pode esconder um terreno’ — pois se ele de fato tivesse alguma posse, ela costumaria vir a público; e ensiná-la apenas a respeito do dinheiro poderia levar a crer que, por ser mais fácil de esconder, o dinheiro sempre implicaria kidushin certo — daí a necessidade de declarar ambos os casos como dúvida. Sobre ‘mostrar num vale’: significa que a terra não é dele — mesmo que ele a tenha recebido em arrendamento ou sociedade —, e por isso o kidushin não se efetiva.
Bartenura define o bet-kor como a área de terra apta a receber a semeadura de um kor de grãos, equivalente a trinta se’á. Sobre ‘ele tem’: havendo testemunhas, ela está consagrada com certeza; e mesmo sem prova conhecida, ela fica consagrada por dúvida — mas, diferentemente do dinheiro, que costuma ser guardado em segredo, não se teme, no caso de terra, que ele a esconda sem que ninguém saiba, precisamente porque a posse de um imóvel tende a ser pública. Sobre ‘mostrar-lhe num vale’: trata-se de um vale extenso, com muitos lotes de bet-kor, nenhum dos quais pertence a ele — daí a invalidade do kidushin.
Rashi calcula com precisão as dimensões de um bet-kor — cerca de 1500 côvados de comprimento por 50 de largura, equivalente a um quadrado de pouco mais de 273 côvados de lado — e observa uma dificuldade textual: a expressão ‘e ele tem’ pressuporia a existência de testemunhas que confirmem a posse; sem isso, ela deveria ficar livre para se casar com outro, sem a preocupação de que ele porventura tenha mesmo a terra — e é exatamente essa tensão que a Guemará resolve, explicando por que, mesmo sem testemunhas, subsiste aqui uma dúvida real. Sobre ‘mostrar-lhe no vale’, Rashi explica simplesmente que se trata de um vale amplo com muitos lotes de bet-kor, nenhum dos quais é dele — por isso a condição não se cumpre.