‘Consagrei minha filha, mas não sei a quem eu a consagrei’ — e veio um e disse: ‘Eu a consagrei’ — ele é confiável. Este disse ‘eu a consagrei’ e aquele disse ‘eu a consagrei’ — ambos dão get; e se quiserem, um dá get e o outro a desposa. — Quando o pai declara ter consagrado sua filha sem saber a quem, e um único homem se apresenta afirmando ser ele o noivo, sua palavra é aceita como confiável — não porque haja alguma prova formal, mas porque não é natural que alguém se apresente publicamente diante do pai que recebeu o kidushin, afirmando falsamente ser o marido, arriscando ser desmentido e envergonhado caso a afirmação seja falsa; por isso, presume-se que ele diz a verdade, e ele pode desposá-la. Mas quando dois homens diferentes reivindicam, cada um por si, ter sido o autor do kidushin, nenhuma das duas alegações pode ser automaticamente aceita em detrimento da outra — a mulher fica presa a ambos por dúvida, e nenhum deles pode desposá-la enquanto ambos não lhe derem get, liberando-a completamente para se casar com um terceiro; ou, alternativamente, se preferirem resolver o impasse entre si, um deles pode dar get, renunciando à sua reivindicação, enquanto o outro a desposa efetivamente.
Rambam resume objetivamente esta mishná: aquele que se apresenta dizendo ‘eu a consagrei’ é confiável — ou seja, é permitido a ele desposá-la, já que não há razão para presumir que minta publicamente sobre algo tão facilmente verificável e constrangedor caso seja falso.
Bartenura explica a razão da confiabilidade do único pretendente: não é natural (lo chatzif) que alguém tenha a ousadia de afirmar, diante do próprio pai que recebeu o kidushin, ‘fui eu’ — se isso não fosse verdade —, pois ele teme ser desmentido pelo pai. Já quando surgem dois pretendentes simultâneos, nenhuma dessas garantias se aplica, e por isso a mishná exige que ambos deem get antes que a mulher possa se casar com qualquer outra pessoa, ou que um deles ceda ao outro mediante get.
Rashi esclarece que o caso trata de uma filha menor, consagrada pelo pai — que detém a autoridade legal de consagrá-la nessa idade —, sem que ele soubesse identificar o noivo. E, sobre o desfecho da dupla reivindicação, Rashi explica que a exigência de que ambos deem get tem como finalidade específica liberá-la para se casar com um terceiro homem, já que nenhum dos dois pretendentes originais pode reivindicá-la com certeza.