Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Guimel · Mishná 7 de 13

Quem consagrou a filha sem saber a quem: a confiabilidade de quem reivindica o kidushin

קִדַּשְׁתִּי אֶת בִּתִּי וְאֵינִי יוֹדֵעַ לְמִי קִדַּשְׁתִּיהָ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando a sequência de casos ligados a declarações do pai sobre o kidushin da filha, a mishná examina a confiabilidade da palavra de um homem que reivindica ter sido ele o autor do kidushin de uma filha cujo pai não sabe identificar o noivo.

‘Consagrei minha filha, mas não sei a quem eu a consagrei’ — e veio um e disse: ‘Eu a consagrei’ — ele é confiável. Este disse ‘eu a consagrei’ e aquele disse ‘eu a consagrei’ — ambos dão get; e se quiserem, um dá get e o outro a desposa.Quando o pai declara ter consagrado sua filha sem saber a quem, e um único homem se apresenta afirmando ser ele o noivo, sua palavra é aceita como confiável — não porque haja alguma prova formal, mas porque não é natural que alguém se apresente publicamente diante do pai que recebeu o kidushin, afirmando falsamente ser o marido, arriscando ser desmentido e envergonhado caso a afirmação seja falsa; por isso, presume-se que ele diz a verdade, e ele pode desposá-la. Mas quando dois homens diferentes reivindicam, cada um por si, ter sido o autor do kidushin, nenhuma das duas alegações pode ser automaticamente aceita em detrimento da outra — a mulher fica presa a ambos por dúvida, e nenhum deles pode desposá-la enquanto ambos não lhe derem get, liberando-a completamente para se casar com um terceiro; ou, alternativamente, se preferirem resolver o impasse entre si, um deles pode dar get, renunciando à sua reivindicação, enquanto o outro a desposa efetivamente.

קִדַּשְׁתִּי אֶת בִּתִּי וְאֵינִי יוֹדֵעַ לְמִי קִדַּשְׁתִּיהָ, וּבָא אֶחָד וְאָמַר אֲנִי קִדַּשְׁתִּיהָ, נֶאֱמָן. זֶה אָמַר אֲנִי קִדַּשְׁתִּיהָ וְזֶה אָמַר אֲנִי קִדַּשְׁתִּיהָ, שְׁנֵיהֶם נוֹתְנִים גֵּט. וְאִם רָצוּ, אֶחָד נוֹתֵן גֵּט וְאֶחָד כּוֹנֵס:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 3:7
קִדַּשְׁתִּי אֶת בִּתִּי וְאֵינִי יוֹדֵעַ לְמִי קִדַּשְׁתִּיהָ כוֹ': אָמַר נֶאֱמָן, שֶׁמֻּתָּר לוֹ לִשָּׂאָהּ:

Rambam resume objetivamente esta mishná: aquele que se apresenta dizendo ‘eu a consagrei’ é confiável — ou seja, é permitido a ele desposá-la, já que não há razão para presumir que minta publicamente sobre algo tão facilmente verificável e constrangedor caso seja falso.

Bartenura · Kidushin 3:7
אֲנִי קִדַּשְׁתִּיהָ נֶאֱמָן, לְכָנְסָהּ, דְּלֹא חֲצִיף לְמֵימַר קַמֵּיהּ דְּאָב שֶׁקִּבֵּל הַקִּדּוּשִׁין אֲנִי הוּא אִם לֹא הָיָה אֱמֶת, דְּמִירְתַת דִּלְמָא מַכְחִישׁ לֵיהּ:

Bartenura explica a razão da confiabilidade do único pretendente: não é natural (lo chatzif) que alguém tenha a ousadia de afirmar, diante do próprio pai que recebeu o kidushin, ‘fui eu’ — se isso não fosse verdade —, pois ele teme ser desmentido pelo pai. Já quando surgem dois pretendentes simultâneos, nenhuma dessas garantias se aplica, e por isso a mishná exige que ambos deem get antes que a mulher possa se casar com qualquer outra pessoa, ou que um deles ceda ao outro mediante get.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Kiddushin 63b, s.v. קדשתי את בתי; מתני' שניהם נותנים גט
קִדַּשְׁתִּי אֶת בִּתִּי – קְטַנָּה, וְהוּא לֹא יָדַע לְמִי: מַתְנִיתִין שְׁנֵיהֶם נוֹתְנִים גֵּט – לְהַתִּירָהּ לַאֲחֵרִים:

Rashi esclarece que o caso trata de uma filha menor, consagrada pelo pai — que detém a autoridade legal de consagrá-la nessa idade —, sem que ele soubesse identificar o noivo. E, sobre o desfecho da dupla reivindicação, Rashi explica que a exigência de que ambos deem get tem como finalidade específica liberá-la para se casar com um terceiro homem, já que nenhum dos dois pretendentes originais pode reivindicá-la com certeza.