Não é proibido por kilaim senão lã e linho. E não se contamina por lepra [de vestes] senão lã e linho. E os cohanim não vestem para servir no Templo senão lã e linho. Lã de camelos e lã de ovelhas que se misturaram uma com a outra — se a maioria é dos camelos, é permitido; e se a maioria é das ovelhas, é proibido; metade e metade, é proibido. E do mesmo modo o linho e o cânhamo que se misturaram um com o outro.
Perek Tet abre a última seção do tratado, dedicada inteiramente ao kilaei begadim — o shaatnez, mistura proibida de lã e linho em vestes — a mais branda das quatro categorias de kilaim, mas também a mais minuciosamente regulada no plano prático do dia a dia.
Por que apenas lã e linho — e por que a regra da maioria. A Mishná abre o último perek do tratado com uma regra de exclusão fundamental: apesar de o termo "kilaim" sugerir qualquer combinação de tecidos diferentes, a proibição bíblica de shaatnez restringe-se exclusivamente à combinação específica de lã (de ovelha ou carneiro) com linho — algodão com seda, ou lã com algodão, por exemplo, não constituem kilaim algum. A Mishná demonstra essa restrição por analogia com duas outras leis bíblicas que usam a mesma dupla "lã e linho": a impureza de tzaraat (lepra) em vestes (Vayikrá 13:47, "veste de lã ou veste de linho") e as vestes sacerdotais no Templo, tecidas de lã (tingida em púrpura, escarlate e azul-celeste) e linho (o "bad"), sem qualquer outro material. A segunda metade da Mishná introduz o princípio da maioria (rov): quando lã de ovelha — que é kilaim com o linho — se mistura fisicamente com lã de camelo — que não é kilaim com o linho —, o tecido resultante segue a classificação do material predominante; se a lã de camelo for a maioria, a mistura toda é tratada como lã de camelo, e pode ser tecida com linho sem violar shaatnez, pois os poucos fios de lã de ovelha se anulam (bitul) na maioria; mas em caso de igualdade exata, aplica-se o princípio de que a dúvida quanto a uma proibição da Torá deve ser tratada com rigor, e a mistura é proibida.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam abre o capítulo final de Hilchot Kilaim exatamente como a Mishná — restringindo o shaatnez a lã e linho — e, na halachá seguinte, precisa a regra da maioria: no caso de empate exato (metade e metade), a mistura é tratada integralmente como lã de ovelha (o material mais estrito), tornando-se proibida com o linho; apenas quando os camelos formam maioria clara é que a mistura é permitida.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
A Escritura disse sobre kilaei begadim "lã e linho juntos"; e disse sobre a impureza de negaim "em veste de lã ou em veste de linho"; e disse sobre as vestes sacerdotais que todas elas não são senão de azul-celeste, púrpura, escarlate e linho torcido — seja em todas, seja em uma delas.
E o que disse "se a maioria é dos camelos, é permitido" — quer dizer que é permitido tecê-lo com o linho.
E "cânhamo" chama-se al-qanabás em árabe; e quando cresce na terra, saem dele fios que se assemelham ao linho, e as vestes tecidas dele são encontradas em abundância. E a explicação de "misturaram" (terafan) é "as bateram uma com a outra".
"Não é proibido por kilaim senão lã e linho": pois está escrito "não vestirás shaatnez, lã e linho"; "shaatnez" é a regra geral, "lã e linho" é o caso particular — e onde há regra geral seguida de caso particular, a regra geral só inclui o que está no caso particular: lã e linho sim, qualquer outra coisa não.
E "lã" refere-se apenas à lã de ovelhas e carneiros — pois só ela é chamada "lã" sem qualificativo; as demais lãs (de camelo, de coelho, de cabra) precisam de um nome adicional.
"É permitido": misturar linho com elas, pois a lã de ovelha se anula na maioria de lã de camelo.
"E do mesmo modo o linho e o cânhamo": que se misturaram, e a maioria sendo do cânhamo, é permitido trazer lã e misturar com eles.