Os vendedores de vestes vendem à sua maneira, contanto que não tenham a intenção — no sol, por causa do sol; e na chuva, por causa da chuva. E os escrupulosos as carregam suspensas numa vara às suas costas.
A Mishná avança do âmbito doméstico para o comercial, aplicando o princípio de que a proibição bíblica de shaatnez depende da intenção de tirar proveito — e não do mero contato físico com o corpo.
Por que a intenção determina a proibição, e por que os escrupulosos evitam até a aparência. Um vendedor de roupas frequentemente precisa vestir a própria peça de shaatnez que está à venda, para que o comprador veja seu comprimento, sua largura e como ela cai sobre o corpo — um uso comercial legítimo, não voltado ao benefício pessoal do vendedor. A Mishná permite essa prática contanto que não haja intenção (kavaná) de tirar proveito térmico da peça: se, ao vesti-la para mostrar ao comprador, o vendedor simultaneamente pretende se proteger do sol ou da chuva, a proibição bíblica plena se aplica, pois nesse momento ele está genuinamente "vestindo" shaatnez para seu próprio benefício, e a intenção comercial não o isenta. Esta é a mesma lógica implícita da Mishná 9:2, que já havia estabelecido que vestir kilaim "ainda que para enganar o cobrador de impostos" — um propósito instrumental, não relacionado a calor — ainda constitui transgressão; aqui a Mishná esclarece o outro lado: quando o propósito é puramente instrumental e a pessoa não busca ativamente o benefício térmico, a proibição bíblica não se ativa. A Mishná fecha notando que os mais escrupulosos (tzenuim) evitam até essa permissão, preferindo pendurar as peças de shaatnez na ponta de uma vara sobre os ombros, de modo que a veste jamais toque diretamente seu corpo — um costume de piedade que vai além do estritamente exigido pela lei.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam codifica esta halachá em conjunto com a dos costureiros (Mishná seguinte), sob o mesmo princípio de que a proibição depende da intenção de benefício — a peça de shaatnez, quando manuseada por necessidade profissional sem propósito de aquecimento ou proteção, não gera transgressão bíblica.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Quer dizer que lhes é permitida a venda de peças de kilaim, e lançá-las sobre si, contanto que não tenha a intenção de se aquecer com elas, ou de cobrir seu corpo do sol.
"E os escrupulosos": são os que são meticulosos nos mandamentos.
"E as carregam suspensas numa vara": significa que coloca a peça na ponta da vara e põe a vara sobre seu ombro, de modo que ela não toque seu corpo.
"Os vendedores de vestes vendem à sua maneira": vestem peças de kilaim para mostrar ao comprador a medida de seu comprimento e sua largura, contanto que não tenham a intenção de tirar proveito delas. E embora, caso tivessem essa intenção, houvesse proibição bíblica plena, quando não têm essa intenção é permitido de antemão. E assim é a lei.
"E os escrupulosos": os que são rigorosos consigo mesmos.
"Carregam suspensas numa vara": colocam a vara sobre os ombros com o kilaim pendurado em sua ponta, de modo que seus ombros não toquem o kilaim.