Seder Kodashim · Massechet Kinim · Perek Guimel · Mishná 6 de 6 — última do capítulo, do tratado e de toda a Seder Kodashim

A voz do carneiro morto: encerramento de Kinim e de Kodashim

הָאִשָּׁה שֶׁאָמְרָה, הֲרֵי עָלַי קֵן כְּשֶׁאֵלֵד זָכָר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do tratado: a mulher que promete um ninho votivo condicionado ao parto de um filho homem, os cálculos crescentes de aves adicionais conforme o grau de incerteza, e o apêndice de Rabi Yehoshua sobre a voz do carneiro morto e a sabedoria dos anciãos versados em Torá

A mulher que disse: “Sobre mim, um ninho quando eu der à luz um filho homem” — deu à luz um filho homem, traz dois ninhos: um por seu voto e um por sua obrigação. Se os entregou ao sacerdote, o sacerdote deve fazer três aves em cima e uma embaixo. Se não fez assim, mas fez duas em cima e duas embaixo, e não consultou, ela precisa trazer mais uma ave, e oferecê-la em cima — se da mesma espécie; se de duas espécies, deve trazer duas. Se especificou seu voto [depois de trazê-lo], precisa trazer mais três aves — se da mesma espécie; se de duas espécies, deve trazer quatro. Se fixou seu voto [desde o momento de fazê-lo], precisa trazer mais cinco aves — se da mesma espécie; se de duas espécies, deve trazer seis. Se os entregou ao sacerdote e não se sabe o que entregou, e o sacerdote foi e ofereceu e não se sabe o que fez, ela precisa trazer mais quatro aves para seu voto, e duas para sua obrigação, e uma chatat. Ben Azzai diz: duas chatot. Disse Rabi Yehoshua: isto é o que se disse: quando vivo, sua voz é uma; quando morto, sua voz é sete. Como assim, sua voz é sete? Seus dois chifres, duas trombetas; suas duas pernas, duas flautas; seu couro, para tambor; seus intestinos, para harpas; suas tripas, para liras. E há quem diga: até sua lã, para o azul-celeste. Rabi Shimon ben Akashiá diz: os anciãos do povo da terra, quanto mais envelhecem, mais sua mente se perturba, como está dito: “Ele remove a fala dos confiáveis, e tira o discernimento dos anciãos” (Jó 12). Mas os anciãos versados em Torá não são assim; antes, quanto mais envelhecem, mais sua mente se assenta, como está dito: “Nos idosos está a sabedoria, e no prolongar dos dias, o discernimento” (ali).

A mishná final aplica toda a maquinaria combinatória do tratado a um caso concreto e humano: uma mulher pobre que fez um voto condicional — um ninho de oferenda se desse à luz um filho homem — e, ao nascer o filho, deve agora dois ninhos: um pelo voto (inteiramente olá, como ensinado em 1:1) e um pela obrigação do parto (uma chatat e uma olá). O procedimento correto exige três aves em cima (as duas olot do voto mais a olá da obrigação) e uma embaixo (a chatat da obrigação). A mishná então percorre, em ordem crescente de incerteza, os cenários em que o sacerdote errou ou em que os fatos ficaram indefinidos: se apenas dividiu mal (duas em cima, duas embaixo) sem consultar, falta uma única ave; se, além disso, ela havia apenas mencionado verbalmente qual espécie era seu voto (sem tê-lo fixado no momento de fazê-lo), a incerteza cresce e exige três aves adicionais; se fixou a espécie do voto desde o início mas depois esqueceu qual era, a exigência sobe para cinco; e no grau máximo de incerteza — quando nem ela sabe o que entregou, nem o sacerdote sabe o que ofereceu — são necessárias sete aves adicionais no total (quatro para o voto, duas para a obrigação, e uma chatat extra pela dúvida, segundo a opinião anônima; ou duas chatot, segundo Ben Azzai). Rabi Yehoshua compara essa multiplicação de exigências, nascida da incerteza, ao ditado popular sobre o carneiro: vivo, emite um único som; morto, sete usos sonoros diferentes se extraem de seu corpo — uma metáfora sobre como a perda de clareza (a morte do conhecimento certo) multiplica as consequências práticas. O tratado — e com ele toda a Mishná — fecha-se com uma nota final de Rabi Shimon ben Akashiá sobre o valor duradouro do estudo: ao contrário dos idosos sem instrução, cuja mente se deteriora com a idade, os anciãos versados em Torá ganham sabedoria e discernimento à medida que envelhecem.

הָאִשָּׁה שֶׁאָמְרָה, הֲרֵי עָלַי קֵן כְּשֶׁאֵלֵד זָכָר, יָלְדָה זָכָר, מְבִיאָה שְׁתֵּי קִנִּים, אַחַת לְנִדְרָהּ וְאַחַת לְחוֹבָתָהּ. נְתָנָתַם לַכֹּהֵן, וְהַכֹּהֵן צָרִיךְ לַעֲשׂוֹת שָׁלשׁ פְּרִידִים מִלְמַעְלָן וְאַחַת מִלְּמַטָּן. לֹא עָשָׂה כֵן, אֶלָּא עָשָׂה שְׁתַּיִם לְמַעְלָן וּשְׁתַּיִם לְמַטָּן וְלֹא נִמְלַךְ, צְרִיכָה לְהָבִיא עוֹד פְּרִידָה אַחַת, וְיַקְרִיבֶנָּה לְמַעְלָן, מִמִּין אֶחָד. מִשְּׁנֵי מִינִין, תָּבִיא שְׁתַּיִם. פֵּרְשָׁה נִדְרָהּ, צְרִיכָה לְהָבִיא עוֹד שָׁלשׁ פְּרִידִים, מִמִּין אֶחָד. מִשְּׁנֵי מִינִין, תָּבִיא אַרְבַּע. קָבְעָה נִדְרָהּ, צְרִיכָה לְהָבִיא עוֹד חָמֵשׁ פְּרִידִים, מִמִּין אֶחָד. מִשְּׁנֵי מִינִין, תָּבִיא שֵׁשׁ. נְתָנָתַם לַכֹּהֵן וְאֵין יָדוּעַ מַה נָּתְנָה, הָלַךְ הַכֹּהֵן וְעָשָׂה וְאֵין יָדוּעַ מֶה עָשָׂה, צְרִיכָה לְהָבִיא עוֹד אַרְבַּע פְּרִידִים לְנִדְרָהּ, וּשְׁתַּיִם לְחוֹבָתָהּ, וְחַטָּאת אֶחָת. בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר, שְׁתֵּי חַטָּאוֹת. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, זֶה הוּא שֶׁאָמְרוּ, כְּשֶׁהוּא חַי קוֹלוֹ אֶחָד, וּכְשֶׁהוּא מֵת קוֹלוֹ שִׁבְעָה. כֵּיצַד קוֹלוֹ שִׁבְעָה. שְׁתֵּי קַרְנָיו, שְׁתֵּי חֲצוֹצְרוֹת. שְׁתֵּי שׁוֹקָיו, שְׁנֵי חֲלִילִין. עוֹרוֹ, לְתֹף. מֵעָיו, לִנְבָלִים. בְּנֵי מֵעָיו, לְכִנּוֹרוֹת. וְיֵשׁ אוֹמְרִים, אַף צַמְרוֹ לִתְכֵלֶת. רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן עֲקַשְׁיָא אוֹמֵר, זִקְנֵי עַם הָאָרֶץ, כָּל זְמַן שֶׁמַּזְקִינִין, דַּעְתָּן מִטָּרֶפֶת עֲלֵיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר (איוב יב), מֵסִיר שָׂפָה לְנֶאֱמָנִים וְטַעַם זְקֵנִים יִקָּח. אֲבָל זִקְנֵי תוֹרָה אֵינָן כֵן, אֶלָּא כָל זְמַן שֶׁמַּזְקִינִין, דַּעְתָּן מִתְיַשֶּׁבֶת עֲלֵיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר (שם), בִּישִׁישִׁים חָכְמָה וְאֹרֶךְ יָמִים תְּבוּנָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kinim 3:6
הָאִשָּׁה שֶׁאָמְרָה הֲרֵי עָלַי קֵן כְּשֶׁאֵלֵד זָכָר…

Rambam recorda que a obrigatória é uma olá e uma chatat, e a doação voluntária (aqui, o voto) são duas olot; por isso a mulher traz quatro aves ao todo, das quais três devem ser oferecidas em cima (as duas do voto, mais a olá da obrigação) e uma embaixo (a chatat da obrigação). Se o sacerdote fizer duas em cima e duas embaixo, sem consultar, uma das quatro fica desqualificada — pois as duas de cima podem ser o voto, e as duas de baixo a obrigação, mas a chatat da obrigação, estando embaixo, é válida, enquanto a olá da obrigação, também embaixo, fica desqualificada; por isso ela traz mais uma ave e a oferece em cima, completando tanto o voto quanto a obrigação.

Isso vale quando as quatro aves eram da mesma espécie (todas rolinhas ou todos pombinhos); se eram de duas espécies, ela não sabe qual espécie ficou embaixo, e por isso traz uma de cada espécie, seguindo o princípio de que não se pareiam rolinhas com pombinhos (2:5).

Rambam então percorre, com exemplos numéricos detalhados, os graus crescentes de incerteza descritos na mishná — “especificou seu voto” (soube depois qual espécie separou, mas o sacerdote confundiu a divisão), “fixou seu voto” (declarou a espécie desde o momento do voto, mas depois esqueceu qual era) e o caso final, em que nem ela nem o sacerdote sabem o que foi entregue ou oferecido — mostrando como cada grau adicional de dúvida exige mais aves para cobrir todas as possibilidades, culminando nas quatro para o voto, duas para a obrigação e uma chatat adicional (ou duas, segundo Ben Azzai) do caso mais extremo.

Rambam observa, por fim, que todas essas chatot trazidas por dúvida não são comidas, como se explica ao final de Temurá — a chatat de ave trazida por dúvida é queimada — e que, mesmo sem qualquer perda ou dúvida, uma mulher rica traria apenas uma única ave para sua chatat (com um cordeiro para a olá); é apenas por causa da dúvida sucessiva que se chega a sete aves adicionais. Sobre o apêndice de Rabi Yehoshua e Rabi Shimon ben Akashiá, Rambam nota o paralelo: assim como a morte do carneiro multiplica seus usos, o enfraquecimento do corpo dos sábios, com a velhice, é acompanhado pelo fortalecimento e aperfeiçoamento de sua sabedoria, como está dito: “nos idosos está a sabedoria, e no prolongar dos dias, o discernimento”.

Bartenura · Kinim 3:6
הֲרֵי עָלַי קֵן לִכְשֶׁאֵלֵד זָכָר. בְּיוֹלֶדֶת עֲנִיָּה עָסְקִינַן…

Bartenura explica que se trata de uma parturiente pobre, pois a rica traria um cordeiro para sua obrigação. Sobre “o sacerdote deve fazer três em cima”: o ninho de doação voluntária (o voto) é todo olá, e o ninho de obrigação tem uma olá em cima e uma chatat embaixo; se o sacerdote não fez assim, mas duas em cima e duas embaixo, sem consultar para saber sobre o que ela trouxe, uma ave fica desqualificada, e por isso ela deve trazer outra e oferecê-la em cima.

“Da mesma espécie”: isto vale quando os dois ninhos eram da mesma espécie; mas se eram de duas espécies — um de rolinhas, outro de pombinhos — ela deve trazer uma rolinha e um pombinho, pois não se sabe se a espécie desqualificada era das rolinhas ou dos pombinhos, e já se ensinou que não se trazem rolinhas em lugar de pombinhos.

Bartenura desenvolve, com grande detalhe numérico, cada grau sucessivo de incerteza — “especificou seu voto”, “fixou seu voto”, e a entrega sem identificação nem pelo sacerdote nem pela mulher — mostrando exatamente por que cada cenário exige mais aves adicionais, e por que, no caso final, ela não pode se contentar com menos do que o total máximo exigido por todas as possibilidades combinadas: quatro para completar seu voto (duas rolinhas e dois pombinhos, cobrindo qualquer espécie que tenha fixado), duas para completar sua obrigação, e uma chatat adicional para cobrir a incerteza residual sobre se a chatat de sua obrigação já foi oferecida.

Sobre o apêndice final: “seus chifres, para trombetas” — refere-se a shofarot, pois chamamos de chatzotzerá também o shofar. “Até sua lã, para o azul-celeste”: faz-se de sua lã um manto todo azul-celeste, com sinos em suas bordas que emitem som; a opinião anônima não conta o azul-celeste, pois ele mesmo não emite som, apenas os sinos ao seu redor. Sobre Rabi Shimon ben Akashiá: assim como, morto, a voz do carneiro se multiplica em sete, também os anciãos versados em Torá, à medida que envelhecem e chegam ao enfraquecimento das forças, aumentam em sabedoria — ao contrário dos anciãos do povo comum, sem instrução, cuja mente se perturba com a idade, pois “que sabedoria têm eles?”

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Kinim não possui Guemará no Talmud Bavli — assim como Eduyot e Midot, é um tratado de mishnayot puras. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do tratado · סִיּוּם הַמַּסֶּכֶת

הֲדַרָן עֲלָךְ בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִים, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת קִנִּים, וּסְלִיקָא לַהּ סֵדֶר קָדָשִׁים

Com esta sexta mishná do Perek Guimel, encerra-se o Perek “Bame Devarim” — e com ele, toda a Massechet Kinim. Como o tratado não possui Guemará no Talmud Bavli, não há aqui a fórmula amoraica tradicional de encerramento de daf; em seu lugar, adota-se a fórmula que abre este bloco — “hadran alach” (“voltaremos a ti”), nomeando o capítulo por suas palavras iniciais, seguida de “vessalika lah massechet Kinim”, “e assim se encerra o tratado Kinim” — o mesmo padrão adotado ao final de Massechet Eduyot e de Massechet Midot, os outros tratados sem Guemará.

Ao longo de seus três perakim e quinze mishnayot — o mais breve de todos os sessenta e três tratados da Mishná — Kinim ofereceu, sob a aparência de brevidade, o texto de maior densidade combinatória de toda a obra. O Perek Alef (quatro mishnayot) estabeleceu o vocabulário fundamental: o lugar exato de cada tipo de oferenda de ave no altar (1:1), a regra severa de que qualquer mistura entre chatat e olá condena tudo à morte, ainda que na proporção de uma em dez mil, e a regra mais branda da mistura entre uma oferenda designada e a obrigatória não designada (1:2), a distinção entre obrigatória misturada com obrigatória — onde prevalece a menor quantidade — e obrigatória misturada com doação voluntária (1:3), e o vocabulário de “mesmo nome” e “dois nomes”, com a exceção liberal de Rabi Yossi para ninhos comprados em sociedade (1:4).

O Perek Bet (cinco mishnayot) explorou o cenário dinâmico do filhote que voa: a lei do ninho não designado (2:1), o exemplo numérico de duas mulheres com dois ninhos cada, ida e volta (2:2), o cálculo mais elaborado de todo o tratado — sete mulheres com um a sete ninhos, e um filhote em cadeia sucessiva por todas elas, repetido três vezes (2:3) —, a introdução do ninho já designado e a condição em que tudo morre (2:4), e o fechamento do capítulo com o arranjo espacial de chatat, olá e não designado, a proibição de misturar rolinhas com pombinhos, e a regra sucessória da mulher que morre entre suas duas oferendas (2:5).

O Perek Guimel (seis mishnayot) tratou do sacerdote que decide sem consultar, invertendo a regra da menor quantidade para a maior (3:1–3:2), o caso mais severo em que chatat e olá isoladas, ao se dividirem entre cima e embaixo, se desqualificam mutuamente (3:3), o cenário de quatro categorias simultâneas, no qual só o não designado permanece válido (3:4), o refinamento proporcional da mistura entre oferenda isolada e obrigatória (3:5), e esta mishná final: a mulher que deve um ninho por voto e um por obrigação, os cálculos sucessivos de quantas aves adicionais deve trazer conforme o grau de incerteza sobre o que já foi oferecido — culminando na dúvida mais completa, em que nada se sabe do que foi dado nem do que foi feito — e o apêndice poético sobre a voz múltipla do carneiro morto e a sabedoria que cresce com a idade nos que estudam Torá.

Com a conclusão de Massechet Kinim, completa-se o décimo primeiro e último tratado da Seder Kodashim — a quinta das seis Ordens da Mishná, encerrada agora em sua totalidade. Ao longo de Zevachim, Menachot, Chulin, Bechorot, Arachin, Temurá, Keritot, Meilá, Tamid, Midot e, por fim, Kinim, Kodashim percorreu o serviço sacrificial completo do Templo: o abate e a aspersão do sangue, as oferendas de farinha, o abate de animais comuns, a santidade do primogênito, as avaliações votivas, a troca indevida de oferendas, as transgressões que exigem extirpação ou oferenda de culpa variável, o uso indevido de bens sagrados, o serviço diário permanente, a arquitetura do Segundo Templo, e, por fim, nestas quinze mishnayot finais, a aritmética miudinha dos pares de aves das mulheres mais pobres de Israel — prova de que a Torá dedica ao caso mais humilde a mesma precisão exigida pelas leis do maior dos sacrifícios. Seder Kodashim está, assim, completa: onze tratados, do primeiro ao último. O estudo da Mishná prossegue agora para a sexta e última Ordem, Seder Tehorot (as leis de pureza ritual), já iniciada em paralelo com Massechet Keilim.