Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Alef · Mishná 6

"Quem compra animal por engano"

הַלּוֹקֵחַ בְּהֵמָה, שׁוֹגֵג
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica ao caso específico do animal comprado fora de Jerusalém a mesma estrutura de engano e propósito já vista na mishná anterior para frutos, acrescentando o detalhe próprio do animal: quando não há Templo, ele é enterrado junto com seu couro, que também está proibido

Quem compra animal (fora de Jerusalém, com dinheiro do segundo dízimo), por engano, o dinheiro volta ao seu lugar (o vendedor devolve o valor, que permanece dízimo, e recupera o animal). De propósito, sobe e é comido no lugar (o animal deve ser levado a Jerusalém e ali abatido e consumido sob a santidade do segundo dízimo). E se não há Templo, é enterrado junto com seu couro (diferentemente dos frutos, que simplesmente apodrecem, o animal deve ser enterrado — e seu couro, que em condições normais sairia para uso comum, aqui permanece proibido e é enterrado com ele, como penalidade pela compra deliberada).

הַלּוֹקֵחַ בְּהֵמָה, שׁוֹגֵג, יַחְזְרוּ דָמֶיהָ לִמְקוֹמָן. מֵזִיד, תָּעֳלֶה וְתֵאָכֵל בַּמָּקוֹם. וְאִם אֵין מִקְדָּשׁ, תִּקָּבֵר עַל יְדֵי עוֹרָהּ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mesma base de Devarim 14:26 — a exigência de que o consumo do segundo dízimo, ou daquilo comprado com seu dinheiro, se dê exclusivamente "no lugar que o Eterno escolher" — explica por que o animal comprado indevidamente fora de Jerusalém não pode simplesmente ser liberado para uso comum.

Devarim (Deuteronômio) 12:17-18
לֹא תוּכַל לֶאֱכֹל בִּשְׁעָרֶיךָ... וּמַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ... כִּי אִם לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ תֹּאכְלֶנּוּ בַּמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר ה' אֱלֹהֶיךָ בּוֹ.
"Não poderás comer dentro de tuas cidades... o dízimo de teu grão, teu mosto e teu azeite... mas sim diante do Eterno, teu D-us, o comerás, no lugar que o Eterno, teu D-us, escolher" (Devarim 12:17-18). A Torá restringe expressamente o consumo do segundo dízimo — e, por extensão legal, de qualquer bem adquirido com seu dinheiro — a Jerusalém. Um animal comprado indevidamente fora de Jerusalém com dinheiro do dízimo, quando a compra é feita de propósito, não pode ser simplesmente devolvido (como no caso do engano) nem liberado; a única forma de "corrigir" a situação, mantendo a fidelidade ao versículo, é elevá-lo a Jerusalém e ali consumi-lo como corresponde ao segundo dízimo.

Por que o animal é enterrado com seu couro, e não apenas deixado para apodrecer como os frutos? A diferença de tratamento reflete a diferença material entre frutos e animais. Frutos que apodrecem simplesmente se decompõem com o tempo, sem exigir uma ação específica. Um animal, porém, não pode ser deixado ao relento da mesma forma — ele deve ser abatido ou, quando não há Templo para consumi-lo apropriadamente, enterrado como forma de retirá-lo permanentemente de qualquer uso, tal como se faz com outros itens proibidos que não podem ser destruídos por combustão ou consumo. O detalhe do couro é o ponto mais instrutivo: em circunstâncias normais (mishná 1:3), o couro de um animal comprado para carne "sai para uso comum", pois não fazia parte da intenção de compra do comprador. Mas aqui, como toda a transação foi inválida desde o início — feita de propósito, fora de Jerusalém —, a santidade do dízimo nunca foi corretamente transferida para "a carne apenas"; ela permanece grudada a todo o animal, couro incluído, e por isso ambos devem ser enterrados juntos.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica este caso em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 7, imediatamente após o caso paralelo dos frutos.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 7:16
וְכֵן אֵין לוֹקְחִין בְּהֵמָה בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר חוּץ לִירוּשָׁלַיִם. וְאִם לָקַח בְּשׁוֹגֵג יַחְזְרוּ הַדָּמִים לִמְקוֹמָן. בְּמֵזִיד תַּעֲלֶה וְתֵאָכֵל בִּירוּשָׁלַיִם. וְאִם אֵין מִקְדָּשׁ תִּקָּבֵר הִיא וְעוֹרָהּ.
"E também não se compra animal com dinheiro do dízimo fora de Jerusalém. E se comprou por engano, o dinheiro volta ao seu lugar. De propósito, sobe e é comido em Jerusalém. E se não há Templo, é enterrado — ela e seu couro" (o Rambam confirma exatamente a estrutura da mishná, deixando explícito que tanto o animal quanto seu couro são enterrados juntos quando não há Templo).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 1:6
תִּקָּבֵר עַל יְדֵי עוֹרָהּ. עִנְיָנָהּ שֶׁתִּקָּבֵר בְּעוֹרָהּ אִם מֵתָה, כְּדֵי שֶׁלֹּא יֵהָנֶה אָדָם בְּעוֹרָהּ.

"É enterrada junto com seu couro": seu significado é que se enterre com seu couro se ela morrer, para que ninguém possa se beneficiar de seu couro (o Rambam esclarece o propósito da regra: não é apenas uma questão de procedimento, mas de impedir que o couro, mesmo já separado, seja aproveitado por alguém, já que ele também está sob a proibição decorrente da compra deliberada e inválida).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 1:6
תִּקָּבֵר עַל יְדֵי עוֹרָהּ. עִם עוֹרָהּ, לְפִי שֶׁגַּם עוֹרָהּ אָסוּר.

"É enterrada junto com seu couro": com seu couro, pois também o couro está proibido (diferentemente do caso comum, em que o couro do animal comprado para consumo sai para uso comum — aqui, como toda a compra foi inválida e deliberada, o couro compartilha a mesma proibição que a carne, e ambos devem ser enterrados).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.