Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Bet · Mishná 10

"Alguém que tinha alguns filhos impuros e outros puros"

מִי שֶׁהָיוּ מִקְצָת בָּנָיו טְמֵאִין וּמִקְצָתָן טְהוֹרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O perek se encerra com um caso doméstico e concreto: um pai tem alguns filhos ritualmente impuros (tmeim) e outros puros (tehorim), e todos querem beber juntos do mesmo jarro de vinho do segundo dízimo. A solução é uma declaração de resgate condicional, dirigida apenas ao que os filhos puros vierem a beber, permitindo que impuros e puros bebam lado a lado do mesmo recipiente sem que ninguém coma o dízimo em estado de impureza

Alguém que tinha alguns filhos impuros e outros puros (e todos queriam beber juntos, do mesmo jarro, do vinho comprado com dinheiro do segundo dízimo): deixa o sela e diz: o que os puros beberem, este sela está resgatado sobre isso (uma declaração de resgate condicional e retroativo, dirigida especificamente à porção que vier a ser bebida pelos filhos puros). Resulta que puros e impuros bebem do mesmo jarro (pois, no momento em que cada gole é bebido pelos puros, ele se torna retroativamente "vinho do dízimo", já resgatado; e o que os impuros bebem nunca chega a ser dízimo, mas sim vinho comum, adquirido com o dinheiro já resgatado).

מִי שֶׁהָיוּ מִקְצָת בָּנָיו טְמֵאִין וּמִקְצָתָן טְהוֹרִים, מַנִּיחַ אֶת הַסֶּלַע וְאוֹמֵר, מַה שֶּׁהַטְּהוֹרִים שׁוֹתִים, סֶלַע זוֹ מְחֻלֶּלֶת עָלָיו. נִמְצְאוּ טְהוֹרִים וּטְמֵאִים שׁוֹתִין מִכַּד אֶחָד:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná combina dois princípios já vistos: o consumo do dízimo apenas em estado de pureza ritual, e o mecanismo de resgate (chilul) como ferramenta prática para resolver situações complexas.

Devarim (Deuteronômio) 26:14
לֹא אָכַלְתִּי בְאֹנִי מִמֶּנּוּ, וְלֹא בִעַרְתִּי מִמֶּנּוּ בְּטָמֵא, וְלֹא נָתַתִּי מִמֶּנּוּ לְמֵת.
"Não comi dele em meu luto, nem retirei dele em impureza, nem dei dele para um morto" (Devarim 26:14) — este versículo, parte da declaração feita ao concluir a separação dos dízimos, estabelece explicitamente que o segundo dízimo não pode ser consumido em estado de impureza ritual. Por isso, filhos ritualmente impuros não podem beber vinho do dízimo enquanto ele ainda for tecnicamente dízimo. A solução engenhosa desta mishná recorre ao mecanismo do chilul (resgate), já estudado nas mishnayot anteriores deste perek: ao declarar que o sela está resgatado sobre "o que os puros beberem", o pai faz com que, no exato momento em que os filhos puros bebem, aquele vinho específico se torne retroativamente vinho comum resgatado — mas, crucialmente, o vinho que os filhos impuros bebem no mesmo momento nunca chega a ter status de dízimo consagrado, pois a declaração nunca se referiu a ele.

Como funciona, na prática, esta solução? Segundo o Bartenura, o mecanismo é sutil: o pai não tenta separar fisicamente o vinho — todos bebem do mesmo jarro. Em vez disso, ele faz uma declaração de resgate que se aplica, desde já, apenas à porção específica que os filhos puros vierem a consumir. Cada gole que um filho puro bebe é, retroativamente, transformado em vinho comum (pois o sela previamente separado absorve sua santidade), tornando lícito bebê-lo mesmo em pureza plena, exatamente como qualquer outro resgate do dízimo. Já o vinho que os filhos impuros bebem do mesmo jarro nunca foi objeto dessa declaração — nunca foi, portanto, "designado" como dízimo a ser resgatado —, e por isso nunca teve, para eles, status de vinho sagrado; era, desde sempre, vinho comum como qualquer outro (comprado, é claro, com o dinheiro do dízimo, mas cuja santidade específica nunca recaiu sobre a porção consumida pelos impuros, graças à cláusula condicional). O resultado prático é que ninguém — nem puros, nem impuros — jamais consome vinho do dízimo em estado de impureza, embora todos bebam fisicamente do mesmo recipiente, ao mesmo tempo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O princípio geral de que o segundo dízimo não pode ser consumido em impureza está codificado em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 3, halachot 1 e 4. O Rambam não formulou, porém, uma halachá redigida especificamente para o caso concreto desta mishná — o pai com filhos parcialmente puros e parcialmente impuros —, tratando-o como uma aplicação prática e derivada do princípio geral, e não como uma norma independente. Registra-se aqui essa ausência com honestidade, seguindo apenas o comentário do Rambam à própria mishná, reproduzido abaixo.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 3:1 (princípio geral, base do caso desta mishná)
הָאוֹכֵל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בְּטֻמְאָה לוֹקֶה שֶׁנֶּאֱמַר "וְלֹא בִעַרְתִּי מִמֶּנּוּ בְּטָמֵא". בֵּין שֶׁהַמַּעֲשֵׂר טָמֵא וְהָאוֹכֵל טָהוֹר, בֵּין שֶׁהַמַּעֲשֵׂר טָהוֹר וְהָאוֹכֵל טָמֵא.
"Quem come o segundo dízimo em impureza é açoitado, como está dito: 'nem retirei dele em impureza' — seja o dízimo impuro e quem come, puro, seja o dízimo puro e quem come, impuro" (este é o princípio geral que explica por que os filhos ritualmente impuros desta mishná não podem simplesmente beber o vinho do dízimo junto com os irmãos puros — mesmo estando o vinho em si puro, o próprio consumidor impuro violaria a proibição bíblica ao bebê-lo enquanto ainda tiver status de dízimo. A solução da mishná, de resgatá-lo seletivamente apenas para os filhos puros, contorna esse problema sem exigir a separação física do vinho).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que encerra o segundo perek de Massechet Maaser Sheni.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:10
הַטְּמֵאִים אֲסוּרִים לֶאֱכֹל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי לְפִי שֶׁהוּא קֹדֶשׁ, וְצָרִיךְ אַתָּה לָדַעַת אֵיךְ תִּהְיֶה טֻמְאָתָן וְאָז תֵּדַע אֵיךְ תִּהְיֶה צוּרַת שְׁתִיָּתָם... וְהַדָּבָר שֶׁיִּשְׁתּוּ הַטְּהוֹרִים יִהְיֶה מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וּכְאִלּוּ קְנָאוֹ בְּזֶה הַסֶּלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וְיֵצֵא הַסֶּלַע לְחֻלִּין כְּדִין מְעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁהוֹצִיאָם בְּמַאֲכָלוֹת.

Os impuros estão proibidos de comer o segundo dízimo, pois ele é sagrado; e é necessário que saibas qual é o tipo de impureza deles, e então saberás qual deve ser a forma da bebida deles (o Rambam nota, em seguida, uma distinção técnica adicional: dependendo do tipo específico de impureza dos filhos — se, por exemplo, forem zavim, cuja impureza é mais grave e se transmite até pelo simples ato de manusear o recipiente —, pode ser necessário cuidado adicional quanto ao próprio copo usado, mesmo que o vinho servido a eles já seja comum)... E o que os puros beberem será segundo dízimo, como se o tivessem comprado com este sela do segundo dízimo, e o sela sairá para o uso comum, conforme a lei do dinheiro do segundo dízimo que se gasta em alimentos (a lógica é a mesma de qualquer resgate comum: o dinheiro sagrado "compra" o alimento, absorvendo sua santidade, e o próprio dinheiro se torna comum — aqui aplicada de forma retroativa e seletiva, gole a gole, apenas à porção efetivamente bebida pelos filhos puros).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:10
מַנִּיחַ אֶת הַסֶּלַע וְאוֹמֵר. מַה שֶּׁיִּשְׁתּוּ הַטְּהוֹרִים מִן הַיַּיִן, לִכְשֶׁיִּשְׁתּוּ תְּהֵא סֶלַע זוֹ מְחֻלֶּלֶת עָלָיו מֵעַכְשָׁיו. נִמְצָא מַה שֶּׁשָּׁתוּ טְהוֹרִים הָיָה מַעֲשֵׂר וּמַה שֶּׁשָּׁתוּ טְמֵאִים הָיָה חֻלִּין. וְאֵינוֹ חֻלִּין וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי מְעֹרָבִים זֶה בָזֶה, שֶׁאֵין הַיַּיִן קָדוֹשׁ בִּקְדֻשַּׁת מַעֲשֵׂר, אֶלָּא לִכְשֶׁיִּשְׁתּוּ חוֹזֵר הַיַּיִן שֶׁשָּׁתוּ בִּלְבַד לִהְיוֹת מַעֲשֵׂר לְמַפְרֵעַ.

"Deixa o sela e diz": o que os puros beberem do vinho, quando o beberem, que este sela esteja resgatado sobre ele desde agora (uma condição com efeito retroativo, fixada no momento da declaração, mas que só se ativa de fato no momento em que cada gole específico é efetivamente bebido pelos filhos puros). Resulta que o que os puros beberam era dízimo, e o que os impuros beberam era comum. E não se trata de vinho comum e segundo dízimo misturados um com o outro, pois o vinho não é sagrado com a santidade do dízimo, exceto quando, ao ser bebido, apenas aquele vinho que foi bebido volta a ser dízimo retroativamente (o Bartenura enfatiza o ponto crucial: não há mistura física de vinho sagrado e comum no jarro — o vinho inteiro permanece, na prática, comum, exceto pela porção específica que, no exato instante do consumo pelos puros, é retroativamente "convertida" em dízimo já resgatado, sem jamais ter existido fisicamente como tal antes desse momento).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná encerra-se o segundo perek de Massechet Maaser Sheni, que tratou dos usos permitidos do dízimo (comer, beber e untar), da regra do hishbach, do tiltan e do karshin, e das diversas formas de resgate (chilul) do dinheiro do dízimo — moedas espalhadas, selaim misturados, conversão em ouro, e câmbio por moedas miúdas dentro e fora de Jerusalém.