Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Guimel · Mishná 11

"Um veado comprado com dinheiro do dízimo, e que morreu"

צְבִי שֶׁלְּקָחוֹ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, וָמֵת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua o tema de produtos comprados com dinheiro do dízimo que se tornam impróprios, agora com um caso específico: um veado (animal selvagem, chayá, e não behemá doméstica) comprado com esse dinheiro. Três cenários são examinados — o veado morre por conta própria, é abatido vivo e depois se contamina, ou é comprado já abatido e depois se contamina — cada um com sua própria regra e controvérsia entre os sábios

Um veado que foi comprado com dinheiro do dízimo, e morreu, deve ser enterrado junto com sua pele (um animal selvagem que morreu por si só — não abatido ritualmente — não pode ser resgatado nem seu couro aproveitado; deve ser enterrado inteiro, com a pele, pois nada dele pode ser licitamente utilizado). Rabi Shimon diz: deve ser resgatado (discordando, permite que mesmo esse veado morto sem abate seja resgatado, e não simplesmente enterrado). Se foi comprado vivo e abatido, e depois se contaminou, deve ser resgatado (neste segundo cenário — o veado foi abatido corretamente, tornando sua carne apta ao consumo, mas depois essa carne se contaminou —, a lei concorda que o resgate é permitido). Rabi Yossei diz: deve ser enterrado (discordando desta vez em sentido oposto ao de Rabi Shimon, Rabi Yossei é mais rigoroso, exigindo o sepultamento mesmo neste caso). Se foi comprado já abatido, e depois se contaminou, é como os frutos (neste terceiro cenário — o veado já estava abatido no momento da compra, e só depois se contaminou —, aplica-se a mesma regra já estabelecida para frutos comprados com dinheiro do dízimo que se contaminam, discutida na mishná anterior).

צְבִי שֶׁלְּקָחוֹ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, וָמֵת, יִקָּבֵר עַל יְדֵי עוֹרוֹ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, יִפָּדֶה. לְקָחוֹ חַי וּשְׁחָטוֹ וְנִטְמָא, יִפָּדֶה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, יִקָּבֵר. לְקָחוֹ שָׁחוּט וְנִטְמָא, הֲרֵי הוּא כְפֵרוֹת:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O status do veado comprado com dinheiro do dízimo se apoia na permissão geral de comprar animais e carnes com o dinheiro resgatado, mas suas regras específicas dependem de distinções sobre o método de abate e a origem da impureza.

Devarim (Deuteronômio) 14:26
וְנָתַתָּה הַכֶּסֶף בְּכֹל אֲשֶׁר תְּאַוֶּה נַפְשְׁךָ בַּבָּקָר וּבַצֹּאן וּבַיַּיִן וּבַשֵּׁכָר וּבְכֹל אֲשֶׁר תִּשְׁאָלְךָ נַפְשֶׁךָ.
"E darás o dinheiro por tudo que tua alma desejar, por gado e por rebanho, e por vinho e por bebida forte, e por tudo que tua alma pedir" (Devarim 14:26) — a Torá menciona explicitamente "gado e rebanho" (behemá) como exemplos do que pode ser comprado com o dinheiro do dízimo, mas o veado (tzvi) é uma chayá — um animal selvagem, não doméstico. Os sábios incluem também os animais selvagens comestíveis sob a categoria geral de "tudo que tua alma desejar", desde que sejam abatidos ritualmente antes do consumo, como qualquer outra carne. Mas justamente por não ser uma behemá — apenas assimilada a ela por extensão — surgem dúvidas sobre até que ponto as leis aplicáveis ao gado (como a possibilidade de resgate após a morte) também se aplicam ao veado, o que gera a controvérsia central desta mishná quanto ao primeiro cenário, em que o animal morre sem ser abatido.

Por que a diferença entre "morreu" e "foi abatido e depois se contaminou"? A distinção entre os três casos da mishná gira em torno de um princípio central: um animal que morre por si só (neveilá) nunca chega a ter sua carne tornada apta para consumo humano — a ausência do abate ritual (shechitá) significa que aquela carne nunca foi, tecnicamente, "comida" no sentido halájico pleno, e por isso o primeiro tana considera que ela não pode mais ser resgatada, apenas enterrada, junto com sua pele (que, tratando-se de dinheiro sagrado do dízimo, também não pode ser separada e aproveitada). Já quando o animal é abatido corretamente — seja antes, seja depois da compra —, sua carne passa a ter status pleno de alimento apto, e a impureza posterior é tratada como qualquer outra contaminação de um produto comprado com dinheiro do dízimo, permitindo o resgate (segundo a opinião que prevalece). A controvérsia entre Rabi Shimon (que permite resgatar mesmo o animal morto sem abate) e Rabi Yossei (que exige sepultamento mesmo do animal abatido e contaminado) mostra que essa fronteira entre "apto" e "inapto" para consumo não era consenso unânime entre os tanaim, cada um deslocando ligeiramente o ponto de corte.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Mishné Torá não formulou halachá redigida especificamente para o caso do veado morto ou abatido comprado com dinheiro do dízimo — um caso relativamente raro e específico. O princípio geral de que produtos comprados com dinheiro do dízimo, uma vez contaminados, podem ser resgatados (Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 7:1) é a base sobre a qual o Rambam resolve este caso em seu comentário à mishná. Registra-se essa ausência de halachá redigida específica com honestidade.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 7:16 (princípio relacionado sobre behemá comprada fora de Jerusalém)
וְכֵן אֵין לוֹקְחִין בְּהֵמָה בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר חוּץ לִירוּשָׁלַיִם. וְאִם לָקַח בְּשׁוֹגֵג יַחְזְרוּ הַדָּמִים לִמְקוֹמָן. בְּמֵזִיד תַּעֲלֶה וְתֵאָכֵל בִּירוּשָׁלַיִם. וְאִם אֵין מִקְדָּשׁ תִּקָּבֵר הִיא וְעוֹרָהּ.
"E do mesmo modo, não se compra um animal com dinheiro do dízimo fora de Jerusalém. E se comprou por engano, o dinheiro deve voltar ao seu lugar original; se de propósito, o animal deve subir e ser comido em Jerusalém; e se não há Templo em funcionamento, deve ser enterrado, ele e sua pele" (embora este princípio trate de um cenário distinto — a compra do animal fora de Jerusalém, e não sua morte ou contaminação —, o Rambam usa aqui a mesma expressão "ele e sua pele" que aparece nesta mishná, mostrando que o sepultamento do animal junto com seu couro, sem separação e aproveitamento da pele, é um princípio recorrente sempre que um animal comprado com dinheiro do dízimo se torna, por qualquer razão, imprestável para seu uso designado).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:11
תַּנָּא קַמָּא אוֹמֵר, אֵין פּוֹדִין אֶת הַקֳּדָשִׁים לְהַאֲכִילָן לַכְּלָבִים, וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, פּוֹדִין אֶת הַקֳּדָשִׁים לְהַאֲכִילָן לַכְּלָבִים... וּכְשֶׁנִּטְמָא אַחַר שְׁחִיטָתוֹ, יִפָּדֶה. וְרַבִּי יְהוּדָה לֹא חָלַק בָּהֶם, לְפִי שֶׁכְּשֶׁקָּנָהוּ חַי הָיָה דִּינוֹ וְדִין מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שָׁוֶה... וְרַבִּי יוֹסֵי מַחְמִיר יוֹתֵר מֵרַבִּי יְהוּדָה, וְאָמַר יִקָּבֵר, כֵּיוָן שֶׁהוּא לָקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר.

O primeiro tana diz que não se resgata coisas sagradas para dá-las de comer aos cães, e Rabi Shimon diz que se resgata coisas sagradas para dá-las de comer aos cães (o Rambam explica que a disputa sobre o veado morto reflete uma disputa mais ampla, conhecida de outros contextos, sobre se objetos consagrados que perderam sua utilidade podem ser resgatados para um uso degradado, como alimentar animais, ou se, uma vez impróprios, só resta o sepultamento — Rabi Shimon segue aqui sua posição mais permissiva sobre o resgate de coisas sagradas em geral)... E quando se contaminou depois de seu abate, deve ser resgatado. E Rabi Yehudá não discordou quanto a isso, pois, quando o comprou vivo, sua lei era igual à lei do próprio segundo dízimo (um animal vivo, comprado com dinheiro do dízimo, ainda mantém flexibilidade equivalente à do próprio dízimo, pois pode ser levado para qualquer lugar antes de ser abatido)... E Rabi Yossei é mais rigoroso que Rabi Yehudá, e diz que deve ser enterrado, já que foi comprado com dinheiro do dízimo (Rabi Yossei aplica, mesmo ao animal já abatido e contaminado, a mesma lógica rigorosa que Rabi Yehudá aplicava apenas aos frutos comprados com dinheiro do dízimo na mishná anterior).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:11
עַל יְדֵי עוֹרוֹ. עִם עוֹרוֹ.

"Junto com sua pele": com sua pele (o Bartenura esclarece que a expressão "al yedei oro" significa, simplesmente, "junto com sua pele" — enfatizando que o couro do animal, que normalmente teria valor comercial considerável e poderia ser separado e vendido, não pode ser aproveitado neste caso: todo o animal, pele incluída, deve ser sepultado como uma unidade, sem qualquer tentativa de extrair proveito econômico de suas partes).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.