Se havia frutos comuns em Jerusalém e dinheiro do dízimo na medina (fora de Jerusalém), diz-se: eis que aquele dinheiro está resgatado sobre estes frutos (mesmo estando em lugares diferentes, a declaração de câmbio é válida). Se havia dinheiro do dízimo em Jerusalém e frutos comuns na medina (a situação inversa), diz-se: eis que este dinheiro está resgatado sobre aqueles frutos, contanto que os frutos sejam trazidos e comidos em Jerusalém (essa condição adicional é necessária porque o dinheiro do dízimo já está dentro de Jerusalém, e por isso os frutos que recebem sua santidade precisam, obrigatoriamente, ser trazidos até lá para serem consumidos, já que não se pode "libertar" o dízimo de dentro da cidade sagrada sem trazer o substituto para dentro dela também).
Esta mishná esclarece um princípio estrutural do resgate do dízimo: ele não exige proximidade física entre o objeto sagrado e seu substituto, mas depende do destino final do produto resgatado — que deve sempre chegar a Jerusalém.
Por que a condição extra apenas na segunda situação? Note a assimetria: quando os frutos comuns estão em Jerusalém e o dinheiro na medina, a mishná não impõe condição alguma — basta a declaração. Mas quando o dinheiro do dízimo já está em Jerusalém e os frutos comuns estão na medina, é preciso, adicionalmente, que esses frutos sejam trazidos a Jerusalém e ali comidos. A explicação está num princípio já estabelecido em perakim anteriores: o segundo dízimo, uma vez dentro de Jerusalém, não pode mais ser resgatado ali dentro — só pode ser resgatado antes de entrar na cidade. Se o dinheiro do dízimo já está dentro de Jerusalém, ele já "chegou ao seu destino", por assim dizer; transferir sua santidade para frutos que ainda estão do lado de fora da cidade seria, na prática, "tirar" o dízimo de Jerusalém — um movimento na direção errada. Por isso a mishná exige, como condição explícita da declaração, que esses frutos "subam" a Jerusalém e sejam ali comidos, preservando o princípio de que o dízimo (agora encarnado nos frutos) deve permanecer, em sua consumação final, dentro da cidade sagrada.
O Rambam trata deste princípio em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 4, halachá 2, no contexto do câmbio (chilul) entre frutos do dízimo e outros frutos.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
"Medina" chama-se toda região da Terra de Israel exceto Jerusalém, e a intenção é que, quando os frutos ou o dinheiro estiverem fora de Jerusalém, é possível resgatá-los. Mas a mishná nos ensina que não é condição do resgate que os frutos e o dinheiro estejam no mesmo lugar (o Rambam destaca o ponto central da mishná: ao contrário do que se poderia supor, o câmbio não exige proximidade física entre o objeto sagrado e seu substituto — a declaração verbal, feita por quem tem autoridade sobre ambos, é suficiente para efetuar a transferência de santidade, mesmo estando os dois objetos em cidades diferentes).
"E dinheiro na medina": dinheiro do segundo dízimo fora de Jerusalém, do qual se precisa. E isto nos ensina que não é necessário que os frutos e o dinheiro estejam no mesmo lugar. E, além disso, a mishná nos ensina que, embora os frutos do dízimo não possam ser resgatados dentro de Jerusalém (uma vez ali dentro), o dinheiro do dízimo pode, sim, ser resgatado — isto é, trocado — dentro de Jerusalém (o Bartenura chama atenção para uma distinção sutil: a proibição de resgatar dentro da cidade se aplica aos frutos do próprio dízimo, que uma vez lá dentro devem ser comidos, não resgatados; mas o dinheiro do dízimo, mesmo estando dentro de Jerusalém, ainda pode ser objeto de câmbio — transferindo sua santidade para outro produto, desde que esse produto acabe sendo, ele também, consumido dentro da cidade).