Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Guimel · Mishná 4

"Frutos em Jerusalém e dinheiro na medina"

פֵּרוֹת בִּירוּשָׁלַיִם וּמָעוֹת בַּמְּדִינָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema da mishná anterior, esta ensina que o câmbio (chilul) entre dinheiro do dízimo e frutos comuns não exige que ambos estejam no mesmo lugar: pode-se resgatar dinheiro que está na medina (fora de Jerusalém) sobre frutos que estão em Jerusalém, e vice-versa — com uma condição importante: se o dinheiro do dízimo está em Jerusalém e os frutos comuns na medina, é preciso que esses frutos sejam efetivamente trazidos a Jerusalém e ali comidos, já que o dízimo em si não pode ser resgatado dentro da própria cidade sagrada, apenas fora dela

Se havia frutos comuns em Jerusalém e dinheiro do dízimo na medina (fora de Jerusalém), diz-se: eis que aquele dinheiro está resgatado sobre estes frutos (mesmo estando em lugares diferentes, a declaração de câmbio é válida). Se havia dinheiro do dízimo em Jerusalém e frutos comuns na medina (a situação inversa), diz-se: eis que este dinheiro está resgatado sobre aqueles frutos, contanto que os frutos sejam trazidos e comidos em Jerusalém (essa condição adicional é necessária porque o dinheiro do dízimo já está dentro de Jerusalém, e por isso os frutos que recebem sua santidade precisam, obrigatoriamente, ser trazidos até lá para serem consumidos, já que não se pode "libertar" o dízimo de dentro da cidade sagrada sem trazer o substituto para dentro dela também).

פֵּרוֹת בִּירוּשָׁלַיִם וּמָעוֹת בַּמְּדִינָה, אוֹמֵר, הֲרֵי הַמָּעוֹת הָהֵם מְחֻלָּלִין עַל פֵּרוֹת הָאֵלּוּ. מָעוֹת בִּירוּשָׁלַיִם וּפֵרוֹת בַּמְּדִינָה, אוֹמֵר הֲרֵי הַמָּעוֹת הָאֵלּוּ מְחֻלָּלִין עַל פֵּרוֹת הָהֵם, וּבִלְבַד שֶׁיָּעֳלוּ הַפֵּרוֹת וְיֵאָכְלוּ בִירוּשָׁלָיִם:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná esclarece um princípio estrutural do resgate do dízimo: ele não exige proximidade física entre o objeto sagrado e seu substituto, mas depende do destino final do produto resgatado — que deve sempre chegar a Jerusalém.

Devarim (Deuteronômio) 14:24-25
וְכִי יִרְבֶּה מִמְּךָ הַדֶּרֶךְ כִּי לֹא תוּכַל שְׂאֵתוֹ... וְנָתַתָּה בַכֶּסֶף, וְצַרְתָּ הַכֶּסֶף בְּיָדְךָ, וְהָלַכְתָּ אֶל הַמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר ה' אֱלֹהֶיךָ בּוֹ.
"E se o caminho for longo demais para ti, que não possas transportá-lo... converterás em dinheiro, e atarás o dinheiro em tua mão, e irás ao lugar que o Eterno, teu D-us, escolher" (Devarim 14:24-25) — a Torá prevê explicitamente que o produto do dízimo pode estar longe de Jerusalém e ser convertido em dinheiro para ser trazido até lá. Esta mishná estende o princípio: assim como o próprio fruto do dízimo pode ser resgatado à distância e o dinheiro correspondente levado a Jerusalém, também o câmbio entre dinheiro do dízimo e frutos comuns pode ocorrer sem que ambos estejam fisicamente juntos — desde que o resultado final do processo garanta que algo com a santidade do dízimo chegue a Jerusalém e seja ali consumido "diante do Eterno".

Por que a condição extra apenas na segunda situação? Note a assimetria: quando os frutos comuns estão em Jerusalém e o dinheiro na medina, a mishná não impõe condição alguma — basta a declaração. Mas quando o dinheiro do dízimo já está em Jerusalém e os frutos comuns estão na medina, é preciso, adicionalmente, que esses frutos sejam trazidos a Jerusalém e ali comidos. A explicação está num princípio já estabelecido em perakim anteriores: o segundo dízimo, uma vez dentro de Jerusalém, não pode mais ser resgatado ali dentro — só pode ser resgatado antes de entrar na cidade. Se o dinheiro do dízimo já está dentro de Jerusalém, ele já "chegou ao seu destino", por assim dizer; transferir sua santidade para frutos que ainda estão do lado de fora da cidade seria, na prática, "tirar" o dízimo de Jerusalém — um movimento na direção errada. Por isso a mishná exige, como condição explícita da declaração, que esses frutos "subam" a Jerusalém e sejam ali comidos, preservando o princípio de que o dízimo (agora encarnado nos frutos) deve permanecer, em sua consumação final, dentro da cidade sagrada.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam trata deste princípio em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 4, halachá 2, no contexto do câmbio (chilul) entre frutos do dízimo e outros frutos.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 4:2
וְכֵן אִם רָצָה לְחַלֵּל פֵּרוֹת הַמַּעֲשֵׂר עַל פֵּרוֹת אֲחֵרוֹת, יַעֲלוּ הַפֵּרוֹת הַשְּׁנִיּוֹת וְיֵאָכְלוּ בִּירוּשָׁלַיִם.
"E do mesmo modo, se quis resgatar frutos do dízimo sobre outros frutos, os segundos frutos devem subir e ser comidos em Jerusalém" (o Rambam generaliza o princípio para todo câmbio entre frutos do dízimo e frutos comuns, não apenas para o caso específico do dinheiro descrito nesta mishná: sempre que a santidade do dízimo se transfere para um novo objeto que ainda não está em Jerusalém, esse objeto precisa necessariamente ser trazido para lá e consumido ali, completando o ciclo que a Torá estabeleceu).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:4
מְדִינָה נִקְרָא כָּל מְדִינָה וּמְדִינָה מִמְּדִינַת אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל לְבַד מִירוּשָׁלַיִם, וְהַכַּוָּנָה כִּי כְּשֶׁיִּהְיוּ הַפֵּרוֹת אוֹ הַמָּעוֹת חוּץ לִירוּשָׁלַיִם אֶפְשָׁר לוֹ לְחַלְּלָם. אֲבָל הִשְׁמִיעָנוּ שֶׁאֵין מִתְּנָאֵי הַחִלּוּל שֶׁיִּהְיוּ נִמְצָאוֹת הַפֵּרוֹת וְהַמָּעוֹת בְּמָקוֹם אֶחָד.

"Medina" chama-se toda região da Terra de Israel exceto Jerusalém, e a intenção é que, quando os frutos ou o dinheiro estiverem fora de Jerusalém, é possível resgatá-los. Mas a mishná nos ensina que não é condição do resgate que os frutos e o dinheiro estejam no mesmo lugar (o Rambam destaca o ponto central da mishná: ao contrário do que se poderia supor, o câmbio não exige proximidade física entre o objeto sagrado e seu substituto — a declaração verbal, feita por quem tem autoridade sobre ambos, é suficiente para efetuar a transferência de santidade, mesmo estando os dois objetos em cidades diferentes).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:4
וּמָעוֹת בַּמְּדִינָה. וּמָעוֹת שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי חוּץ לִירוּשָׁלַיִם וְצָרִיךְ לָהֶן, וְקָא מַשְׁמַע לָן שֶׁאֵין צָרִיךְ שֶׁיִּהְיוּ הַפֵּרוֹת וְהַמָּעוֹת בְּמָקוֹם אֶחָד. וְעוֹד אַשְׁמוּעִינַן בְּמַתְנִיתִין דְּאַף עַל גַּב דְּפֵרוֹת מַעֲשֵׂר אֵין יְכוֹלִין לִפָּדוֹת בִּירוּשָׁלַיִם, מָעוֹת מַעֲשֵׂר מִתְחַלְּלִין הֵן בִּירוּשָׁלַיִם.

"E dinheiro na medina": dinheiro do segundo dízimo fora de Jerusalém, do qual se precisa. E isto nos ensina que não é necessário que os frutos e o dinheiro estejam no mesmo lugar. E, além disso, a mishná nos ensina que, embora os frutos do dízimo não possam ser resgatados dentro de Jerusalém (uma vez ali dentro), o dinheiro do dízimo pode, sim, ser resgatado — isto é, trocado — dentro de Jerusalém (o Bartenura chama atenção para uma distinção sutil: a proibição de resgatar dentro da cidade se aplica aos frutos do próprio dízimo, que uma vez lá dentro devem ser comidos, não resgatados; mas o dinheiro do dízimo, mesmo estando dentro de Jerusalém, ainda pode ser objeto de câmbio — transferindo sua santidade para outro produto, desde que esse produto acabe sendo, ele também, consumido dentro da cidade).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.