Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Dalet · Mishná 10

"Quem encontra um vaso com a palavra 'korban' escrita"

הַמּוֹצֵא כְלִי וְכָתוּב עָלָיו קָרְבָּן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema dos objetos encontrados com inscrições, esta mishná trata de um vaso rotulado "korban" (oferenda/consagrado). Rabi Yehudá distingue pelo material do vaso: se de barro, o vaso continua comum e apenas o conteúdo é consagrado; se de metal, o vaso em si já é consagrado, e o conteúdo é comum. Os sábios discordam apenas quanto ao vaso de metal, com base num argumento de costume social

Quem encontra um vaso com a palavra "korban" escrita nele — Rabi Yehudá diz: se era de barro, o vaso é comum, e o que está dentro dele é korban; e se era de metal, o vaso é korban, e o que está dentro dele é comum (a lógica de Rabi Yehudá é que a inscrição indica que o conteúdo do vaso foi consagrado, mas o vaso em si só é consagrado quando tem valor suficiente para isso: um vaso de barro, de pouco valor, dificilmente seria consagrado por alguém, mas um vaso de metal, mais valioso, poderia perfeitamente ser o próprio objeto consagrado). Disseram-lhe: não é costume das pessoas guardar dinheiro comum dentro de um vaso consagrado (os sábios discordam da distinção de Rabi Yehudá quanto ao vaso de metal — argumentando que, uma vez que o próprio vaso de metal é consagrado, seria estranho e incomum que alguém colocasse dentro dele dinheiro comum; a suposição mais razoável é que, se o vaso é consagrado, seu conteúdo também o é).

הַמּוֹצֵא כְלִי וְכָתוּב עָלָיו קָרְבָּן, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם הָיָה שֶׁל חֶרֶס, הוּא חֻלִּין וּמַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ קָרְבָּן. וְאִם הָיָה שֶׁל מַתֶּכֶת, הוּא קָרְבָּן וּמַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ חֻלִּין. אָמְרוּ לוֹ, אֵין דֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לִהְיוֹת כּוֹנְסִין חֻלִּין לְקָרְבָּן:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná trata tecnicamente de "korban" (oferendas consagradas ao Templo), e não do segundo dízimo propriamente dito; sua inclusão neste perek se justifica pela continuidade temática dos objetos encontrados com inscrições que indicam algum tipo de santidade.

Vaicrá (Levítico) 27:9
וְאִם בְּהֵמָה אֲשֶׁר יַקְרִיבוּ מִמֶּנָּה קָרְבָּן לַה', כֹּל אֲשֶׁר יִתֵּן מִמֶּנּוּ לַה' יִהְיֶה קֹּדֶשׁ.
"E se for animal do qual se oferece oferenda ao Eterno, tudo o que der dele ao Eterno será santo" (Vaicrá 27:9) — este princípio de consagração, embora tratado originalmente para animais, é estendido pela tradição oral a qualquer objeto ou dinheiro que uma pessoa declare formalmente como "korban" — destinado ao Templo. A dúvida da mishná surge porque a palavra "korban", encontrada escrita num vaso, pode se referir tanto ao conteúdo do vaso (o que foi consagrado e ali guardado) quanto ao próprio vaso (que, sendo ele mesmo de valor suficiente, poderia ter sido o objeto diretamente consagrado). A distinção de Rabi Yehudá pelo material do vaso tenta resolver essa ambiguidade com base no valor relativo — e portanto na probabilidade de consagração — de cada tipo de vaso.

Por que a mishná trata de "korban" dentro de um tratado sobre o segundo dízimo? Embora korban (oferenda ao Templo) seja tecnicamente uma categoria de santidade distinta do segundo dízimo, os dois compartilham uma característica jurídica importante em comum: ambos são "dinheiro do Alto" (mamon gavoah), pertencente não a um indivíduo, mas a uma esfera sagrada superior, com regras específicas sobre como podem ser identificados, usados e resgatados. A mishná anterior já havia introduzido o tema de identificar dinheiro sagrado por meio de inscrições em cacos de barro; esta mishná generaliza a discussão para vasos inteiros e para a categoria mais ampla de korban, preparando o terreno para a mishná seguinte, que retorna especificamente ao caso das abreviações usadas para identificar produtos de status duvidoso, incluindo o próprio dízimo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 6, halachá 8, na sequência de sua discussão sobre objetos encontrados com inscrições indicando seu status de santidade.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 6:8
"Quando alguém encontra um recipiente com a letra mem escrita nele, seu conteúdo é considerado o segundo dízimo (pois o mem representa 'maasser', dízimo)... Se o recipiente era de metal, tanto o recipiente quanto seu conteúdo são consagrados (pois o recipiente de metal tem valor próprio, e presumimos que também ele foi consagrado; já um recipiente de barro não tem valor suficiente para ser consagrado), pois em tempos de perigo (a era da perseguição romana, quando os romanos tentavam suprimir a observância das mitzvot e os judeus temiam escrever a palavra completa), era costume escrever apenas uma letra do nome como sinal."

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 4:10
כְּלִי הַחֶרֶס דְּמֵי מַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ יוֹתֵר מִדְּמֵי הַכְּלִי, וְהוּא אֵצֶל בְּנֵי אָדָם גָּרוּעַ כָּל כָּךְ שֶׁאֵין מַקְדִּישׁ אוֹתָם שׁוּם אָדָם לְבֶדֶק הַבַּיִת... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

O valor do que está dentro de um vaso de barro é maior do que o valor do próprio vaso, e ele é tão desprezado entre as pessoas que ninguém o consagra para a manutenção do Templo (o Rambam explica a base econômica do raciocínio de Rabi Yehudá: um vaso de barro é intrinsecamente barato demais para ser consagrado por si só, então a inscrição "korban" só pode se referir ao seu conteúdo)... E a lei não segue Rabi Yehudá (o Rambam confirma que, na disputa sobre o vaso de metal, prevalece a opinião dos sábios — que o vaso de metal e seu conteúdo são ambos consagrados —, mas concorda com Rabi Yehudá quanto ao vaso de barro, onde não há disputa).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 4:10
הוּא חֻלִּין. שֶׁאֵין דֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לְהַקְדִּישׁ חֲרָסִין לְבֶדֶק הַבַּיִת, וְעַל שֵׁם מַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ נִכְתָּב. הוּא קָרְבָּן. כְּלוֹמַר הֶקְדֵּשׁ. חֻלִּין לְתוֹךְ קָרְבָּן. וְהַכֹּל קָרְבָּן. וְלֹא אִפְלִיגוּ רַבָּנָן עֲלֵיהּ דְּרַבִּי יְהוּדָה אֶלָּא בְשֶׁל מַתֶּכֶת בִּלְבָד... וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

"É comum": pois não é costume das pessoas consagrarem objetos de barro para a manutenção do Templo, e a inscrição se refere ao que está dentro. "É korban": isto é, consagrado. "Comum dentro de korban": e tudo seria korban (este é o argumento dos sábios contra Rabi Yehudá — não é razoável supor que alguém guardasse dinheiro comum dentro de um vaso já consagrado, portanto tudo dentro de um vaso de metal consagrado deve ser igualmente consagrado). E os sábios só discordaram de Rabi Yehudá quanto ao vaso de metal, pois quanto ao de barro concordam que ele é comum e o que está dentro é korban. E a lei segue os sábios.

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Depois da regra geral sobre dinheiro encontrado (mishná 9), esta mishná trata do caso específico do vaso rotulado "korban", com a disputa entre Rabi Yehudá e os sábios sobre o vaso de metal (mishná 10).