Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Heh · Mishná 2

"O vinhedo de quarto ano subia a Jerusalém"

כֶּרֶם רְבָעִי הָיָה עוֹלֶה לִירוּשָׁלַיִם מַהֲלַךְ יוֹם אֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de estabelecer os sinais de identificação do vinhedo de quarto ano, a mishná passa à regra original sobre a obrigação de subir os próprios frutos a Jerusalém — e não apenas seu valor resgatado — dentro de certa distância da cidade, com o objetivo declarado de "adornar os mercados de Jerusalém com frutos"; e como essa regra foi ajustada ao longo do tempo, primeiro pelo aumento da produção, depois pela destruição do Templo

O vinhedo de quarto ano subia a Jerusalém (seus frutos, e não apenas o dinheiro do resgate, deviam ser fisicamente levados à cidade e ali consumidos, dentro de certo raio) a uma distância de um dia de caminho para cada lado (de Jerusalém). E qual é o seu limite? Eilat ao sul, Acrabat ao norte, Lod a oeste, e o Jordão a leste (quatro pontos geográficos que demarcam aproximadamente um dia de viagem a pé em cada direção a partir de Jerusalém, formando o perímetro dentro do qual os frutos de vinhedo de quarto ano tinham de subir fisicamente à cidade). E quando os frutos se multiplicaram (a produção de vinhedos de quarto ano cresceu além do que os mercados de Jerusalém conseguiam absorver e adornar adequadamente), decretaram que se resgatasse junto ao muro (da cidade — isto é, permitiu-se o resgate por dinheiro já nas proximidades de Jerusalém, sem a necessidade de transportar fisicamente os próprios frutos para dentro da cidade, aliviando o volume excessivo que sobrecarregava os mercados). E havia uma condição nisso: que, quando quisessem, voltaria a ser como antes (o decreto de permitir o resgate junto ao muro não era definitivo, mas condicional — reservava-se o direito de os sábios revogá-lo e restaurar a obrigação original de subir os frutos fisicamente, caso a situação de excesso de produção se revertesse). Disse Rabi Yossei: depois da destruição do Templo, essa condição voltou a valer (isto é, a permissão de resgatar junto ao muro deixou de se justificar pela razão original — o excesso de produção —, mas passou a se justificar por uma nova razão: a própria impossibilidade prática de subir os frutos a uma Jerusalém destruída e sob domínio estrangeiro).

כֶּרֶם רְבָעִי הָיָה עוֹלֶה לִירוּשָׁלַיִם מַהֲלַךְ יוֹם אֶחָד לְכָל צָד. וְאֵיזוֹ הִיא תְחוּמָהּ, אֵילַת מִן הַדָּרוֹם וְעַקְרַבַּת מִן הַצָּפוֹן, לוֹד מִן הַמַּעֲרָב וְהַיַּרְדֵּן מִן הַמִּזְרָח. וּמִשֶּׁרַבּוּ הַפֵּרוֹת, הִתְקִינוּ שֶׁיְּהֵא נִפְדֶּה סָמוּךְ לַחוֹמָה. וּתְנַאי הָיָה הַדָּבָר, שֶׁאֵימָתַי שֶׁיִּרְצוּ, יַחֲזֹר הַדָּבָר לְכִמְקֹדָם. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, מִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, הָיָה הַתְּנַאי הַזֶּה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná continua o tema aberto na anterior, aprofundando o mecanismo específico pelo qual os frutos de vinhedo de quarto ano — sagrados por comparação direta ao segundo dízimo — chegavam a Jerusalém para serem consumidos.

Vaicrá (Levítico) 19:24
וּבַשָּׁנָה הָרְבִיעִת יִהְיֶה כָּל פִּרְיוֹ קֹדֶשׁ הִלּוּלִים לַה'.
"E no quarto ano, todo o seu fruto será sagrado, louvores ao Eterno" (Vaicrá 19:24) — a expressão "hilulim laHashem" (louvores ao Eterno) é entendida pelos sábios não apenas como uma descrição do caráter sagrado do fruto, mas como fundamento da própria prática de celebrar publicamente esses frutos em Jerusalém, "louvando e celebrando o Nome com eles" (Talmud Yerushalmi, Maaser Sheni 5:2). Por isso a mishná institui uma regra geograficamente específica — a distância de um dia de caminho, delimitada por quatro cidades — que garantia que uma quantidade suficiente e constante de frutos de quarto ano chegasse fisicamente aos mercados da cidade sagrada, cumprindo o propósito declarado de "adornar os mercados de Jerusalém com frutos" (Mishná, Maaser Sheni 5:2, conforme explicado pelos comentadores).

Por que a regra foi ajustada duas vezes, por razões tão diferentes? A mishná narra, com precisão histórica incomum, duas mudanças sucessivas na mesma lei, cada uma com lógica própria. A primeira mudança — permitir o resgate junto ao muro da cidade, sem subir fisicamente os frutos — ocorreu ainda com o Templo em pé, motivada pelo próprio sucesso do propósito original: quando os vinhedos de quarto ano se multiplicaram, o volume de frutos que precisava subir fisicamente tornou-se impraticável de administrar, e o objetivo de "adornar os mercados" já estava sendo cumprido mesmo sem exigir o transporte físico de toda essa quantidade. Por isso a mudança veio com uma condição explícita de reversibilidade: a razão prática (excesso de volume) poderia, em princípio, desaparecer, e a lei então voltaria ao normal. A segunda mudança — relatada por Rabi Yossei, após a destruição do Templo — não decorre mais do excesso de frutos, mas da ausência completa de um Templo e de mercados a adornar: a "condição de reversibilidade" original, que fora criada para lidar com prosperidade, passou paradoxalmente a servir como fundamento para lidar com a catástrofe, mantendo o mesmo resultado prático (resgate sem necessidade de subir os frutos) por uma razão inteiramente oposta.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica o princípio central desta mishná em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 9, halachá 5, embora sem repetir o detalhamento geográfico exato dos quatro pontos cardeais, por já não ter aplicação prática em sua época.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 9:5
עֲנָבִים שֶׁל כֶּרֶם רְבָעִי הִתְקִינוּ בֵּית דִּין שֶׁיִּהְיוּ עוֹלִין לִירוּשָׁלַיִם מַהֲלַךְ יוֹם לְכָל צַד, כְּדֵי לְעַטֵּר שׁוּקֵי יְרוּשָׁלַיִם בְּפֵרוֹת. וּמִשֶּׁרַבּוּ הַפֵּרוֹת הִתְקִינוּ שֶׁיְּהֵא נִפְדֶּה סָמוּךְ לַחוֹמָה.
"As uvas de vinhedo de quarto ano, o tribunal decretou que subissem a Jerusalém dentro de um dia de caminho para cada lado, a fim de adornar os mercados de Jerusalém com frutos. E, quando os frutos se multiplicaram, decretaram que se resgatasse junto ao muro" (o Rambam registra as duas fases da regra — a obrigação original de subida física, motivada pelo propósito de adornar a cidade, e o ajuste posterior diante do excesso de produção —, confirmando a leitura direta da mishná como norma efetivamente vigente enquanto o Templo estava de pé).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 5:2
מַה שֶּׁנִּתְחַיֵּב לְהַעֲלוֹת מִכֶּרֶם רְבָעִי לִירוּשָׁלַיִם, הוּא מַה שֶּׁהוּא קָרוֹב לִירוּשָׁלַיִם מַהֲלַךְ יוֹם אוֹ פָּחוֹת, כְּדֵי לְעַטֵּר שׁוּקֵי יְרוּשָׁלַיִם בְּפֵרוֹת, כְּמוֹ שֶׁאָמְרוּ חֲכָמִים. וְכַאֲשֶׁר רַבּוּ הַפֵּרוֹת בִּירוּשָׁלַיִם, הִתְקִינוּ שֶׁיּוּכְלוּ לִפְדּוֹתוֹ אֲפִלּוּ סָמוּךְ לַחוֹמָה, וְהִתְנוּ בְּעִקַּר זוֹ הַתַּקָּנָה שֶׁלֹּא תִהְיֶה עוֹלָמִית, אֶלָּא אֵימָתַי שֶׁיִּרְצוּ שֶׁיַּחֲזֹר הַדָּבָר לִכְמוּתוֹ שֶׁהָיָה, מִפְּנֵי שֶׁנָּחוּשׁ שֶׁמָּא יִמְעֲטוּ הַפֵּרוֹת וְנִצְטָרֵךְ לְהַעֲלוֹתָן. וְאָמַר רַבִּי יוֹסֵי, כִּי אַחַר הַחֻרְבָּן הָיָה זֶה הַתְּנַאי, וּלְאַחַר חֻרְבַּן הַבַּיִת וִהְיוֹתוֹ בְּיַד הָאוֹיְבִים, לֹא נָחוּשׁ וְלֹא נַקְפִּיד עַל הַפֵּרוֹת בֵּין רַב לְמֻעָט; וּמִכָּל מָקוֹם לֹא נַצְרִיךְ הַיּוֹם שֶׁיַּעֲלֶה לִירוּשָׁלַיִם, בֵּין שֶׁהָיְתָה זוֹ הַתַּקָּנָה כְּשֶׁיִּהְיוּ פֵּרוֹת מְרֻבּוֹת קֹדֶם הַחֻרְבָּן, אוֹ שֶׁהָיְתָה אַחַר הַחֻרְבָּן.

Aquilo que se tornou obrigatório subir do vinhedo de quarto ano a Jerusalém é o que está próximo a Jerusalém, a um dia de caminho ou menos, para adornar os mercados de Jerusalém com frutos, como disseram os sábios. E quando os frutos se multiplicaram em Jerusalém, decretaram que pudessem resgatá-lo mesmo junto ao muro, e condicionaram esse decreto a não ser perpétuo, mas que, quando quisessem, a situação voltaria a ser como era — porque temiam que os frutos diminuíssem e se tornasse necessário voltar a subi-los (o Rambam explica a lógica precavida por trás da cláusula de reversibilidade: os sábios não queriam que uma solução criada para lidar com abundância se tornasse permanente a ponto de impedir, no futuro, o retorno à prática original caso as circunstâncias mudassem). E disse Rabi Yossei: que depois da destruição essa foi a condição — e depois da destruição do Templo, estando ele em mãos dos inimigos, não nos preocupamos nem nos importamos com os frutos, sejam muitos ou poucos; e, de todo modo, hoje não exigimos que se suba a Jerusalém, seja porque esse decreto existia quando os frutos eram abundantes antes da destruição, seja porque passou a existir depois da destruição (o Rambam esclarece que, na prática, o resultado final é o mesmo — não se exige mais subir os frutos fisicamente —, mas explica que a razão de Rabi Yossei mistura as duas causas históricas em uma só conclusão prática válida para todos os tempos posteriores à destruição).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Esta segunda mishná do quinto perek detalha o mecanismo original da subida física dos frutos de vinhedo de quarto ano a Jerusalém, dentro de um raio de um dia de caminho, e as duas fases históricas de ajuste dessa regra — mishná 2.