Seder Zeraim · Massechet Maasrot · Perek Alef · Mishná 2

"A partir de quando as frutas se obrigam aos dízimos"

מֵאֵימָתַי הַפֵּרוֹת חַיָּבוֹת בַּמַּעַשְׂרוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Aplicando o segundo princípio da mishná anterior, esta mishná lista o sinal específico de maturação que marca, para cada tipo de fruta de árvore, o momento em que ela se torna alimento e passa a se obrigar ao dízimo

A partir de quando as frutas se obrigam aos dízimos? Os figos, desde que começam a amadurecer (bochal, quando iniciam seu processo de maturação e se tornam próprios ao consumo). As uvas e as uvas silvestres (abushim, um tipo inferior de uva), desde que apodrecem (hivíshu, quando amolecem tanto que as sementes internas ficam visíveis por fora). O sumagre e as amoras, desde que avermelham; e todos os frutos vermelhos, desde que avermelham (referindo-se a todo fruto cuja natureza é tornar-se vermelho quando maduro). As romãs, desde que derretem (quando a polpa amolece o suficiente para que, ao apertar entre os dedos, escorra líquido). As tâmaras, desde que fermentam (quando a casca se racha como pão fermentado). Os pêssegos, desde que criam veias (veias avermelhadas visíveis sob a casca). As nozes, desde que fazem celeiro (quando o miolo se separa da casca externa, como se estivesse guardado em um celeiro). Rabi Yehudá diz: as nozes e as amêndoas, desde que fazem casca (referindo-se à casca interna, que só se forma ao final da maturação completa — opinião minoritária que a halachá não segue).

מֵאֵימָתַי הַפֵּרוֹת חַיָּבוֹת בַּמַּעַשְׂרוֹת. הַתְּאֵנִים, מִשֶּׁיַּבְחִילוּ. הָעֲנָבִים וְהָאֳבָשִׁים, מִשֶּׁהִבְאִישׁוּ. הָאוֹג וְהַתּוּתִים, מִשֶּׁיַּאְדִּימוּ. וְכָל הָאֲדֻמִּים, מִשֶּׁיַּאְדִּימוּ. הָרִמּוֹנִים, מִשֶּׁיִּמַּסּוּ. הַתְּמָרִים, מִשֶּׁיָּטִּילוּ שְׂאֹר. הָאֲפַרְסְקִים, מִשֶּׁיָּטִּילוּ גִידִים. הָאֱגוֹזִים, מִשֶּׁיַּעֲשׂוּ מְגוּרָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הָאֱגוֹזִים וְהַשְּׁקֵדִים, מִשֶּׁיַּעֲשׂוּ קְלִפָּה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná desenvolve, fruto por fruto, o princípio já estabelecido em 1:1 sobre o momento em que os frutos de árvore se tornam alimento e se obrigam ao dízimo.

Vayikrá (Levítico) 27:30
וְכָל מַעְשַׂר הָאָרֶץ מִזֶּרַע הָאָרֶץ מִפְּרִי הָעֵץ, לַה׳ הוּא, קֹדֶשׁ לַה׳.
"E todo dízimo da terra, da semente da terra, do fruto da árvore, pertence ao Eterno; é sagrado ao Eterno" (Vayikrá 27:30) — como já explicado em 1:1, a expressão "do fruto da árvore" ensina que os frutos só se obrigam ao dízimo quando efetivamente se tornam "fruto" — isto é, quando amadurecem o suficiente para serem considerados alimento. Esta mishná especifica, para cada espécie, o sinal físico exato que marca esse limiar.

Por que a Torá não fixa um único sinal para todas as frutas, mas exige um critério específico para cada uma? Porque o critério bíblico é substantivo, não formal: o que importa é que o fruto "se torne fruto" — isto é, que atinja o ponto em que é razoavelmente comestível e desejável como alimento. Como cada espécie amadurece de forma fisicamente distinta — o figo muda de cor e textura, a uva incha até quase estourar, a romã amolece por dentro, a tâmara racha como pão fermentando, o pêssego desenvolve veias vermelhas, a noz separa seu miolo da casca —, os sábios precisaram traduzir esse critério geral em sinais observáveis e práticos para cada fruto, permitindo que o agricultor e o mercado soubessem com precisão quando cessa a permissão de comer livremente (akhilat ar'ai) e começa a obrigação do dízimo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam reúne os sinais de maturação de cada fruto — a "onat hamaasrot", o tempo dos dízimos — em Hilchot Maasser.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 2:5
אֵי זוֹ הִיא עוֹנַת הַמַּעַשְׂרוֹת. מִשֶּׁיַּגִּיעוּ הַפֵּרוֹת לְהַזְרִיעַ וְלִצְמֹחַ הַכּל לְפִי מַה שֶּׁהוּא הַפְּרִי. כֵּיצַד. הַתְּאֵנִים מִשֶּׁיֵּעָשׂוּ רַכִּים... הָעֲנָבִים וְהַבְּאוּשִׁים... מִשֶּׁיֵּרָאֶה הַחַרְצָן שֶׁלָּהֶם מִבַּחוּץ. הָרִמּוֹנִים מִשֶּׁיִּמַּס הַפֶּרַח שֶׁלָּהֶן בֵּין הָאֶצְבָּעוֹת וְיֵצֵא מִמֶּנּוּ מַיִם. הַתְּמָרִים מִשֶּׁיִּפָּתְחוּ כִּשְׂאוֹר. הָאֲפַרְסֵקִין מִשֶּׁיַּטִּילוּ גִּידִים אֲדֻמִּים. הָאֱגוֹזִים מִשֶּׁיִּתְפָּרֵשׁ הָאֹכֶל מֵהַקְּלִפָּה הַחִיצוֹנָה.
"Qual é o 'tempo dos dízimos'? Desde que os frutos chegam ao ponto de germinar e brotar, cada um conforme sua espécie. Como assim? Os figos, desde que se tornam macios [...]. As uvas e as uvas de má qualidade [...] desde que se veem suas sementes por fora. As romãs, desde que sua polpa se derrete entre os dedos e sai dela água. As tâmaras, desde que se abrem como massa fermentada. Os pêssegos, desde que lançam veias vermelhas. As nozes, desde que o alimento se separa da casca externa" (o Rambam segue de perto a linguagem da mishná, reorganizando os sinais em uma lista sistemática que cobre, ao longo da halachá completa, todas as frutas mencionadas neste e nos próximos perakim da Mishná).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 1:2
כבר ביארנו שפירות האילן אינן חייבות במעשר עד שיעשו פרי ולפיכך אמר התאנים משיבחילו פי' משיתחילו להתבשל וזמן זה הבשול הוא שמלקטים את התאנה מן האילן ומניחין עשרים וארבעה שעות ותהיה ראויה לאכילה: ובוחל. הוא בלשון חכמים הפרי המבושל: ואבשים. כמו באושים וזה מין ממיני הענבים אלא שהוא מין גרוע אמר הכתוב (ישעיהו ה) ויקו לעשות ענבים ויעש באושים כך פירשו גדול מגדולי הגמרא וענין שהבאישו שיתרככו ויזדככו כל כך זגי הענבים עד שיראו הגרעיני' מבחוץ לרוב המים שבתוכה: משיטילו שאור. פירוש משיתרפאו ויתנפחו כלחם החמץ כי זה הוא מנהג התמרים בעת הבשול: האפרסקין משיטילו גידים. ענינו כי האפרסקין כשיתחילו להתבשל נמשכין בהם כמו חוטין או גידין אדומים: משיעשו מגורה. ענינו משיבדל האוכל מן הקליפה החיצונה ויהיה האוכל כאילו הוא במגורה והוא האוצר ואמר רבי יהודה משיעשו קליפה ר"ל הקליפה הפנימית שהיא דבוקה לאוכל כי זו אינה מובדלת אלא אחר גמר בשולם ואין הלכה כר' יהודה:

Já explicamos que os frutos de árvore não se obrigam ao dízimo até que se tornem fruto. Por isso disse "os figos, desde que começam a amadurecer" (bochal) — isto é, desde que começam a cozer-se (amadurecer internamente). E esse tempo de maturação é quando se colhe o figo da árvore e se deixa vinte e quatro horas, e então se torna próprio para consumo. "Bochal" na linguagem dos sábios é o fruto que já amadureceu.

"Abushim": como baushim, um tipo de uva, mas de espécie inferior — como está escrito (Yeshaiahu 5): "e esperou que produzisse uvas, e produziu uvas ruins (baushim)", assim explicou um dos grandes da Guemará. E o significado de "hivíshu" é que amoleceram e se clarificaram tanto as peles das uvas que se veem as sementes por fora, pela abundância da água em seu interior.

"Desde que fermentam": isto é, desde que se abrem e incham como pão fermentado, pois este é o costume das tâmaras no tempo de sua maturação. "Os pêssegos, desde que criam veias": significa que os pêssegos, quando começam a amadurecer, formam neles algo como fios ou veias avermelhadas.

"Desde que fazem celeiro": significa desde que o alimento se separa da casca externa, e o alimento fica como se estivesse guardado em um celeiro (megurá), que é o depósito. E Rabi Yehudá diz "desde que fazem casca" — refere-se à casca interna, que está colada ao alimento, pois esta só se separa após o término completo da maturação (um estágio posterior e mais exigente que o dos sábios anônimos). E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 1:2
מֵאֵימָתַי הַפֵּרוֹת חַיָּבִים בַּמַּעַשְׂרוֹת. דִּתְחִלָּתָן אֵינוֹ אֹכֶל, וְצָרִיךְ לִתֵּן שִׁעוּר לְכָל פְּרִי וּפְרִי מֵאֵימָתַי יַגִּיעַ זְמַנּוֹ לִהְיוֹת רָאוּי לַאֲכִילָה: מִשֶּׁיַּבְחִילוּ. תְּחִלַּת בִּשּׁוּלָם קָרוּי בֹּחַל, וְדֻּגְמָא לָזוֹ תְּחִלַּת יְמֵי הַנְּעוּרִים בְּאִשָּׁה קָרוּי בֹּחַל. וּמְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא מִשֶּׁיַּלְבִּין רָאשֵׁיהֶם זֶהוּ הַתְחָלַת בִּשּׁוּלָם: הָאֳבָשִׁים. מִין מִמִּינֵי הָעֲנָבִים הָרָעִים כְּמוֹ וַיַּעַשׂ בְּאֻשִׁים (ישעיה ה): מִשֶּׁהִבְאִישׁוּ. שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ כָּל כָּךְ עַד שֶׁהַחַרְצַנִּים שֶׁבִּפְנִים נִרְאִים מִבַּחוּץ מִתּוֹךְ הַקְּלִפָּה: וְהָאוֹג. אִילָן שֶׁפֵּרוֹתָיו אֲדֻמִּים, וְקוֹרִין לוֹ בְּלַעַ"ז קורניאול"י: מִשֶּׁיִּמַּסּוּ. מִשֶּׁיִּתְמַעֵךְ הָאֹכֶל מִתַּחַת יָדוֹ. וְאִם הִגִּיעָה אֲפִלּוּ פְּרֵדָה אַחַת שֶׁל רִמּוֹן לְשִׁעוּר זֶה כָּל הָרִמּוֹן חַיָּב בַּמַּעַשְׂרוֹת: מִשֶּׁיָּטִּילוּ שְׂאֹר. מִשֶּׁיִּפָּתְחוּ כִּשְׂאֹר שֶׁיֵּשׁ בּוֹ סְדָקִים: מִשֶּׁיַּעֲשׂוּ מְגוּרָה. מִשֶּׁיִּבָּדֵל הָאֹכֶל מִן הַקְּלִפָּה הַחִיצוֹנָה וְיִהְיֶה הָאֹכֶל כְּאִלּוּ מֻנָּח בִּמְגוּרָה דְּהַיְנוּ אוֹצָר: מִשֶּׁיַּעֲשׂוּ קְלִפָּה. הַקְּלִפָּה הַתַּחְתּוֹנָה הַסְּמוּכָה לָאֹכֶל, וְאֵינָהּ נַעֲשֵׂית אֶלָּא אַחַר גְּמַר בִּשּׁוּל הַפְּרִי. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

"A partir de quando as frutas se obrigam aos dízimos": pois seu início não é alimento, e é necessário dar uma medida para cada fruto — desde quando chega seu tempo de ser próprio para consumo. "Desde que começam a amadurecer" (bochal): o início de sua maturação chama-se bochal, e um exemplo semelhante é o início dos dias de juventude em uma mulher, também chamado bochal. E explica-se na Guemará: "desde que suas pontas embranquecem" — este é o início de sua maturação.

"Abushim": um tipo entre os tipos de uvas ruins, como "e produziu uvas ruins (be'ushim)" (Yeshaiahu 5). "Desde que apodrecem": que amadureceram tanto que as sementes internas se veem por fora, através da casca. "E o og": árvore cujos frutos são vermelhos, chamada em língua estrangeira corniola.

"Desde que derretem": desde que o alimento se esmaga sob a mão. E se mesmo uma única semente de romã atingiu essa medida, toda a romã se obriga ao dízimo. "Desde que fermentam": desde que se abrem como massa fermentada que tem rachaduras.

"Desde que fazem celeiro": desde que o alimento se separa da casca externa, e o alimento fica como se estivesse guardado em um celeiro (megurá), isto é, um depósito. "Desde que fazem casca": a casca inferior, próxima ao alimento, que só se forma após o término completo da maturação do fruto. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.