Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Alef · Mishná 11 de 11 — última do perek

Shilo e Jerusalém: a santidade que tem e a que não tem revogação

אֵין בֵּין שִׁילֹה לִירוּשָׁלַיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do Perek Alef fecha a série de comparações halachicas com a diferença entre a santidade do Tabernáculo em Shilo e a santidade de Jerusalém — a mais fundamental de todas, pois uma se revoga e a outra permanece para sempre.

Não há entre Shilo e Jerusalém senão que em Shilo se comem as consagrações leves e o segundo dízimo em todo lugar de onde se pode avistá-la, e em Jerusalém dentro dos muros.Enquanto o Tabernáculo esteve erguido em Shilo, as ofertas de santidade leve e o segundo dízimo podiam ser consumidos em qualquer ponto de onde se avistasse o local; já em Jerusalém, essas mesmas categorias só podem ser consumidas dentro dos muros da cidade, um espaço bem mais restrito.

E aqui e ali as consagrações de santidade máxima são comidas dentro das cortinas.Quanto às ofertas de santidade máxima, porém, tanto em Shilo quanto em Jerusalém a regra é a mesma: elas só podem ser consumidas dentro do próprio recinto sagrado, dentro das cortinas que cercam o altar — não há diferença nesse ponto entre os dois locais.

A santidade de Shilo tem revogação depois de si, e a santidade de Jerusalém não tem revogação depois de si.Quando o Tabernáculo em Shilo foi destruído, sua santidade se extinguiu e voltou a ser permitido oferecer em altares particulares; mas quando Jerusalém foi santificada pelo rei Shlomo, essa santidade permanece válida para sempre, mesmo depois da destruição do Templo — nunca mais voltou a ser permitido oferecer fora dela.

אֵין בֵּין שִׁילֹה לִירוּשָׁלַיִם אֶלָּא שֶׁבְּשִׁילֹה אוֹכְלִים קָדָשִׁים קַלִּים וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי בְּכָל הָרוֹאֶה, וּבִירוּשָׁלַיִם לִפְנִים מִן הַחוֹמָה. וְכָאן וְכָאן קָדְשֵׁי קָדָשִׁים נֶאֱכָלִים לִפְנִים מִן הַקְּלָעִים. קְדֻשַּׁת שִׁילֹה יֵשׁ אַחֲרֶיהָ הֶתֵּר, וּקְדֻשַּׁת יְרוּשָׁלַיִם אֵין אַחֲרֶיהָ הֶתֵּר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 12:9
כִּי לֹא־בָאתֶם עַד־עַתָּה אֶל־הַמְּנוּחָה וְאֶל־הַנַּחֲלָה אֲשֶׁר ה׳ אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לָךְ
Pois não chegastes ainda até agora ao repouso e à herança que o Eterno teu Deus te dá.

A tradição distingue neste versículo dois lugares: "o repouso" é Shilo, onde Israel repousou da conquista da terra, e "a herança" é Jerusalém — e a própria Torá, ao separar os dois termos num único versículo, ensina que há distinção entre a permissão que sucede um e a que sucede o outro. Assim, quando a santidade de Shilo se extinguiu com sua destruição, redistribuiu-se novamente a permissão de oferecer em altares particulares — sinal de que aquela santidade não era definitiva; mas a partir do momento em que o rei Shlomo escolheu e santificou Jerusalém como "a herança", nenhum outro local jamais recebeu permissão equivalente, mesmo após a destruição do Templo — a proibição de oferecer fora de Jerusalém permanece válida até hoje.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o sentido de "em todo lugar de onde se pode avistá-la" e remete ao tratado Zevachim para as provas completas da diferença entre as duas santidades.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 1:11
בְּכָל הָרוֹאֶה, רְצוֹנוֹ לוֹמַר שֶׁהָיוּ אוֹכְלִין בְּכָל מָקוֹם שֶׁהָיָה יָכוֹל לִרְאוֹת אֶת שִׁילֹה. וְאָמַר יֵשׁ אַחֲרֶיהָ הֶתֵּר, רוֹצֶה לוֹמַר כִּי אַחַר שֶׁחָרַב שִׁילֹה הִתִּיר לָנוּ הַקְרָבָה בַּבָּמוֹת.
"Em todo lugar de onde se pode avistá-la": quer dizer que comiam em todo lugar de onde se podia avistar Shilo. E ao dizer "tem revogação depois de si", quer dizer que, depois que Shilo foi destruída, foi novamente permitido oferecer em altares particulares. E, uma vez que Deus escolheu Jerusalém, não se oferece em nenhum outro lugar para sempre — mesmo depois de destruída, é proibido oferecer em altar particular.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura precisa o alcance de "em todo lugar de onde se pode avistá-la"; Rashi conclui o perek explicando por que a santidade de Jerusalém não se revoga, com base na distinção entre "o repouso" e "a herança".

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 1:11
וְעוֹד יִתְבָּאֲרוּ עִקְּרֵי אֵלּוּ הַדִּינִים כֻּלָּם וּרְאָיוֹתֵיהֶם בְּסוֹף זְבָחִים.

E ainda se explicarão os fundamentos de todas essas leis e suas provas completas no final do tratado Zevachim — ali se detalha por que a santidade de Shilo permitiu retorno aos altares particulares após sua destruição, e a de Jerusalém não.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 1:11
בְּכָל הָרוֹאֶה, בְּכָל מָקוֹם שֶׁיָּכוֹל לִרְאוֹת מִשָּׁם אֶת שִׁילֹה. יֵשׁ אַחֲרֶיהָ הֶתֵּר, כְּשֶׁחָרְבָה שִׁילֹה הֻתְּרוּ הַבָּמוֹת.

"Em todo lugar de onde se pode avistá-la": em todo lugar de onde é possível avistar dali o próprio local de Shilo — mesmo que distante, desde que haja linha de visão direta.

"Tem revogação depois de si": quando Shilo foi destruída, foram novamente permitidos os altares particulares — encerrando-se ali aquele grau de santidade central e retornando-se à permissão que vigorava antes de sua construção.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 10a
יש אחריה היתר - כשחרבה שילה הותרו הבמות, כדאמרינן במסכת זבחים: כי לא באתם עד עתה אל המנוחה - זו שילה, שנחו מלכבוש, ואל הנחלה - זו ירושלים, למה חלקן הכתוב, כדי ליתן היתר בין זו לזו: והיא היתה נחלה - האמור בפסוק אל המנוחה ואל הנחלה.

"Tem revogação depois de si" — quando Shilo foi destruída, foram novamente permitidos os altares particulares, como dizemos no tratado Zevachim.

"Pois não chegastes ainda até agora ao repouso" — refere-se a Shilo, onde repousaram da conquista da terra; "e à herança" — refere-se a Jerusalém. Por que a Torá as separou num mesmo versículo? Para estabelecer uma distinção de permissão entre uma e outra: Shilo, o "repouso", teve sua santidade revogada quando destruída; Jerusalém, "a herança" — a posse definitiva e permanente do povo —, jamais teve sua santidade revogada, nem antes nem depois da destruição do Templo.