Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Alef · Mishná 8 de 11

Em que línguas se escrevem os Livros, os Tefilin e as Mezuzot

אֵין בֵּין סְפָרִים לִתְפִלִּין וּמְזוּזוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa das leis de pureza para as leis de escrita sagrada: em que línguas podem ser escritos os Livros bíblicos, em contraste com os Tefilin e as Mezuzot.

Não há entre os Livros e os Tefilin e as Mezuzot senão que os Livros podem ser escritos em qualquer língua, e os Tefilin e as Mezuzot só podem ser escritos em escrita assíria.Os rolos da Torá, dos Profetas e dos Escritos podem, segundo a lei estrita, ser copiados na língua e na escrita de qualquer povo, para que seus falantes possam lê-los; já os Tefilin e as Mezuzot, cujo texto é sempre o mesmo trecho fixo do Shemá, devem ser escritos exclusivamente na escrita hebraica quadrada, chamada assíria.

Rabban Shimon ben Gamliel diz: também quanto aos Livros não permitiram que fossem escritos senão em grego.Rabban Shimon ben Gamliel discorda da permissão ampla: para ele, mesmo os Livros bíblicos, quando não escritos na língua e escrita hebraicas, só podem ser vertidos para o grego — nenhuma outra língua estrangeira foi autorizada para esse fim.

אֵין בֵּין סְפָרִים לִתְפִלִּין וּמְזוּזוֹת אֶלָּא שֶׁהַסְּפָרִים נִכְתָּבִין בְּכָל לָשׁוֹן, וּתְפִלִּין וּמְזוּזוֹת אֵינָן נִכְתָּבוֹת אֶלָּא אַשּׁוּרִית. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, אַף בַּסְּפָרִים לֹא הִתִּירוּ שֶׁיִּכָּתְבוּ אֶלָּא יְוָנִית:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 6:6-9
וְהָיוּ הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוְּךָ הַיּוֹם עַל־לְבָבֶךָ... וּקְשַׁרְתָּם לְאוֹת עַל־יָדֶךָ וְהָיוּ לְטֹטָפֹת בֵּין עֵינֶיךָ. וּכְתַבְתָּם עַל־מְזֻזוֹת בֵּיתֶךָ וּבִשְׁעָרֶיךָ
E estas palavras que eu te ordeno hoje estarão sobre teu coração... e as atarás por sinal sobre tua mão, e serão por frontais entre teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e em teus portões.

É da expressão "estas palavras", repetida no texto que fundamenta tanto os tefilin quanto as mezuzot, que se extrai a exigência de fixidez: o texto neles inscrito deve ser exatamente "estas" palavras, na forma exata em que foram dadas — o hebraico, na escrita assíria. Os Livros bíblicos, por outro lado, não carregam essa mesma expressão restritiva a respeito de sua cópia, o que abre, segundo a opinião da mishná, a possibilidade de traduzi-los para outras línguas — sobretudo para que comunidades que não dominam o hebraico possam ler os textos sagrados. A disputa entre a opinião anônima e Rabban Shimon ben Gamliel gira em torno de até que ponto essa abertura se estende: apenas ao grego, língua que a tradição já associava à beleza de Jefet destinada a habitar nas tendas de Shem (Bereshit 9:27), ou a qualquer língua.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o sentido de "em qualquer língua" e decide a halachá conforme Rabban Shimon ben Gamliel.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 1:8
רָצוּ בְּאָמְרָם בְּכָל לָשׁוֹן, בִּכְתַב כָּל אֻמָּה וּבִלְשׁוֹן כָּל אֻמָּה. וּסְפָרִים וּתְפִלִּין וּמְזוּזוֹת שֶׁתְּנַאי כְּתִיבָתָם כֻּלָּם שָׁוִין, כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר בִּמְנָחוֹת. וְהַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל.
Ao dizerem "em qualquer língua", quiseram dizer: na escrita de cada nação e na língua de cada nação. E os Livros, os Tefilin e as Mezuzot têm todos as mesmas condições de escrita quanto aos demais requisitos técnicos, como se explicou no tratado Menachot. E a halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que o grego foi especialmente permitido, e observa que na prática atual só se escreve em hebraico; Rashi esclarece os termos técnicos "escrita" e "língua".

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 1:8
רָצוּ בְּאָמְרָם בְּכָל לָשׁוֹן, בִּכְתַב כָּל אֻמָּה וּבִלְשׁוֹן כָּל אֻמָּה. וְהַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל.

Ao dizer a mishná "em qualquer língua", quer dizer tanto na escrita própria de cada nação quanto na língua de cada nação — as duas coisas juntas, e não apenas a tradução do conteúdo mantendo a escrita hebraica. E a halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel, que restringe essa permissão ao grego.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 1:8
אֵין נִכְתָּבִין אֶלָּא יְוָנִית, וְטַעְמָא דְּשָׁרוּ סְפָרִים בִּיוָנִית יוֹתֵר מִשְּׁאָר לְשׁוֹנוֹת, דְּאָמַר קְרָא יַפְתְּ אֱלֹהִים לְיֶפֶת וְיִשְׁכֹּן בְּאָהֳלֵי שֵׁם, יְפֵיפוּתוֹ שֶׁל יֶפֶת יִשְׁכֹּן בְּאָהֳלֵי שֵׁם. וַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל, מִיהוּ בַּזְּמַן הַזֶּה כְּבָר אָבַד אוֹתוֹ לָשׁוֹן יְוָנִי וְנִשְׁתַּבֵּשׁ, לְפִיכָךְ אֵין כּוֹתְבִין סְפָרִים בַּזְּמַן הַזֶּה אֶלָּא בִּכְתַב הַקֹּדֶשׁ וּבִלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ.

"Não são permitidos senão em grego": e a razão pela qual permitiram os Livros em grego mais do que nas demais línguas é que o versículo diz "Deus alargará Jefet, e habitará nas tendas de Shem" — a beleza de Jefet habitará nas tendas de Shem, ou seja, não há língua mais bela entre todos os filhos de Jefet do que a língua grega. E a halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel; porém, em nossos dias, já se perdeu e se corrompeu aquela língua grega [antiga], por isso não se escrevem Livros hoje senão na escrita sagrada e na língua sagrada.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná e à Guemará, Meguilá 8b-9b
מתני' ספרים - תורה נביאים וכתובים: אשורית - לשון הקודש: גמ' גופן - כתיבה: כאן בגופן שלנו - מתניתין דקתני בכל לשון שלא שינה את הכתב אלא ששינה את הלשון, וברייתא בגופן שלהן: יפיותו של יפת - הוא לשון יון, לשונו יפה משל כל בני יפת.

"Livros" — refere-se à Torá, aos Profetas e aos Escritos. "Escrita assíria" — refere-se à língua sagrada, o hebraico.

"Gófen" [na Guemará] significa a forma da escrita, distinta da língua. "Aqui, em nossa forma de escrita" — a mishná, ao ensinar que os Livros podem ser escritos "em qualquer língua", refere-se a um caso em que não se mudou a escrita, apenas a língua — mantendo as letras hebraicas para transliterar outro idioma; já a baraita que exige a escrita própria de cada povo refere-se a um caso em que se muda também a forma das letras.

"A beleza de Jefet" é a língua grega — sua língua é mais bela do que a de todos os demais filhos de Jefet, e por isso foi singularizada entre as línguas estrangeiras permitidas.