A mishná mais longa do capítulo descreve as mesas auxiliares do vestíbulo, o procedimento semanal de troca do pão da face por quatro sacerdotes que entram e quatro que saem, a distribuição das hóstias entre os turnos sacerdotais, e o caso especial de Yom Kipur caindo na véspera do Shabat.
Duas mesas havia no vestíbulo, do lado de dentro, junto à entrada da casa: uma de mármore e uma de ouro. Sobre a de mármore colocavam o pão da face em sua entrada, e sobre a de ouro em sua saída, pois se eleva em santidade e não se rebaixa. E uma de ouro havia dentro, sobre a qual o pão da face estava sempre. — Antes de entrar no Santuário, o pão novo era pousado brevemente sobre a mesa de mármore, no vestíbulo, para esfriar um pouco do calor do forno; ao sair, uma semana depois, o pão velho não podia retornar a esse mesmo lugar de menor santidade — a regra é que se sobe em santidade, nunca se desce — por isso era colocado sobre a segunda mesa do vestíbulo, essa de ouro. E, dentro do próprio Santuário, havia ainda uma terceira mesa, também de ouro, sobre a qual o pão da face permanecia continuamente, sem nunca ficar vazia.
Quatro sacerdotes entram, dois com as duas fileiras em suas mãos e dois com as duas tigelas em suas mãos; e quatro os antecedem, dois para tomar as duas fileiras e dois para tomar as duas tigelas. Os que trazem ficam de pé ao norte, com o rosto ao sul; os que retiram ficam de pé ao sul, com o rosto ao norte. Estes puxam e aqueles colocam, e o palmo de um diante do palmo do outro, como está dito: “diante de Mim, sempre”. Rabi Yosei diz: mesmo que estes retirem e depois aqueles coloquem, também isso seria “sempre”. — A cada Shabat, oito sacerdotes participam da troca: quatro entram trazendo o pão novo, quatro os precedem para retirar o velho. O ballet é coreografado com precisão — os que entram ficam ao norte olhando para o sul, os que saem ao sul olhando para o norte — e o momento da troca é sincronizado, palmo por palmo, de modo que nunca haja um instante em que a mesa fique sem pão algum, cumprindo literalmente a exigência de que o pão esteja ali “sempre”. Rabi Yosei discorda dessa exigência de simultaneidade perfeita, entendendo que mesmo uma remoção seguida de uma colocação, sem sobreposição, ainda cumpre o “sempre”, contanto que não passe uma noite sem pão.
Saíam e colocavam sobre a mesa de ouro que havia no vestíbulo. Queimavam as tigelas, e as hóstias eram distribuídas aos sacerdotes. Se Yom Kipur caía em Shabat, as hóstias eram distribuídas à noite. Se caía na véspera do Shabat, o bode de Yom Kipur era comido à noite; os babilônios o comiam cru, porque seu paladar é largo. — Depois de retirado o pão velho, ele era pousado na mesa dourada do vestíbulo enquanto o incenso das tigelas subia em fumaça sobre o altar; só então o pão podia ser distribuído e comido pelos sacerdotes dos dois turnos, o que saía e o que entrava. Mas se aquele Shabat coincidia com Yom Kipur, dia de jejum, a distribuição tinha de esperar até a noite, ao término do jejum. E, no caso inverso — Yom Kipur caindo numa sexta-feira —, surgia outra dificuldade: o bode expiatório do dia, que só pode ser comido no próprio dia e na noite seguinte, não podia ser cozido nem em Yom Kipur nem no Shabat que o sucedia; por isso, alguns sacerdotes, vindos da Babilônia e menos exigentes com a comida, aceitavam comê-lo cru.
Rambam observa que já se sabe que a disposição do pão ocorre no dia de Shabat, como está dito: “em cada dia de Shabat, em cada dia de Shabat, o sacerdote o arranjará”; e no dia de Shabat se come, a menos que o jejum o impeça. E o pão da face é dividido entre o turno que entra e o que sai, como já explicamos ao final de Sucá. E, examinando todas as oferendas de Yom Kipur, não se encontra entre elas nada que se coma, exceto o bode da oferenda pelo pecado feito fora, que é comido, como se explicará em seu lugar.
Bartenura explica: “junto à entrada da casa” — junto à entrada do Santuário, em sua entrada; e não colocavam o pão sobre a de mármore senão para que esfriasse um pouco do calor do forno, para que não mofasse. “E sobre a de ouro em sua saída” — até que se queimassem as tigelas, como se ensina no final da mishná. “Os que trazem ficam de pé ao norte” — pois assim é preferível, já que os que trazem o pão novo ficam próximos do canto noroeste, que é o canto mais nobre da mesa. “Estes puxam” — e antes que ergam o pão da mesa, aqueles já o colocam. “Mesmo que estes retirem” — e eles mesmos coloquem depois de terem retirado. “E as hóstias são distribuídas aos sacerdotes” — o turno que sai divide com o turno que entra. “Se Yom Kipur cai em Shabat” — pois a regra do pão da face é ser comido no dia de sua troca, e agora não podem comê-lo de dia por causa do jejum. “As hóstias são distribuídas à noite” — e não se espera para distribuí-lo no dia seguinte, pois se antecipa o preceito quando possível. “O bode” — da oferenda adicional, que é oferenda pelo pecado e é comido pelos sacerdotes. “É comido à noite” — nas noites de Shabat, pois seu tempo é o dia e a noite até a meia-noite. “Os babilônios” — sacerdotes que subiram da Babilônia. “Comiam-no cru” — quando Yom Kipur caía na véspera do Shabat, pois não era possível cozinhá-lo nem em Yom Kipur nem em Shabat. “Porque seu paladar é largo” — e não se enojavam de comer a carne crua.
Rashi explica que, quando Yom Kipur cai em Shabat, não se pode comer o pão naquele dia; por isso as hóstias são distribuídas à noite, e não no dia seguinte, pois o pão se desqualificaria por permanecer além de seu tempo próprio, uma vez já removido da mesa. O bode da oferenda adicional, que é oferenda pelo pecado feita fora e comida pelos sacerdotes, é comido à noite, nas noites de Shabat, ainda que não se possa cozinhá-lo em Shabat; e os babilônios o comem cru quando Yom Kipur cai na véspera do Shabat.
Rashi explica que “a velha”, mencionada na Guemará, refere-se às fileiras de pão que estiveram ali durante aquele Shabat que agora termina; e “pernoite” refere-se ao que permanece durante a noite.