Abrindo o Perek Yud-Bet, esta mishná estabelece a fronteira entre a santidade de valor monetário e a santidade corpórea nas oferendas de farinha e nas libações: antes de consagradas no vaso de serviço, se ficam impuras, podem ser resgatadas; depois, não. E lista quatro categorias consagradas que nunca têm resgate, mesmo antes de servidas no vaso.
As oferendas de farinha e as libações que se contaminaram, antes de as consagrar no vaso, têm resgate. A partir do momento em que foram consagradas no vaso, não têm resgate. — Antes de a farinha ser colocada no vaso de serviço para a retirada do punhado, e antes de o vinho ser vertido no vaso da libação, ambos possuem apenas santidade de valor monetário: se ficam impuros nessa fase, podem ser resgatados, e a sua santidade se transfere ao dinheiro do resgate. Mas, uma vez consagrados no vaso, adquirem santidade corpórea própria, e se depois se contaminam, já não há resgate possível — devem ser queimados, como qualquer oferenda que ficou impura.
As aves, a lenha, o incenso e os utensílios de serviço não têm resgate, pois isso não foi dito senão a respeito de um animal. — Diferentemente da farinha e do vinho, estas quatro categorias já possuem santidade corpórea desde o início, antes mesmo de qualquer consagração num vaso; por isso, se se contaminam, nunca podem ser resgatadas. A Torá menciona resgate apenas a respeito de um animal consagrado que desenvolveu um defeito físico (Levítico 27), e esse princípio não se estende a nenhuma outra categoria de coisas consagradas ao altar.
Rambam explica que a Torá diz “e se qualquer animal impuro do qual não se oferece oferenda...”, ordenando seu resgate, e que este versículo se refere apenas a animais com defeito que devem ser resgatados — pois, se se referisse a um animal literalmente impuro, é sabido que este nunca é oferecido; e já a própria seção de Arachin trata do resgate de um animal impuro, dizendo “e se for um animal impuro, será resgatado segundo tua avaliação”. E como a Torá chamou de “impuro” o animal com defeito, nesse versículo, e permitiu seu resgate, poderíamos pensar que também se resgata o que ficou impuro entre as oferendas de farinha e as libações; por isso a mishná nos ensina que isso não é permitido, pois esse versículo se refere apenas ao animal, quando tem defeito, como dissemos. E do fato de dizer que a oferenda é resgatada se ficou impura antes de ser posta no vaso de serviço, compreende-se que não é permitido resgatá-la quando não está impura, mesmo antes de consagrada no vaso.
Bartenura explica: “as oferendas de farinha e as libações” — antes de consagradas no vaso, não possuem santidade corpórea, mas apenas santidade de valor, pois é preciso resgatá-las, e é o dinheiro do resgate que se torna sagrado. E somente quando se contaminam há resgate, se ainda não foram consagradas no vaso; mas se não se contaminaram, mesmo sem ainda consagradas no vaso, não se resgatam. “As aves, a lenha, o incenso e os utensílios de serviço” que se contaminaram — “não têm resgate”, pois resgate em relação a santidade corpórea só foi dito a respeito de um animal com defeito, como está escrito: “e se for um animal impuro, do qual não se oferece oferenda ao Eterno, o sacerdote o avaliará...” — e a Escritura fala de animais com defeito que foram resgatados, pois, se se referisse a um animal literalmente impuro, quando diz “e se for o animal impuro, será resgatado segundo tua avaliação”, já o animal impuro estaria mencionado. E a mishná nos ensina que, embora encontremos que algo consagrado com santidade corpórea que desenvolveu um defeito se resgata, as aves, a lenha, o incenso e os utensílios de serviço, que possuem santidade corpórea, quando se contaminam não se resgatam.
Rashi explica: “as oferendas de farinha e as libações, antes de consagradas no vaso” — ainda não adquiriram santidade corpórea, mas apenas santidade de valor, pois é preciso resgatá-las, e é o dinheiro que se torna sagrado. “E as aves, a lenha, o incenso e os utensílios de serviço que se contaminaram não têm resgate” — pois resgate em relação à santidade corpórea só foi dito a respeito de um animal com defeito, como se explica na Guemará.