A primeira mishná do Perek Dalet deixa as menachot do Templo por um momento e abre com uma série de pares rituais que não se impedem mutuamente, mesmo quando idealmente devem vir juntos: a tekhelet (lã tingida de azul) e a lavan (lã branca) do tzitzit, o tefilin do braço e o da cabeça, a farinha fina e o azeite da libação e o vinho que a acompanha, e as diferentes aspersões de sangue sobre o altar externo.
A tekhelet não impede a lavan, e a lavan não impede a tekhelet. O tefilin do braço não impede o da cabeça, e o da cabeça não impede o do braço. — A mishná abre o Perek Dalet com uma série de pares que idealmente devem vir juntos, mas cuja ausência de um lado não impede o cumprimento do preceito com o outro. Nas franjas do tzitzit, a lã tingida de azul (tekhelet) e a lã branca (lavan) formam, cada uma, um cumprimento válido por si só. O mesmo vale para os tefilin: mesmo que o preceito ideal exija ambos, o do braço e o da cabeça, cada um cumpre o preceito independentemente do outro.
A farinha fina e o azeite não impedem o vinho, e o vinho não os impede. As aspersões sobre o altar externo não se impedem mutuamente. — A mishná estende o princípio às libações que acompanham as oferendas animais — a farinha fina e o azeite da menachá de libação, e o vinho vertido junto ao altar — e às diferentes aspersões de sangue realizadas sobre o altar externo em certas oferendas: a falta de um componente não impede a validade dos demais.
Rambam explica que o preceito do tzitzit compreende dois preceitos distintos: colocar franjas nas pontas da veste — de lã ou linho brancos, conforme as condições detalhadas na Guemará —, e amarrar sobre essas franjas um fio de lã tingida de tekhelet; hoje esse tingimento não está disponível, pois já não se sabe identificar com certeza o tekhelet genuíno, de modo que se usa apenas o branco. Sobre os tefilin, esclarece que a mishná pressupõe que a pessoa possui ambos — o do braço e o da cabeça —, podendo então usar apenas um deles quando quiser; mas se possui apenas um dos dois, não deve colocá-lo até obter o outro, por receio de passar a depender permanentemente de apenas um. Resolve a aparente contradição com as quatro espécies do lulav explicando que ali é preciso tomar as quatro juntas nas mãos para cumprir o preceito por completo, ao passo que nos tefilin basta usar um dos dois para já cumprir o preceito positivo. Por fim, identifica a farinha, o azeite e o vinho como os das libações que acompanham a oferenda animal, e remete a prova sobre as aspersões do altar externo ao início do quarto capítulo de Zevachim.
Bartenura observa que, embora o preceito ideal seja dois fios de tekhelet e dois de lavan, ou um de tekhelet e três de lavan, ainda assim nenhum deles impede o outro, e quem usa as quatro franjas todas de tekhelet ou todas de lavan cumpre o preceito. Sobre os tefilin, conclui que a halachá vale tanto quando a pessoa possui ambos quanto quando possui apenas um: em qualquer caso, não se impedem mutuamente, como ensinaram todos os seus mestres na prática. Identifica a farinha e o azeite como os da libação, e explica que, se o vinho foi trazido sem eles, verte-se o vinho mesmo assim. Sobre as aspersões do altar externo, dá como exemplo as quatro aspersões da oferenda pelo pecado: se apenas uma foi feita, a expiação já se cumpriu, conforme o versículo “e o sangue de tuas oferendas será derramado” (Deuteronômio 12:27), que indica que basta um derramamento.
Rashi explica que, embora seja preceito ideal usar dois fios de tekhelet no tzitzit, como se detalha adiante na Guemará, ainda assim a ausência da tekhelet não impede o cumprimento com a lavan — e quem usa as quatro franjas todas de tekhelet ou todas de lavan cumpre o preceito. Sobre a farinha, o azeite e o vinho da libação, explica que, se alguém trouxe o vinho sem a farinha e o azeite, verte-se o vinho mesmo assim. E sobre as aspersões do altar externo, dá como exemplo as quatro aspersões da oferenda pelo pecado: se o sacerdote fez apenas uma, já expiou.