A terceira mishná do Perek Dalet, a mais longa do capítulo, trata da relação entre os dois pães de Shavuot e os cordeiros de paz que os acompanham na tenufá (agitação ritual): enquanto o touro, os carneiros, o bode e os cordeiros não impedem os pães, surge a disputa entre Rabi Akiva e Shimon ben Nanas sobre a relação entre os pães e os cordeiros, com a longa fundamentação histórica de Rabi Shimon sobre o que Israel sacrificava no deserto.
O touro, os carneiros, os cordeiros e o bode não impedem os pães, e os pães não os impedem. — A mishná passa dos musafim de Shavuot para a relação entre os animais que os acompanham e os dois pães de trigo novo oferecidos nessa festa: a ausência do touro, dos carneiros, dos cordeiros holocaustos ou do bode da oferenda pelo pecado não impede a validade dos pães, e vice-versa.
Os pães impedem os cordeiros, mas os cordeiros não impedem os pães — palavras de Rabi Akiva. — Sobre os dois cordeiros de paz agitados junto com os pães na tenufá, Rabi Akiva ensina uma relação assimétrica: sem os pães, os cordeiros não podem ser trazidos, mas sem os cordeiros, os pães ainda assim podem ser trazidos e consagrados.
Disse Shimon ben Nanas: não é assim, mas sim os cordeiros impedem os pães, e os pães não impedem os cordeiros, pois encontramos que, quando Israel esteve no deserto quarenta anos, sacrificaram cordeiros sem pães; também aqui sacrifiquem cordeiros sem pães. — Shimon ben Nanas inverte a relação de Rabi Akiva e a sustenta com um precedente histórico: durante os quarenta anos no deserto, antes de haver trigo da Terra de Israel para os dois pães, Israel já sacrificava os cordeiros de paz de Shavuot sem eles — provando que os cordeiros não dependem dos pães, mas os pães dependem dos cordeiros.
Disse Rabi Shimon: a halachá é conforme as palavras de ben Nanas, mas o motivo não é conforme suas palavras, pois tudo que é dito no Livro dos Recenseamentos foi sacrificado no deserto, e tudo que é dito em Torat Kohanim não foi sacrificado no deserto; desde que chegaram à terra, sacrificaram tanto estes como aqueles. — Rabi Shimon concorda com a conclusão prática de ben Nanas — os cordeiros impedem os pães, e não o contrário —, mas rejeita seu fundamento: para ele, nada do que está escrito em Vayikrá (Torat Kohanim), incluindo os cordeiros de paz e os pães, foi sacrificado no deserto; só o que está no Livro dos Recenseamentos, com todas as suas oferendas adicionais, foi sacrificado ali. Somente depois que entraram na terra, tanto uns quanto outros passaram a ser sacrificados.
E por que digo que sacrifiquem cordeiros sem pães? Porque os cordeiros permitem a si mesmos sem os pães. Para os pães sem os cordeiros, não tenho quem os permita. — Rabi Shimon conclui com o fundamento técnico de sua própria posição: os cordeiros, por terem seu próprio sangue aspergido e suas partes queimadas no altar, tornam-se permitidos por si mesmos, independentemente dos pães; mas os pães só se tornam permitidos ao consumo depois que os cordeiros são sacrificados, pois nada mais os torna aptos.
Rambam identifica o touro, os dois carneiros e os sete cordeiros como a parte trazida em razão dos dois pães de Shavuot — todos holocaustos, além do bode da oferenda pelo pecado —, e os “cordeiros” mencionados a seguir como os dois cordeiros de paz trazidos junto aos pães no momento da tenufá. Explica que, se não houver os dois cordeiros, os pães ainda assim são trazidos e comidos como se tivessem sido trazidos com eles. Sobre a posição de ben Nanas — que no deserto sacrificaram cordeiros sem pão, pois não havia ali outro pão além do maná —, Rabi Shimon discorda quanto ao fundamento: nada do que está escrito em Vayikrá, incluindo pães e cordeiros de paz, foi sacrificado no deserto; é tradição recebida que só o que está no Livro dos Recenseamentos, com todos os musafim, foi sacrificado ali. A halachá segue Rabi Shimon.
Bartenura identifica o touro, os carneiros e os cordeiros holocaustos com os que acompanham o pão, e o bode com a oferenda pelo pecado; e os “cordeiros” que impedem os pães são os dois cordeiros de paz trazidos para a tenufá com o pão. Confirma que, se não houver cordeiros, os dois pães de Shavuot ainda assim são trazidos e consagrados. Explica a posição final: os cordeiros impedem o pão, mas o pão não impede os cordeiros — como disse ben Nanas —, ainda que o fundamento de ben Nanas, de que no deserto se sacrificaram cordeiros de paz sem pão, esteja equivocado: tudo o que está escrito no Livro dos Recenseamentos, como os musafim da parashá Pinchas, foi sacrificado no deserto; mas o que está em Torat Kohanim — os sete cordeiros, touro e carneiros holocaustos com o pão, e os dois cordeiros de paz — não foi sacrificado no deserto. O pão sem cordeiros não tem quem o permita para consumo, pois só se torna permitido aos sacerdotes depois que os cordeiros são sacrificados. A halachá segue Rabi Shimon.
Rashi identifica o touro, os carneiros e os cordeiros da mishná com os que estão escritos no versículo “e oferecereis, com o pão, sete cordeiros perfeitos de um ano, e um touro, filho de gado…” (Vayikrá 23:18), e explica que “o pão” mencionado na mishná são os dois pães de Shavuot.