A oitava mishná do Perek Hei volta ao tema dos votos específicos de oferenda, já tratado no Perek Alef: quem se compromete a trazer uma oferenda em frigideira não pode trazê-la em caçarola, e vice-versa, pois são utensílios distintos; a mishná então traz a disputa entre Rabi Yossei HaGelili e Rabi Chananiá ben Gamliel sobre em que exatamente consiste essa diferença.
Quem diz: “sobre mim, em frigideira” — não deve trazer em caçarola. “Em caçarola” — não deve trazer em frigideira. — A mishná retoma o princípio de que um voto formulado com um termo específico deve ser cumprido exatamente com aquele tipo de oferenda, e não com outro que pareça equivalente: quem se compromete a trazer uma oferenda assada na frigideira (machavat) não cumpre seu voto trazendo-a na caçarola (marcheshet), ainda que ambas sejam preparadas de modo semelhante, com azeite.
E qual é a diferença entre frigideira e caçarola? Apenas que a caçarola tem tampa, e a frigideira não tem tampa — palavras de Rabi Yossei HaGelili. Rabi Chananiá ben Gamliel diz: a caçarola é funda e seu produto se move; a frigideira é rasa e seu produto é duro. — A mishná traz duas explicações para a diferença entre os utensílios. Rabi Yossei HaGelili localiza a diferença na presença ou ausência de tampa. Rabi Chananiá ben Gamliel discorda e localiza a diferença na forma física: a caçarola é funda, com bordas altas, de modo que o azeite se move e balança dentro dela, deixando seu produto mais mole; a frigideira é rasa, com as bordas niveladas ao fundo, de modo que seu produto assado fica mais firme, para não escorrer para fora.
Rambam descreve fisicamente os dois utensílios: a caçarola é um recipiente fundo, com uma borda ao redor, e a massa que nela se cozinha é mole e escorregadia — sentido da expressão “seu produto é mole”; a frigideira é um recipiente sem borda, e por isso a massa nela deve ser firme, para que não escorra — sentido de “seu produto é duro”. Conclui que esta é a opinião correta segundo a Guemará quanto à forma real desses dois utensílios.
Bartenura fundamenta a posição de Rabi Chananiá ben Gamliel nos próprios versículos: sobre a caçarola está escrito “e tudo que se prepara na caçarola”, indicando “dentro dela”, o que prova que ela tem um interior fundo, no qual o azeite se move e balança — daí o termo “seu produto se move”, associado à raiz do verbo usado para o que “se arrasta pela terra”; há também uma leitura variante, “seu produto é mole”, referindo-se à consistência de sua massa. Já sobre a frigideira está escrito “sobre a frigideira”, indicando “sobre ela” e não “dentro dela”, provando que não tem interior fundo: suas bordas ficam niveladas ao fundo, como algo que “flutua sobre a superfície da água”. Por isso seu produto deve ser mais firme, para não escorrer para fora, já que o utensílio não tem borda que o contenha.
Rashi explica que “seu produto se move” significa que, sendo a caçarola um utensílio fundo, todo o azeite se concentra em um mesmo lugar dentro dela, de modo que, quando alguém toca a oferenda com o dedo, o azeite se desloca visivelmente em seu interior. Deriva o próprio nome “marcheshet” da raiz que designa o que se move ou se arrasta. Já a frigideira é chamada “rasa” (tzafá) porque não é funda: suas bordas ficam niveladas ao fundo, o azeite se espalha pelas bordas do utensílio, e por isso seu produto assado sai mais firme, comparável à expressão “flutuando sobre a superfície da água”.