Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Alef · Mishná 4 de 7

"Como o cabelo da minha cabeça": nazireados múltiplos aparados a cada trinta dias

הֲרֵינִי נָזִיר כִּשְׂעַר רֹאשִׁי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná examina a linguagem de quem compara seu voto a algo composto de inúmeras partes — o cabelo da própria cabeça, o pó da terra, a areia do mar — e conclui que, embora essa pessoa se torne um nazireu de duração vitalícia, ela apara o cabelo a cada trinta dias, e não apenas a cada doze meses como o nazireu eterno comum, porque a própria linguagem do voto sugere múltiplos períodos separados. Rabi discorda dessa leitura.

Quem diz "sou nazireu como o cabelo da minha cabeça", "como o pó da terra", "como a areia do mar" — eis que é nazireu eterno, e apara o cabelo uma vez a cada trinta dias. Rabi diz: este não apara uma vez a cada trinta dias. E quem é que apara uma vez a cada trinta dias? Quem diz "assumo sobre mim o nazireado como o cabelo da minha cabeça", "como o pó da terra", "como a areia do mar".A mishná lida com uma linguagem que, por comparar o voto a algo composto de partes inumeráveis (fios de cabelo, grãos de areia, partículas de pó), sugere que a pessoa está assumindo, na verdade, uma quantidade imensa de votos separados e não um único voto contínuo — e, como cada voto individual dura no mínimo trinta dias, mas nunca poderá ser efetivamente cumprido em sua totalidade (já que o número de fios de cabelo é, para fins práticos, incontável), a pessoa se torna nazireu para toda a vida, mas com o direito de aparar o cabelo a cada trinta dias — como quem, tecnicamente, está sempre encerrando um voto de trinta dias e começando o seguinte, ainda que a série nunca termine. Rabi discorda desse raciocínio: para ele, uma vez que a pessoa diz "sou nazireu" (no singular), todos os votos subsequentes se fundem num único nazireado contínuo, regido pela regra geral do nazireu eterno, que apara o cabelo apenas a cada doze meses. Rabi reserva a leitura de "múltiplos votos separados, aparados a cada trinta dias" apenas para quem formula o voto de modo diferente, dizendo explicitamente "assumo sobre mim o nazireado" — uma expressão que, segundo ele, evidencia melhor a intenção de fragmentar o voto em unidades distintas.

הֲרֵינִי נָזִיר כִּשְׂעַר רֹאשִׁי, וְכַעֲפַר הָאָרֶץ, וּכְחוֹל הַיָּם, הֲרֵי זֶה נְזִיר עוֹלָם וּמְגַלֵּחַ אַחַת לִשְׁלשִׁים יוֹם. רַבִּי אוֹמֵר, אֵין זֶה מְגַלֵּחַ אַחַת לִשְׁלשִׁים יוֹם. וְאֵיזֶהוּ שֶׁמְּגַלֵּחַ אַחַת לִשְׁלשִׁים יוֹם, הָאוֹמֵר הֲרֵי עָלַי נְזִירוּת כִּשְׂעַר רֹאשִׁי, וְכַעֲפַר הָאָרֶץ, וּכְחוֹל הַיָּם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A base para o nazireu eterum aparar o cabelo periodicamente, e não deixá-lo crescer sem cortar, é derivada do precedente de Avshalom, que era nazireu eterno e, segundo o relato bíblico, aparava seu cabelo "de tempos em tempos, porque lhe pesava".

Shemuel Bet (II Samuel) 14:26
וּבְגַלְּחוֹ אֶת רֹאשׁוֹ וְהָיָה מִקֵּץ יָמִים לַיָּמִים אֲשֶׁר יְגַלֵּחַ כִּי כָבֵד עָלָיו וְגִלְּחוֹ
E quando aparava sua cabeça — e era ao fim de certo tempo que ele a aparava, porque lhe pesava, e ele a aparava.

Avshalom, filho do rei David, é identificado pela tradição como nazireu eterno, e o versículo que descreve seu corte periódico de cabelo — "porque lhe pesava" — tornou-se a fonte da regra de que o nazireu eterno apara o cabelo a cada doze meses, quando o peso se torna incômodo, ao contrário do nazireu de prazo fixo, sobre quem a Torá determina que "navalha não passará sobre sua cabeça" até o fim do voto, sem exceção alguma. É justamente sobre essa base — o nazireu eterno comum, que apara a cada doze meses — que a mishná constrói sua distinção: quem jura "como o cabelo da minha cabeça" foge dessa regra padrão e apara a cada trinta dias, precisamente porque a estrutura de seu voto sugere unidades múltiplas e não um único período contínuo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica a lógica por trás da divisão em nazireados de trinta dias e conclui que a lei não segue Rabi, mas a opinião anônima (tanna kama) da mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 1:4
חזר ואמר ומגלח אחת לל' יום לפי ששער ראשו והחול חלקים נפרדים והנה הוא כאילו נדר בכך וכך אלף נזירות אשר לא ישלים זמנו בהם אבל הם נחלקים לפיכך הוא חייב שיגלח כל ל' יום ויביא קרבנות... ואין הלכה כרבי

Rambam explica que, como o cabelo da cabeça e os grãos de areia são compostos de partes separadas e inumeráveis, é como se a pessoa tivesse jurado milhares e milhares de nazireados que nunca completará em sua totalidade — mas, sendo divisíveis, ela é obrigada a aparar a cada trinta dias e trazer as oferendas correspondentes, encerrando tecnicamente um voto e iniciando o seguinte indefinidamente. Rambam conclui explicitamente que a lei não segue Rabi: prevalece a opinião de que mesmo dizendo "sou nazireu como o cabelo da minha cabeça" (e não apenas "assumo sobre mim o nazireado"), a pessoa apara a cada trinta dias.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o raciocínio de Rabi e a distinção entre as duas fórmulas verbais; Bartenura detalha por que a linguagem de "coisas divididas" (devarim chalukim) resulta em múltiplos votos de trinta dias.

Rashi · רש"י
Nazir 8a
מתני' האומר הריני נזיר כשער כו' - [דאמרינן] נזירות כשער ראשו קבל עליו והרי זה נזיר עולם לפי ששערות ראשו מרובין משני חייו... אלא איזהו שמגלח אחת לשלשים יום זה שאמר הרי עלי נזירות כשער ראשי - דהואיל ואמר עלי נזירות משמע דקא מפליג בין נזירות לנזירות

Rashi explica que a pessoa assumiu, na prática, um nazireado do tamanho do número de fios de cabelo em sua cabeça — uma quantidade que excede em muito os anos de sua vida —, tornando-se assim nazireu eterno de fato. Sobre a posição de Rabi, Rashi esclarece que a fórmula "assumo sobre mim o nazireado como o cabelo da minha cabeça" (usando a palavra "nezirut" explicitamente, e não apenas "sou nazireu") indica melhor uma divisão entre nazireado e nazireado — ou seja, múltiplos votos distintos de trinta dias — enquanto a fórmula mais simples da mishná resulta, para Rabi, num único voto contínuo.

Bartenura · רע"ב
Nazir 1:4
הוֹאִיל וְתָלָה נְזִירוּתוֹ בִּדְבָרִים חֲלוּקִים, הָוֵי כְּאִלּוּ נָדַר בְּמִנְיַן נְזִירִיּוֹתָיו כְּמִנְיַן שְׂעַר רֹאשׁוֹ וַעֲפַר הָאָרֶץ, מַה שֶּׁאֵין כֵּן בִּנְזִיר עוֹלָם שֶׁלֹּא חָלַק נְזִירִיּוֹת שֶׁלּוֹ אֶלָּא נַעֲשָׂה הַכֹּל נְזִירוּת אַחַת

Bartenura explica o critério central da disputa: como a pessoa vinculou seu nazireado a coisas divididas em partes numerosas e distintas (o cabelo, o pó, a areia), é como se tivesse jurado tantos nazireados quanto o número de fios de cabelo ou grãos de areia — diferentemente do nazireu eterno comum, que não divide seu voto em partes, tratando-o como um único e contínuo período. É essa diferença estrutural que justifica, segundo a opinião anônima, a mudança na frequência do corte de cabelo, de doze meses para trinta dias — e Bartenura confirma que a lei não segue Rabi nesse ponto.