Quem diz "sou nazireu como o cabelo da minha cabeça", "como o pó da terra", "como a areia do mar" — eis que é nazireu eterno, e apara o cabelo uma vez a cada trinta dias. Rabi diz: este não apara uma vez a cada trinta dias. E quem é que apara uma vez a cada trinta dias? Quem diz "assumo sobre mim o nazireado como o cabelo da minha cabeça", "como o pó da terra", "como a areia do mar". — A mishná lida com uma linguagem que, por comparar o voto a algo composto de partes inumeráveis (fios de cabelo, grãos de areia, partículas de pó), sugere que a pessoa está assumindo, na verdade, uma quantidade imensa de votos separados e não um único voto contínuo — e, como cada voto individual dura no mínimo trinta dias, mas nunca poderá ser efetivamente cumprido em sua totalidade (já que o número de fios de cabelo é, para fins práticos, incontável), a pessoa se torna nazireu para toda a vida, mas com o direito de aparar o cabelo a cada trinta dias — como quem, tecnicamente, está sempre encerrando um voto de trinta dias e começando o seguinte, ainda que a série nunca termine. Rabi discorda desse raciocínio: para ele, uma vez que a pessoa diz "sou nazireu" (no singular), todos os votos subsequentes se fundem num único nazireado contínuo, regido pela regra geral do nazireu eterno, que apara o cabelo apenas a cada doze meses. Rabi reserva a leitura de "múltiplos votos separados, aparados a cada trinta dias" apenas para quem formula o voto de modo diferente, dizendo explicitamente "assumo sobre mim o nazireado" — uma expressão que, segundo ele, evidencia melhor a intenção de fragmentar o voto em unidades distintas.
A base para o nazireu eterum aparar o cabelo periodicamente, e não deixá-lo crescer sem cortar, é derivada do precedente de Avshalom, que era nazireu eterno e, segundo o relato bíblico, aparava seu cabelo "de tempos em tempos, porque lhe pesava".
Avshalom, filho do rei David, é identificado pela tradição como nazireu eterno, e o versículo que descreve seu corte periódico de cabelo — "porque lhe pesava" — tornou-se a fonte da regra de que o nazireu eterno apara o cabelo a cada doze meses, quando o peso se torna incômodo, ao contrário do nazireu de prazo fixo, sobre quem a Torá determina que "navalha não passará sobre sua cabeça" até o fim do voto, sem exceção alguma. É justamente sobre essa base — o nazireu eterno comum, que apara a cada doze meses — que a mishná constrói sua distinção: quem jura "como o cabelo da minha cabeça" foge dessa regra padrão e apara a cada trinta dias, precisamente porque a estrutura de seu voto sugere unidades múltiplas e não um único período contínuo.
Rambam, no Perush HaMishná, explica a lógica por trás da divisão em nazireados de trinta dias e conclui que a lei não segue Rabi, mas a opinião anônima (tanna kama) da mishná.
Rambam explica que, como o cabelo da cabeça e os grãos de areia são compostos de partes separadas e inumeráveis, é como se a pessoa tivesse jurado milhares e milhares de nazireados que nunca completará em sua totalidade — mas, sendo divisíveis, ela é obrigada a aparar a cada trinta dias e trazer as oferendas correspondentes, encerrando tecnicamente um voto e iniciando o seguinte indefinidamente. Rambam conclui explicitamente que a lei não segue Rabi: prevalece a opinião de que mesmo dizendo "sou nazireu como o cabelo da minha cabeça" (e não apenas "assumo sobre mim o nazireado"), a pessoa apara a cada trinta dias.
Rashi explica o raciocínio de Rabi e a distinção entre as duas fórmulas verbais; Bartenura detalha por que a linguagem de "coisas divididas" (devarim chalukim) resulta em múltiplos votos de trinta dias.
Rashi explica que a pessoa assumiu, na prática, um nazireado do tamanho do número de fios de cabelo em sua cabeça — uma quantidade que excede em muito os anos de sua vida —, tornando-se assim nazireu eterno de fato. Sobre a posição de Rabi, Rashi esclarece que a fórmula "assumo sobre mim o nazireado como o cabelo da minha cabeça" (usando a palavra "nezirut" explicitamente, e não apenas "sou nazireu") indica melhor uma divisão entre nazireado e nazireado — ou seja, múltiplos votos distintos de trinta dias — enquanto a fórmula mais simples da mishná resulta, para Rabi, num único voto contínuo.
Bartenura explica o critério central da disputa: como a pessoa vinculou seu nazireado a coisas divididas em partes numerosas e distintas (o cabelo, o pó, a areia), é como se tivesse jurado tantos nazireados quanto o número de fios de cabelo ou grãos de areia — diferentemente do nazireu eterno comum, que não divide seu voto em partes, tratando-o como um único e contínuo período. É essa diferença estrutural que justifica, segundo a opinião anônima, a mudança na frequência do corte de cabelo, de doze meses para trinta dias — e Bartenura confirma que a lei não segue Rabi nesse ponto.