Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Hei · Mishná 4 de 7

O engano de Nachum, o Medo: o nazireado e a destruição do Templo

זוֹ טָעוּת טָעָה נַחוּם הַמָּדִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná apresenta um novo caso de nazireado cuja validade depende do momento exato do voto em relação a um evento inesperado.

Quem fez voto de nazireado e foi trazer seu animal, e o encontrou roubado — se fez o voto antes de seu animal ser roubado, eis que este é nazireu; e se fez o voto depois que seu animal foi roubado, não é nazireu.Se alguém faz voto de nazireado contando, sem dizer explicitamente, com um animal que já possuía para oferecer como sacrifício ao final, e depois descobre que esse animal foi roubado, a validade do voto depende de quando o roubo ocorreu. Se o voto foi feito quando o animal ainda estava em sua posse, o voto é válido — o roubo posterior é apenas um infortúnio que não afeta a nezirut já assumida. Mas se o voto foi feito depois de o animal já ter sido roubado, sem que ele soubesse disso, o voto não é válido, pois foi feito com base numa suposição falsa sobre uma realidade que já não existia no momento do voto.

מִי שֶׁנָּדַר בְּנָזִיר וְהָלַךְ לְהָבִיא אֶת בְּהֶמְתּוֹ וּמְצָאָהּ שֶׁנִּגְנְבָה, אִם עַד שֶׁלֹּא נִגְנְבָה בְהֶמְתּוֹ נָזַר, הֲרֵי זֶה נָזִיר. וְאִם מִשֶּׁנִּגְנְבָה בְהֶמְתּוֹ נָזַר, אֵינוֹ נָזִיר.
A mishná então narra o episódio histórico que ilustra por que essa distinção é necessária — o engano cometido por Nachum, o Medo.

E foi este o engano em que caiu Nachum, o Medo: quando subiram nazireus do exílio e encontraram o Templo destruído, disse-lhes Nachum, o Medo: "se soubessem que o Templo estava destruído, teriam feito o voto?" Disseram-lhe: "não" — e Nachum, o Medo, os liberou do voto.Após a destruição do Segundo Templo, judeus que retornavam do exílio e haviam feito voto de nazireado enquanto ainda estavam fora da Terra de Israel chegaram e descobriram que o Templo, onde deveriam oferecer os sacrifícios finais de seu nazireado, estava destruído. O sábio Nachum, o Medo, perguntou-lhes se teriam feito o voto sabendo dessa realidade; ao responderem que não, ele considerou essa resposta um motivo válido para anular retroativamente os votos, liberando-os de suas obrigações de nazireu.

וְזוֹ טָעוּת טָעָה נַחוּם הַמָּדִי כְּשֶׁעָלוּ נְזִירִים מִן הַגּוֹלָה וּמָצְאוּ בֵית הַמִּקְדָּשׁ חָרֵב, אָמַר לָהֶם נַחוּם הַמָּדִי, אִלּוּ הֱיִיתֶם יוֹדְעִים שֶׁבֵּית הַמִּקְדָּשׁ חָרֵב הֱיִיתֶם נוֹזְרִים. אָמְרוּ לוֹ לֹא, וְהִתִּירָן נַחוּם הַמָּדִי.
A mishná conclui com a correção dos sábios, que identificaram o erro de Nachum e estabeleceram a regra definitiva, análoga à do primeiro caso.

E quando o caso chegou aos sábios, disseram-lhe: todo aquele que fez o voto antes de o Templo ser destruído é nazireu; e quem fez o voto depois de o Templo ser destruído não é nazireu.Os sábios discordaram da decisão de Nachum, o Medo, explicando que a destruição do Templo era, para efeitos de anulação de um voto anterior, um "fato novo" (nolad) — algo que ainda não existia, nem era previsível, no momento em que o voto foi feito — e não se pode usar um fato novo como base para anular um voto retroativamente. Assim, quem fez o voto de nazireado antes da destruição do Templo permanece nazireu, exatamente como no primeiro caso desta mishná, ainda que a realização de seus sacrifícios finais fique impossibilitada até a reconstrução do Templo; apenas quem fez o voto depois da destruição — sabendo, portanto, que não haveria como cumpri-lo integralmente — poderia ter seu voto anulado com base nesse conhecimento.

וּכְשֶׁבָּא הַדָּבָר אֵצֶל חֲכָמִים, אָמְרוּ לוֹ, כֹּל שֶׁנָּזַר עַד שֶׁלֹּא חָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, נָזִיר. וּמִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, אֵינוֹ נָזִיר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Como em todo o tratado, o voto de nazireado em si remonta ao versículo que o institui; mas a regra sobre anulação de voto por um sábio, central a esta mishná, deriva de outro conjunto de versículos, sobre a autoridade de anular ou confirmar votos.

Bemidbar (Números) 30:3
אִישׁ כִּי יִדֹּר נֶדֶר לַה' אוֹ הִשָּׁבַע שְׁבֻעָה לֶאְסֹר אִסָּר עַל נַפְשׁוֹ, לֹא יַחֵל דְּבָרוֹ, כְּכָל הַיֹּצֵא מִפִּיו יַעֲשֶׂה
Quando um homem fizer um voto ao Eterno, ou jurar juramento para impor obrigação sobre si mesmo, não profanará sua palavra; conforme tudo o que sair de sua boca fará.

Este versículo, base geral da obrigatoriedade dos votos, é também a base, segundo a tradição oral, da possibilidade de um sábio "abrir" o voto através de um arrependimento fundamentado — uma pesicha —, mostrando que, se a pessoa soubesse desde o início de algo que ignorava no momento do voto, não teria feito o voto. É exatamente esse mecanismo que está em jogo nesta mishná: os nazireus do exílio tentaram usar a destruição do Templo como pesicha para anular seu voto, mas os sábios recusaram esse fundamento específico por se tratar de um fato ainda inexistente no momento do voto — um "nolad" —, que a halachá não aceita como abertura válida para anulação, ao contrário de fatos que já existiam mas eram desconhecidos.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece a natureza exata do erro de Nachum, o Medo, e confirma que a halachá segue a posição final dos sábios.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 5:4
והטעות שטעה נחום מבואר, כי באמרו התירם אינו רוצה לומר התיר נדרם, אבל רוצה לומר שהוא התיר להם שתיית יין והטומאה, ואמר להם שהנזירות בלתי קיימת... ומאמר חכמים כשחרב בית המקדש אינו נזיר שמורה בלא ספק שהוא אינו צריך הפרה, לפי שלא חל עליו הנזירות, נמשכו בזה המאמר לאחר דעת רבי אליעזר שאומר פותחין בנולד

Rambam esclarece que Nachum, o Medo, não pretendia apenas anular formalmente o voto, mas declarar que a nezirut jamais havia entrado em vigor, liberando-os de imediato para beber vinho e se contaminar por contato com morto. E explica que a posição final dos sábios — que quem fez voto após a destruição do Templo não é nazireu — segue a opinião de Rabi Eliezer, que permite abrir um voto com base em um fato novo (nolad); mas a Guemará relata que os próprios sábios "empurraram" Rabi Eliezer para a posição da maioria, e a halachá prática é que não se abre um voto com base em fato novo — daí a distinção da mishná entre quem fez o voto antes ou depois da destruição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre o episódio de Nachum, o Medo.

Rashi · רש״י
Nazir 32b, s.v. ואם משנגנבה בהמתו נזר
ואם משנגנבה בהמתו נזר - שבדעתו היה לקבל נזירותו על אותה בהמה, ובשעה שנזר לא היתה ברשותו, הרי זה אינו נזיר דנזירות בטעות הואי. וזו טעות - של נולד טעה נחום המדי שהוא סבור שפותחין בנולד

Rashi explica que, no caso de quem fez o voto sabendo já que o animal fora roubado, o voto simplesmente não se realiza, por se basear numa suposição falsa sobre a disponibilidade do animal — um caso de nazireado por engano. E identifica com precisão o erro de Nachum, o Medo: ele partiu do princípio equivocado de que se pode abrir um voto com base num fato novo (nolad), quando na verdade a halachá não permite tal abertura.

Rashi · רש״י
Nazir 32b, s.v. שטפוהו רבנן לרבי אליעזר
שטפוהו רבנן לרבי אליעזר - והעבירוהו מדעתו כמו שטף מים, והעמידוהו בשיטה שלהן דאין פותחין בנולד, דאילו במסכת נדרים תנן בפ' רבי אליעזר פותחין בנולד דברי ר"א וחכמים אוסרין

Rashi explica a expressão talmúdica de que os sábios "arrastaram" Rabi Eliezer para sua posição: embora em Massechet Nedarim Rabi Eliezer sustente, em disputa com os demais sábios, que se pode abrir um voto com base em fato novo, aqui em Massechet Nazir ele parece concordar tacitamente com a maioria, sem manter sua posição individual — o que os comentadores da Guemará entendem como um recuo silencioso diante da posição consolidada dos demais sábios.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 5:4
מבואר הוא כי מה שאמר בכאן בהמתו ר"ל שלש בהמות המחוייבות לו... ומאמר חכמים כשחרב בית המקדש אינו נזיר שמורה בלא ספק שהוא אינו צריך הפרה לפי שלא חל עליו הנזירות

Rambam observa que a palavra "seu animal", no primeiro caso da mishná, refere-se tecnicamente aos três animais que todo nazireu deve trazer ao final de seu voto — um pelo pecado, um pela oferenda de subida e um pela oferenda de paz — ainda que a mishná fale no singular por simplicidade. E confirma que a conclusão final dos sábios significa que quem fez o voto após a destruição do Templo nunca teve nezirut válida, sem necessidade de qualquer processo formal de anulação.

Bartenura · רע"ב
Nazir 5:4
וְזוֹ טָעוּת טָעָה נַחוּם הַמָּדִי, שֶׁכְּשֶׁעָלוּ נְזִירִים מִן הַגּוֹלָה וּמָצְאוּ בֵית הַמִּקְדָּשׁ חָרֵב, וְהֵם נָדְרוּ קֹדֶם שֶׁחָרַב הַבַּיִת, וְהִתִּיר לָהֶן, וְאָמְרוּ לוֹ חֲכָמִים דְּנוֹלָד הוּא וְאֵין פּוֹתְחִין בְּנוֹלָד. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Bartenura resume o episódio de forma direta e confirma a decisão final: os nazireus haviam feito seus votos antes da destruição do Templo — o que, segundo a regra da mishná, deveria mantê-los como nazireus válidos —, mas Nachum, o Medo, ainda assim os liberou, cometendo o erro de tratar a destruição do Templo, um fato que ainda não existia no momento do voto, como fundamento válido de anulação. Os sábios corrigiram esse erro, e a halachá prática segue a posição dos sábios, não a de Nachum.