Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Hei · Mishná 5 de 7

O nazireado condicional diante do desconhecido: três opiniões

הָיוּ מְהַלְּכִין בַּדֶּרֶךְ וְאֶחָד בָּא כְנֶגְדָּן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná apresenta um cenário elaborado de votos condicionados à identidade de um desconhecido, estendendo ao próprio nazireado a disputa sobre engano vista nas mishnayot anteriores em relação à consagração.

Iam pelo caminho, e alguém veio ao encontro deles. Disse um deles: "eis que sou nazireu se este é fulano"; e outro disse: "eis que sou nazireu se este não é fulano" — "eis que sou nazireu se um de vocês é nazireu", "se nenhum de vocês é nazireu", "se ambos vocês são nazireus", "se todos vocês são nazireus".Vários companheiros caminhavam juntos quando avistaram uma pessoa se aproximando, cuja identidade não conseguiam determinar com certeza à distância. Um deles apostou seu nazireado na afirmação de que o desconhecido era certa pessoa conhecida; outro apostou o seu na afirmação contrária. Em seguida, outros companheiros do grupo fizeram votos ainda mais complexos, condicionando seu próprio nazireado não à identidade do desconhecido, mas ao fato de um, nenhum, dois ou todos os primeiros dois terem se tornado nazireus com suas apostas.

הָיוּ מְהַלְּכִין בַּדֶּרֶךְ וְאֶחָד בָּא כְנֶגְדָּן, אָמַר אֶחָד מֵהֶן הֲרֵינִי נָזִיר שֶׁזֶּה פְלוֹנִי, וְאֶחָד אָמַר הֲרֵינִי נָזִיר שֶׁאֵין זֶה פְלוֹנִי, הֲרֵינִי נָזִיר שֶׁאֶחָד מִכֶּם נָזִיר, שֶׁאֵין אֶחָד מִכֶּם נָזִיר, שֶׁשְּׁנֵיכֶם נְזִירִים, שֶׁכֻּלְּכֶם נְזִירִים.
A mishná apresenta as três posições sobre esse enredado conjunto de votos condicionais.

Beit Shammai dizem: todos são nazireus. E Beit Hilel dizem: não é nazireu senão aquele cujas palavras não se confirmaram. E Rabi Tarfon diz: nenhum deles é nazireu.Beit Shammai, coerentes com sua posição de que consagração — e, por extensão, nazireado — por engano é válida, consideram todos os participantes efetivamente nazireus, sejam quais forem os fatos reais sobre a identidade do desconhecido. Beit Hilel distinguem: apenas aquele cuja aposta específica falhou — isto é, cuja condição que o livraria do nazireado não se confirmou na realidade — torna-se de fato nazireu, e não aquele cuja aposta se confirmou como verdadeira, pois este nunca teve a intenção séria de assumir o voto, apenas de afirmar um fato do qual já estava certo. Rabi Tarfon, por sua vez, sustenta que nenhum voto condicionado dessa forma incerta chega a valer, pois o nazireado exige clareza e determinação (hafla'ah) no momento do voto, e nenhum dos participantes tinha certeza, no instante em que falou, se seu voto se realizaria ou não.

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים כֻּלָּם נְזִירִים. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, אֵינוֹ נָזִיר אֶלָּא מִי שֶׁלֹּא נִתְקַיְּמוּ דְבָרָיו. וְרַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר, אֵין אֶחָד מֵהֶם נָזִיר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A disputa sobre nazireado condicional remonta ao mesmo versículo que institui o voto de nazireado, cuja palavra "extraordinário" (יַפְלִא) é a base do argumento de Rabi Tarfon.

Bemidbar (Números) 6:2
אִישׁ אוֹ אִשָּׁה כִּי יַפְלִא לִנְדֹּר נֶדֶר נָזִיר לְהַזִּיר לַה'
Um homem ou uma mulher, quando fizer um voto extraordinário, o voto de nazireu, para se consagrar ao Eterno.

Rabi Tarfon lê a palavra "יַפְלִא" (extraordinário, ou "que distinga claramente") como uma exigência de que o nazireado seja assumido com plena clareza e determinação — hafla'ah — e não em meio à incerteza sobre um fato desconhecido. Segundo essa leitura, nenhum dos votos condicionais desta mishná satisfaz esse requisito, pois todos foram feitos sem que o próprio declarante soubesse, no momento de falar, se seu voto de fato se realizaria. Beit Shammai e Beit Hilel, por sua vez, não exigem esse grau de certeza subjetiva, e fundamentam suas posições na mesma lógica geral da consagração por engano discutida nas mishnayot anteriores deste perek.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece a lógica precisa de Beit Hilel, e confirma que a halachá não segue Rabi Tarfon.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 5:5
וב"ה אומר שכל מי שלא נתקיים מדבריו דבר שיצילהו מן הנזירות הוא המחייבו בנזירות, לפיכך אם אמר הריני נזיר שזה פלוני אם נתקיימו דבריו והרי הוא פלוני חל עליו הנזירות, ואם אמר הריני נזיר שאין זה פלוני ונמצא שלא היה אותו פלוני שלא נתקיימו דבריו כדי שינצל מן הנזירות חל עליו הנזירות... ואין הלכה כרבי טרפון

Rambam explica a posição de Beit Hilel com precisão: quem disse "sou nazireu se este é fulano" e de fato era fulano, seu nazireado se confirma normalmente, pois ele efetivamente apostou corretamente sobre algo que se tornou nazireado válido. Já quem disse "sou nazireu se este NÃO é fulano" — pretendendo, com essa fórmula, escapar do nazireado por estar confiante de que era mesmo fulano — mas descobre que na verdade não era fulano, vê suas palavras "não se confirmarem" no sentido de que a condição que o livraria do voto falhou, e por isso se torna nazireu. Rambam confirma, por fim, que a halachá segue Beit Hilel, e não Rabi Tarfon.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre o nazireado condicionado à identidade de um desconhecido.

Rashi · רש״י
Nazir 31b, s.v. ואחד בא כנגדן
ואחד בא כנגדן - ופתח אחד מהללו השנים ואמר הריני נזיר שזה פלוני, כלומר הריני נזיר אם זה איש פלוני, ודאי אינו איש פלוני; ואחד אומר הריני נזיר אם אין זה פלוני... בש"א כולם נזירים, הואיל ואין לך אחד מהן שלא אמר הריני נזיר, ואע"פ שכולן טועין שהיו סבורין שאינו כמו שהן אומרים

Rashi descreve passo a passo a cadeia de declarações do grupo, e explica a posição de Beit Shammai: uma vez que cada um dos participantes de fato pronunciou as palavras "eis que sou nazireu", o voto se aplica a todos eles indistintamente, mesmo que a maioria estivesse enganada quanto à realidade que motivou sua fórmula condicional — pois, para Beit Shammai, um voto pronunciado por engano ainda assim é válido.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 5:5
ב"ש אומרים כולן נזירין, ר"ל מי שנתקיימו דבריו ומי שלא נתקיימו דבריו כולם חל עליהם הנזירות, לפי כמו שהקדש טעות אצלם הקדש כך נזירות בטעות נזירות; ור"ט אומר שכל אחד ואחד מהם לא פסק הדבר ולא אמרו אלא לפי כח המחשבה ולא חייב עצמו בזה הנדר חיוב גמור

Rambam confirma que a posição de Beit Shammai nesta mishná decorre diretamente do mesmo princípio das mishnayot anteriores: assim como consagração por engano é consagração válida para eles, também nazireado por engano é nazireado válido. E explica a posição de Rabi Tarfon: cada participante falou apenas "segundo o poder do pensamento" — isto é, especulando sobre uma possibilidade sem afirmá-la com certeza — e por isso nenhum deles se comprometeu de fato, com obrigação plena, ao voto que pronunciou.

Bartenura · רע"ב
Nazir 5:5
רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר אֵין אֶחָד מֵהֶם נָזִיר. דְּסָבַר רַבִּי טַרְפוֹן אֵין נְזִירוּת אֶלָּא לְהַפְלָאָה, כְּלוֹמַר שֶׁיְּהֵא בָּרוּר וְיָדוּעַ לוֹ בִּשְׁעַת נִדְרוֹ שֶׁיְּהֵא נָזִיר, וְכָל הָנֵי לֹא הָיָה יָדוּעַ לוֹ בִּשְׁעַת נִדְרוֹ שֶׁיִּהְיֶה כִדְבָרָיו. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי טַרְפוֹן

Bartenura explica que a base textual da posição de Rabi Tarfon é a palavra "יַפְלִא" do versículo que institui o nazireado, entendida como exigência de clareza plena, no momento do voto, sobre o fato de que se está de fato assumindo o nazireado — condição que nenhum dos votos condicionais desta mishná satisfaz, já que todos foram pronunciados sem saber se as palavras se confirmariam. E confirma que a halachá não segue Rabi Tarfon, mas sim Beit Hilel.