Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Vav · Mishná 6 de 11

A tosquia por impureza: por que a purificação do nazireu difere da do leproso

תִּגְלַחַת הַטֻּמְאָה כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná detalha o procedimento da tosquia do nazireu que se impurificou por contato com um morto, e registra o questionamento de Rabi Tarfon a Rabi Akiva sobre por que esse caso difere do procedimento paralelo do leproso.

Como é a tosquia da impureza? Ele aspergia no terceiro e no sétimo dia, tosquiava no sétimo, e trazia seus sacrifícios no oitavo. E se tosquiou no oitavo, traz seus sacrifícios naquele mesmo dia — palavras de Rabi Akiva. Disse-lhe Rabi Tarfon: qual a diferença entre este e o leproso? Disse-lhe: este, sua pureza depende de seus dias, e o leproso, sua pureza depende de sua tosquia, e ele não traz sacrifício a menos que o sol já tenha se posto sobre ele.O procedimento de purificação do nazireu impurificado envolve aspersão da água de purificação no terceiro e no sétimo dia após o contato com o morto; no sétimo dia ele também tosquia o cabelo, e no oitavo dia traz os sacrifícios exigidos. Rabi Akiva acrescenta que, se por algum motivo a tosquia foi adiada e ocorreu apenas no oitavo dia, ainda assim ele pode trazer os sacrifícios nesse mesmo dia, sem esperar mais. Rabi Tarfon questiona essa leniência, comparando-a ao caso análogo do leproso purificado, cuja lei exige que se aguarde até o pôr do sol após a tosquia para trazer os sacrifícios. Rabi Akiva responde apontando a diferença estrutural entre os dois casos: a pureza do nazireu depende inteiramente da contagem dos dias — no sétimo dia, com a aspersão e o mergulho ritual, ele já está puro, independentemente de quando tosquia —, enquanto a pureza do leproso depende especificamente do próprio ato da tosquia, de modo que, se ele tosquia apenas no oitavo dia, ainda precisa aguardar o entardecer daquele dia para se considerar puro, adiando seus sacrifícios para o dia seguinte.

תִּגְלַחַת הַטֻּמְאָה כֵּיצַד, הָיָה מַזֶּה בַּשְּׁלִישִׁי וּבַשְּׁבִיעִי, וּמְגַלֵּחַ בַּשְּׁבִיעִי, וּמֵבִיא קָרְבְּנוֹתָיו בַּשְּׁמִינִי. וְאִם גִּלַּח בַּשְּׁמִינִי, מֵבִיא קָרְבְּנוֹתָיו בּוֹ בַיּוֹם, דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא. אָמַר לוֹ רַבִּי טַרְפוֹן, מַה בֵּין זֶה לַמְּצֹרָע. אָמַר לוֹ, זֶה טָהֳרָתוֹ תְלוּיָה בְיָמָיו, וּמְצֹרָע טָהֳרָתוֹ תְלוּיָה בְתִגְלַחְתּוֹ, וְאֵינוֹ מֵבִיא קָרְבָּן אֶלָּא אִם כֵּן הָיָה מְעֹרַב שָׁמֶשׁ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O procedimento de purificação do nazireu impurificado, com sua sequência específica de aspersão, tosquia e sacrifícios, está detalhado na própria passagem sobre o nazireado.

Bemidbar (Números) 6:9-11
וְגִלַּח רֹאשׁוֹ בְּיוֹם טָהֳרָתוֹ בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי יְגַלְּחֶנּוּ. וּבַיּוֹם הַשְּׁמִינִי יָבִא שְׁתֵּי תֹרִים אוֹ שְׁנֵי בְנֵי יוֹנָה
E tosquiará sua cabeça no dia de sua purificação — no sétimo dia a tosquiará. E no oitavo dia trará duas rolas ou dois pombinhos.

O texto bíblico associa a tosquia ao sétimo dia e a trazida dos sacrifícios ao oitavo, sem estabelecer explicitamente uma dependência causal entre os dois atos — e é justamente sobre essa aparente independência textual entre tosquia e sacrifício que se apoia a resposta de Rabi Akiva a Rabi Tarfon, contrastando-a com a passagem paralela sobre o leproso, que liga expressamente a purificação à própria tosquia.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam detalha os sacrifícios trazidos no oitavo dia e explica a lógica da resposta de Rabi Akiva.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 6:6
וכשטבל בשביעי והעריב שמשו וגלח בשמיני יביא קרבנותיו והם שתי תורים או שני בני יונה וכבש בן שנתו לאשם בשמיני ואם לא טבל בשביעי אלא בשמיני הרי זה לא יביא קרבנותיו עד שיעריב שמשו רוצה לומר בתשיעי... והלכה כר"ע

Rambam detalha os sacrifícios trazidos: duas rolas ou dois pombinhos, e um cordeiro de um ano para sacrifício de culpa. E esclarece o mecanismo temporal: se o nazireu mergulhou no sétimo dia e aguardou o pôr do sol, pode trazer seus sacrifícios no oitavo mesmo que só tosquie nesse dia; mas se atrasou o próprio mergulho para o oitavo dia, só poderá trazer seus sacrifícios no dia seguinte, o nono, após novo entardecer. A halachá segue Rabi Akiva.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Nazir 44b, s.v. מתני' תגלחת טומאה כיצד
מַתְנִיתִין תִּגְלַחַת טֻמְאָה כֵּיצַד הָיָה מַזֶּה בַּשְּׁלִישִׁי וּבַשְּׁבִיעִי - וְאַחַר כָּךְ הָיָה טוֹבֵל, שֶׁכָּךְ חוֹבָה עַל הַמַּזֶּה מֵי חַטָּאת כִּדְמְפָרֵשׁ בְּהוּ קְרָא

Rashi esclarece que, após a aspersão da água de purificação no terceiro e no sétimo dia, o nazireu ainda precisa mergulhar em água ritual — uma exigência que a própria passagem bíblica sobre a água de purificação especifica para quem foi aspergido com ela, e que é pressuposta pela mishná antes de detalhar tosquia e sacrifícios.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 6:6
מה בין זה למצורע לפי שהמצורע אינו מביא קרבנותיו אלא ממחרת יום התגלחת השניה כמו שנבאר במס' נגעים

Rambam explica a pergunta de Rabi Tarfon: no caso do leproso, ensinado no tratado de Negaim, os sacrifícios só podem ser trazidos no dia seguinte à segunda tosquia — nunca no mesmo dia dela —, o que tornava natural perguntar por que o nazireu, aparentemente em situação análoga, poderia trazer seus sacrifícios no próprio dia da tosquia.

Bartenura · רע״ב
Nazir 6:6
אָמַר לוֹ שֶׁזֶּה טָהֳרָתוֹ תְלוּיָה בְיָמָיו. נָזִיר טָהֳרָתוֹ תְּלוּיָה בְּהַזָּאַת שְׁלִישִׁי וּשְׁבִיעִי וּטְבִילָה, הִלְכָּךְ כֵּיוָן שֶׁטָּהַר בַּשְּׁבִיעִי אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא גִּלַּח עַד יוֹם הַשְּׁמִינִי, מֵבִיא קָרְבְּנוֹתָיו בּוֹ בַיּוֹם

Bartenura explica com clareza a distinção central: a pureza do nazireu se completa com a aspersão nos dias terceiro e sétimo, somada ao mergulho ritual — de modo que ele já está puro no sétimo dia, independentemente de quando venha a tosquiar. Já a pureza do leproso está diretamente condicionada ao ato da tosquia em si, de modo que, se esta é adiada, a purificação também o é, junto com a possibilidade de trazer os sacrifícios.