Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Bet · Mishná 3 de 5

Voto dentro de voto: por que o nazireado se acumula e o juramento não

יֵשׁ נֶדֶר בְּתוֹךְ נֶדֶר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná, curta e densa, estabelece uma diferença estrutural fundamental: o voto pode se sobrepor a outro voto já existente, acumulando obrigações separadas, enquanto o juramento não pode se sobrepor a outro juramento, permanecendo como um único ato.

Há voto dentro de voto, mas não há juramento dentro de juramento. Como assim? Disse: eis que sou nazireu se eu comer, eis que sou nazireu se eu comer — e comeu — está obrigado por cada um separadamente. Juramento que eu não comerei, juramento que eu não comerei — e comeu — não está obrigado senão uma vez.A mishná trata do caso de quem repete a mesma formulação de proibição duas ou mais vezes antes de violá-la. Com o voto de nazireado — "eis que sou nazireu se eu comer" —, cada repetição cria uma obrigação nova e independente, de modo que, quando a pessoa finalmente come, ela se torna responsável por múltiplos períodos de nazireado, um para cada vez que formulou o voto, com múltiplas oferendas ao final de cada um. Já com o juramento — "juramento que eu não comerei" — repetir a fórmula não cria uma nova obrigação: a segunda formulação simplesmente reafirma a primeira, sem acrescentar nada, e por isso, ao comer, a pessoa infringe um único juramento, recebendo um único castigo. A razão estrutural é que o segundo voto de nazireado recai sobre uma pessoa que, tecnicamente, "ainda não é nazireu" até que o primeiro período se complete e ela traga sua oferenda — havendo, portanto, espaço para o segundo voto se sobrepor; já o segundo juramento recai sobre uma pessoa já plenamente vinculada pelo primeiro, sem nada de novo a acrescentar.

יֵשׁ נֶדֶר בְּתוֹךְ נֶדֶר, וְאֵין שְׁבוּעָה בְּתוֹךְ שְׁבוּעָה. כֵּיצַד, אָמַר הֲרֵינִי נָזִיר אִם אֹכַל, הֲרֵינִי נָזִיר אִם אֹכַל, וְאָכַל, חַיָּב עַל כָּל אַחַת וְאֶחָת. שְׁבוּעָה שֶׁלֹּא אֹכַל, שְׁבוּעָה שֶׁלֹּא אֹכַל, וְאָכַל, אֵינוֹ חַיָּב אֶלָּא אֶחָת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O voto de nazireado que se acumula encontra sua base no versículo que institui o próprio instituto do nazireado como um voto especial, distinto e separado, que a pessoa "vota" a cada vez que o formula.

Bamidbar (Números) 6:2
אִישׁ אוֹ אִשָּׁה כִּי יַפְלִא לִנְדֹּר נֶדֶר נָזִיר, לְהַזִּיר לַה'
Um homem ou uma mulher, quando fizer um voto extraordinário de nazireu, para se consagrar ao Eterno.

O versículo trata o nazireado como um "voto" (nêder) autônomo, distinto de outros votos, o que permite que cada nova formulação — "eis que sou nazireu" — institua um período de consagração próprio, mesmo que sobreposto a um voto anterior ainda não cumprido. Diferentemente do juramento, que recai sobre a pessoa e a mantém presa a um único compromisso já assumido, cada voto de nazireado "vota" um novo status de consagração, e por isso a pessoa pode acumular tantos períodos de nazireado quantas vezes tiver formulado o voto antes de violá-lo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, detalha como se cumprem, na prática, os múltiplos períodos de nazireado acumulados, e por que o juramento repetido não gera senão uma única transgressão.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 2:3
חַיָּב עַל כָּל אַחַת וְאֶחָת הוּא שֶׁיִּהְיֶה נָזִיר שְׁלֹשִׁים יוֹם, אִי אָמַר נָזִיר סְתָם כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר, אוֹ הַזְּמַן שֶׁקָּצַב, וְיָבִיא קָרְבַּן נָזִיר, עוֹד יִתְחַיֵּב בַּשְּׁנִיָּה וְיָבִיא קָרְבָּן, וּכְמוֹ כֵן הַשְּׁלִישִׁית וְהָרְבִיעִית

Rambam explica que quem se compromete várias vezes seguidas com "eis que sou nazireu se eu comer" e depois come deve cumprir um período de nazireado de trinta dias — caso tenha dito "nazireu" sem especificar prazo — ou o prazo específico que tiver mencionado, trazendo a oferenda de nazireu ao final; concluído esse primeiro período, ele se torna obrigado a cumprir o segundo período completo, com sua própria oferenda, e assim sucessivamente para a terceira e a quarta vez que tiver formulado o voto, até esgotar todas as vezes que disse a fórmula. Sobre o juramento, Rambam observa que a própria mishná, ao dizer apenas "não está obrigado senão uma vez" — e não "eis que se trata de um único juramento" —, indica que, caso a pessoa consulte um sábio e seja liberada do primeiro juramento antes de comer, o segundo juramento permanece plenamente vinculante, e o mesmo vale para um terceiro, se o segundo também tiver sido liberado: cada juramento continua tecnicamente distinto, mesmo que, ao comer uma única vez sem qualquer liberação prévia, a pessoa transgrida apenas um deles.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam detalha o cumprimento sequencial dos períodos de nazireado; Bartenura explica por que, tecnicamente, os juramentos repetidos continuam distintos entre si mesmo gerando apenas uma transgressão; Rashi, sobre a Guemará, discute a base talmúdica que confirma a validade do segundo voto de nazireado.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 2:3
וְאָמְרוּ בִּשְׁבוּעָה אֵינוֹ חַיָּב אֶלָּא אַחַת, שֶׁהוּא לוֹקֶה מַלְקוּת אַחַת בִּלְבָד, אֲבָל אִם נִשְׁאַל לְחָכָם וְהֻתְּרָה לוֹ שְׁבוּעָה רִאשׁוֹנָה, יִשָּׁאֵר הַדָּבָר שֶׁנִּשְׁבַּע עָלָיו אָסוּר מִצַּד הַשְּׁבוּעָה הַשְּׁנִיָּה

Rambam retoma aqui a explicação de que, embora a violação de vários juramentos idênticos gere apenas uma pena, os juramentos permanecem, cada um, tecnicamente vigentes até serem individualmente anulados por um sábio: se a pessoa pedir a anulação apenas do primeiro juramento, o alimento continua proibido por força do segundo, que segue intacto; e se pedir também a anulação do segundo, o terceiro (caso exista) ainda o mantém proibido, e assim por diante, até que todos os juramentos idênticos tenham sido individualmente liberados. É exatamente essa sutileza, nota Rambam, que a mishná sinaliza ao evitar dizer "eis que se trata de uma única obrigação de juramento" e preferir a formulação mais cautelosa "não está obrigado senão uma vez" — que se refere apenas à pena por comer, não à contagem formal dos juramentos.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 2:3
חַיָּב עַל כָּל אַחַת וְאֶחָת. וְיִהְיֶה נָזִיר שְׁלֹשִׁים יוֹם אִם אָמַר הֲרֵינִי נָזִיר סְתָם, וְיָבִיא קָרְבַּן נָזִיר, וְיַחֲזֹר לִהְיוֹת נָזִיר כְּמִסְפַּר הַפְּעָמִים שֶׁאָמַר שֶׁיִּהְיֶה נָזִיר. וּבִשְׁבוּעָה אֵינוֹ חַיָּב אֶלָּא אַחַת, שֶׁאֵינוֹ לוֹקֶה אֶלָּא מַלְקוּת אַחַת

Bartenura confirma a leitura de Rambam quanto ao nazireado, precisando que a pessoa deve cumprir, sucessivamente, um período completo de trinta dias — ou o prazo específico mencionado — para cada uma das vezes que declarou o voto, trazendo a respectiva oferenda a cada conclusão. Sobre o juramento, Bartenura enfatiza a leitura literal da mishná: "não está obrigado senão uma vez" refere-se apenas à pena de açoites por comer, mas se a pessoa for consultar um sábio sobre o primeiro juramento e obtiver sua anulação, a proibição do alimento permanece de pé por força do segundo juramento, que ainda não foi anulado — e assim também se for consultado sobre o segundo, permanece por força do terceiro, até que todos tenham sido individualmente liberados. É essa sutileza que explica por que a mishná evita dizer "eis que se trata de um único juramento".

Rashi · רש"י
Nedarim 17b-18a
וְתִיּוּבְתָּא דְּרַב הוּנָא — דְּמִדְּקָתָנֵי עָלְתָה לוֹ שְׁנִיָּה בָּרִאשׁוֹנָה, מִכְּלָל דִּנְזִירוּת שְׁנִיָּה נַמִּי חַיְּלָא עֲלֵיהּ

Rashi discute, sobre a Guemará desta mishná, a posição de Rav Huná, que sustentava que o segundo voto de nazireado formulado por quem já está em nazireado não recairia de fato — sendo apenas uma repetição vazia da primeira, sem efeito próprio. Rashi mostra que a linguagem da própria fonte tanaítica citada pela Guemará — "a segunda contou-se para ele dentro da primeira" — implica precisamente o oposto: se a segunda declaração de nazireado "conta" e se soma à primeira (ainda que os dias se sobreponham no tempo), isso prova que a segunda nazireut de fato recaiu sobre a pessoa como um voto autônomo e válido, refutando a posição de Rav Huná. É essa mesma lógica de sobreposição — o segundo voto recaindo genuinamente sobre quem já está sob o primeiro — que sustenta o princípio "há voto dentro de voto" desta mishná.