Votou em cherem e disse: não votei senão no cherem do mar. Em korban, e disse: não votei senão nos korbanot dos reis. Eis meu próprio corpo como korban, e disse: não votei senão em um osso que deixei para mim, para votar por ele. Konam, minha esposa não desfruta de mim, e disse: não votei senão em minha primeira esposa, que divorciei — sobre todos estes, não se pergunta a eles; e se perguntaram, punem-nos e são rigorosos com eles — palavras de Rabi Meir. Mas os sábios dizem: abrem-lhes uma porta por outro caminho, e os instruem, para que não tratem os votos com leviandade. — A mishná traz uma série de casos em que a pessoa vota usando uma palavra que naturalmente aponta para algo consagrado, mas depois alega que pretendia, na verdade, um sentido secular alternativo da mesma palavra: "cherem" pode significar tanto o anátema consagrado quanto uma rede de pesca ("o cherem do mar"); "korban" pode significar tanto o sacrifício quanto os presentes oferecidos a reis; votar o "próprio corpo como korban" pode ser reinterpretado como referência a um osso qualquer que a pessoa guardou para fins de voto; e "konam que minha esposa não desfruta de mim" pode ser reinterpretado como referência a uma esposa anterior já divorciada, e não a atual. Em todos esses casos, a interpretação natural e primeira das palavras é a que consagra ou proíbe; a reinterpretação alternativa, ainda que gramaticalmente possível, surge apenas depois, como tentativa de escapar da obrigação assumida. Rabi Meir considera essa tentativa tão grave que nem sequer permite que a pessoa consulte um sábio sobre ela — e se a consulta ocorrer mesmo assim, pune-se e trata-se o caso com rigor extra, como forma de dissuasão. Os sábios discordam dessa severidade: preferem buscar, para essas mesmas pessoas, uma porta legítima e diferente de arrependimento, ensinando-as a não tratar os votos com leviandade — mas sem punição ou rigor adicional além da halachá normal.
A gravidade de reinterpretar tardiamente um "cherem" já votado encontra fundamento no próprio versículo que trata do cherem consagrado como algo de santidade máxima, sem resgate possível — reforçando por que a palavra deve ser tomada em seu sentido natural e mais grave.
O versículo trata o cherem consagrado como "santidade das santidades", sem qualquer possibilidade de resgate ou reversão — o grau máximo de consagração previsto na Torá. É precisamente por essa gravidade que a mishná recusa a reinterpretação tardia de "cherem" como mera "rede de pesca": permitir que qualquer pessoa escape de um voto tão grave por meio de uma alegação de sentido alternativo, apresentada apenas depois de o voto já ter sido pronunciado, esvaziaria a força vinculante da palavra empenhada — o mesmo princípio de "conforme tudo o que saiu de sua boca fará" que sustenta toda a seção de votos sem explicação da mishná anterior.
Rambam, no Perush HaMishná, explica a diferença prática entre a posição de Rabi Meir e a dos sábios, e por que a halachá segue os sábios quanto ao tratamento dessas reinterpretações tardias.
Rambam esclarece que "sobre todos estes não se pergunta a eles" significa que, para um estudioso experiente que reconhece por si mesmo que a reinterpretação não se sustenta, não há necessidade sequer de consultar um sábio para saber que o voto original permanece vigente — a resposta já é evidente. Mas se um iletrado (am haaretz), que genuinamente não percebe a fraqueza de sua alegação, vier consultar um sábio buscando a anulação por essa via, a posição de Rabi Meir é recusar-lhe qualquer porta de arrependimento por esse caminho e, se ele mesmo assim tiver transgredido o voto original, tratá-lo com rigor e até puni-lo, como forma de desencorajar reinterpretações abusivas de outros. Os sábios discordam dessa dureza: mostram à pessoa que o voto original permanece vigente — recusando a reinterpretação alegada —, mas buscam-lhe, por um caminho diferente e legítimo, uma porta genuína de arrependimento, e a instruem para o futuro. Rambam conclui que a lei segue os sábios, não Rabi Meir.
Rambam distingue o tratamento do estudioso e do iletrado; Bartenura detalha o significado de "cherem do mar" e confirma que a halachá segue os sábios; Rashi, sobre a Guemará, discute a linguagem exata da mishná ao abrir a discussão sobre "votou em cherem".
Rambam explica que "cherem do mar" é a rede dos pescadores, citando o versículo de Chavakuk que descreve o pescador capturando com seu "cherem" (rede) e recolhendo em sua "michmeret" (rede de arrasto) — mostrando que a palavra "cherem" tem, de fato, um uso secular legítimo na própria linguagem bíblica, o que torna a alegação tecnicamente plausível, mas ainda assim inaceitável como explicação tardia de um voto já pronunciado. Sobre "eis meu próprio corpo como korban", Rambam esclarece que se trata de alguém que diz a outra pessoa "meu corpo é korban sobre ti", de modo que fica proibido a esse outro desfrutar dele — e que a tentativa de reinterpretar essa fórmula solene como referência a um simples osso guardado é ainda mais implausível que as demais.
Bartenura confirma que "cherem do mar" é linguagem de rede de pesca, citando o mesmo uso em Kohelet ("armadilhas e redes"). Sobre "não se pergunta a eles", explica que a razão é dupla: por um lado, para o entendido, a resposta já é óbvia sem necessidade de consulta; e a interpretação alegada, de qualquer forma, simplesmente não é aceita como válida — o voto original permanece de pé. Bartenura enfatiza a posição final dos sábios: eles mostram à pessoa que seu voto original está de pé, recusando a reinterpretação, mas buscam-lhe uma porta legítima e diferente para a anulação, sem qualquer punição ou rigor adicional. E confirma que a halachá segue essa posição dos sábios, encerrando o Perek Bet com a nota de moderação que caracteriza a abordagem geral do tratado em relação a quem busca escapar, com sinceridade, de um voto mal formulado.
Rashi explica o caso de abertura da mishná: a pessoa disse, sobre um objeto específico, "este objeto é cherem sobre mim" — uma fórmula clara de consagração —, e só depois, ao ser confrontada, alega que na verdade se referia à rede usada para pescar peixes, e não a um cherem consagrado de fato. Rashi explica igualmente "korbanot de reis" como os presentes e tributos que se oferecem diante de reis — um uso da palavra "korban" no sentido comum de "presente" ou "oferenda a um poderoso", distinto do sacrifício religioso. Em ambos os casos, nota Rashi, a leitura natural e primeira da palavra no momento em que foi pronunciada é a que prevalece, e a reinterpretação alternativa, ainda que linguisticamente possível em outros contextos, chega tarde demais para desfazer o voto já assumido.