Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Guimel · Mishná 8 de 11

Quem vota contra "os de cabeça escura": calvos, idosos, mulheres e crianças

הַנּוֹדֵר מִשְּׁחוֹרֵי הָרֹאשׁ, אָסוּר בַּקֵּרְחִין וּבְבַעֲלֵי שֵׂיבוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Novo caso da mesma série: a expressão "de cabeça escura" (isto é, de cabelo escuro), designação idiomática comum para "os homens adultos" — e a mishná explica por que ela inclui calvos e grisalhos, mas exclui mulheres e crianças.

Quem vota contra os de cabeça escura está proibido com os calvos e os grisalhos, e permitido com as mulheres e as crianças, pois não se chamam "de cabeça escura" senão os homens."De cabeça escura" (shechorei harosh) é uma expressão idiomática hebraica para designar os homens adultos, jovens e de cabelo naturalmente escuro — mas, tal como no caso anterior dos videntes do sol, a mishná esclarece que a expressão não deve ser tomada em seu sentido cromático literal. Ela inclui também os calvos, que não têm cabelo algum, e os grisalhos, cujo cabelo já embranqueceu com a idade: em ambos os casos, a característica física exata (a cor ou a presença do cabelo) não é o critério relevante, mas sim a pertença à categoria social e etária mais ampla de "homem adulto", que a expressão evoca. Por outro lado, a expressão exclui as mulheres e as crianças — não porque não tenham cabelo escuro (muitas o têm), mas porque, na linguagem corrente, a expressão "de cabeça escura" nunca é usada para descrever mulheres ou crianças, apenas homens adultos, sejam eles calvos, grisalhos ou de fato com o cabelo escuro.

הַנּוֹדֵר מִשְּׁחוֹרֵי הָרֹאשׁ, אָסוּר בַּקֵּרְחִין וּבְבַעֲלֵי שֵׂיבוֹת, וּמֻתָּר בַּנָּשִׁים וּבַקְּטַנִּים, שֶׁאֵין נִקְרָאִין שְׁחוֹרֵי הָרֹאשׁ אֶלָּא אֲנָשִׁים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A distinção linguística entre categorias etárias e de gênero, e o costume de cobrir ou expor a cabeça, já aparece refletida na descrição bíblica de Avshalom, cuja cabeleira farta se tornou sua marca distintiva como homem.

Shmuel Bet (II Samuel) 14:26
וּבְגַלְּחוֹ אֶת רֹאשׁוֹ... וְגִלַּח אֹתוֹ, כִּי כָבֵד עָלָיו וְגִלְּחוֹ, וְשָׁקַל אֶת שְׂעַר רֹאשׁוֹ
E quando ele cortava o cabelo de sua cabeça... e o cortava, porque lhe pesava, e o cortava, e pesava o cabelo de sua cabeça.

A ênfase bíblica na cabeleira farta de Avshalom como traço distintivo e valorizado de sua masculinidade e vigor reflete o costume da época, em que os homens andavam frequentemente com a cabeça descoberta, tornando visível a cor e a densidade de seu cabelo, enquanto as mulheres cobriam a cabeça por costume e recato. É esse costume social que a mishná pressupõe ao explicar por que "de cabeça escura" só se aplica a homens: como os homens, ao contrário das mulheres, costumavam expor a cabeça, era pela cor do cabelo masculino que se reconhecia visualmente a idade e o vigor de alguém — daí a expressão ter-se tornado sinônimo idiomático de "homem adulto", independentemente de ele ser, de fato, calvo ou grisalho.

Halachot · הֲלָכוֹת

Na ausência de citação direta em Mishné Torá para este caso específico, Bartenura serve aqui de fonte halachica principal, explicitamente rotulado, explicando o costume social por trás da expressão.

Bartenura (como fonte halachica), Nedarim 3:8
שֶׁאֵין נִקְרָאִים שְׁחוֹרֵי הָרֹאשׁ אֶלָּא אֲנָשִׁים. לְפִי שֶׁהָאֲנָשִׁים פְּעָמִים מְכַסִּים רֹאשָׁם וּפְעָמִים מְגַלִּים, וּמִשַּׁחֲרוּת רֹאשָׁם נִכָּר שֶׁהֵם אֲנָשִׁים, אֲבָל נָשִׁים לְעוֹלָם הוֹלְכוֹת וְרֹאשָׁם מְכֻסֶּה

Bartenura explica o fundamento social e visual da expressão: os homens, por vezes cobrindo e por vezes descobrindo a cabeça, eram identificáveis justamente pela cor de seu cabelo quando exposto — daí a expressão ter-se consolidado como referência aos homens em geral. As mulheres, por outro lado, andavam sempre com a cabeça coberta, de modo que sua cor de cabelo nunca era visível ou relevante socialmente; e as crianças, tanto meninos quanto meninas, costumavam andar com a cabeça descoberta, mas sem que se pudesse distinguir entre os sexos apenas pela aparência infantil — por isso a expressão "de cabeça escura", cunhada a partir da observação social do cabelo masculino visível, nunca chegou a se aplicar a mulheres ou crianças, apenas aos homens adultos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, sobre a Guemará, confirma a mesma leitura da mishná, com foco na nuance gramatical que a sustenta.

Rashi · רש"י
Nedarim 30b
מַתְנִי' הַנּוֹדֵר מִשְּׁחוֹרֵי הָרֹאשׁ אָסוּר בַּקֵּרְחִים וּבְבַעֲלֵי שֵׂיבוֹת — דִּשְׁחוֹרֵי הָרֹאשׁ מַשְׁמַע שֶׁנּוֹדֵר מֵאוֹתָן שֶׁהָיוּ שְׁחוֹרֵי הָרֹאשׁ. וּמֻתָּר בַּנָּשִׁים — מְפֹרָשׁ בַּגְּמָרָא

Rashi confirma a lógica temporal implícita na expressão: "de cabeça escura" pressupõe uma referência histórica ou típica ao grupo de pessoas que, em algum momento de sua vida, tiveram a cabeça de cabelo escuro — categoria que inclui naturalmente os calvos e os grisalhos, que já foram jovens de cabelo escuro antes de perdê-lo ou de embranquecer. Rashi remete a explicação completa do motivo pelo qual as mulheres ficam excluídas ao desenvolvimento mais detalhado da Guemará, que aprofunda a distinção social entre os costumes masculinos e femininos quanto à cobertura da cabeça.