Quem vota contra os de cabeça escura está proibido com os calvos e os grisalhos, e permitido com as mulheres e as crianças, pois não se chamam "de cabeça escura" senão os homens. — "De cabeça escura" (shechorei harosh) é uma expressão idiomática hebraica para designar os homens adultos, jovens e de cabelo naturalmente escuro — mas, tal como no caso anterior dos videntes do sol, a mishná esclarece que a expressão não deve ser tomada em seu sentido cromático literal. Ela inclui também os calvos, que não têm cabelo algum, e os grisalhos, cujo cabelo já embranqueceu com a idade: em ambos os casos, a característica física exata (a cor ou a presença do cabelo) não é o critério relevante, mas sim a pertença à categoria social e etária mais ampla de "homem adulto", que a expressão evoca. Por outro lado, a expressão exclui as mulheres e as crianças — não porque não tenham cabelo escuro (muitas o têm), mas porque, na linguagem corrente, a expressão "de cabeça escura" nunca é usada para descrever mulheres ou crianças, apenas homens adultos, sejam eles calvos, grisalhos ou de fato com o cabelo escuro.
A distinção linguística entre categorias etárias e de gênero, e o costume de cobrir ou expor a cabeça, já aparece refletida na descrição bíblica de Avshalom, cuja cabeleira farta se tornou sua marca distintiva como homem.
A ênfase bíblica na cabeleira farta de Avshalom como traço distintivo e valorizado de sua masculinidade e vigor reflete o costume da época, em que os homens andavam frequentemente com a cabeça descoberta, tornando visível a cor e a densidade de seu cabelo, enquanto as mulheres cobriam a cabeça por costume e recato. É esse costume social que a mishná pressupõe ao explicar por que "de cabeça escura" só se aplica a homens: como os homens, ao contrário das mulheres, costumavam expor a cabeça, era pela cor do cabelo masculino que se reconhecia visualmente a idade e o vigor de alguém — daí a expressão ter-se tornado sinônimo idiomático de "homem adulto", independentemente de ele ser, de fato, calvo ou grisalho.
Na ausência de citação direta em Mishné Torá para este caso específico, Bartenura serve aqui de fonte halachica principal, explicitamente rotulado, explicando o costume social por trás da expressão.
Bartenura explica o fundamento social e visual da expressão: os homens, por vezes cobrindo e por vezes descobrindo a cabeça, eram identificáveis justamente pela cor de seu cabelo quando exposto — daí a expressão ter-se consolidado como referência aos homens em geral. As mulheres, por outro lado, andavam sempre com a cabeça coberta, de modo que sua cor de cabelo nunca era visível ou relevante socialmente; e as crianças, tanto meninos quanto meninas, costumavam andar com a cabeça descoberta, mas sem que se pudesse distinguir entre os sexos apenas pela aparência infantil — por isso a expressão "de cabeça escura", cunhada a partir da observação social do cabelo masculino visível, nunca chegou a se aplicar a mulheres ou crianças, apenas aos homens adultos.
Rashi, sobre a Guemará, confirma a mesma leitura da mishná, com foco na nuance gramatical que a sustenta.
Rashi confirma a lógica temporal implícita na expressão: "de cabeça escura" pressupõe uma referência histórica ou típica ao grupo de pessoas que, em algum momento de sua vida, tiveram a cabeça de cabelo escuro — categoria que inclui naturalmente os calvos e os grisalhos, que já foram jovens de cabelo escuro antes de perdê-lo ou de embranquecer. Rashi remete a explicação completa do motivo pelo qual as mulheres ficam excluídas ao desenvolvimento mais detalhado da Guemará, que aprofunda a distinção social entre os costumes masculinos e femininos quanto à cobertura da cabeça.