Aquele que foi votado a não desfrutar de seu companheiro e não tem o que comer, vai até o mercador e diz: fulano está votado a não desfrutar de mim, e eu não sei o que fazer; e ele lhe dá, e este vem e recebe daquele. Tinha sua casa por construir, sua cerca por cercar, seu campo por colher, vai até os trabalhadores e diz: fulano está votado a não desfrutar de mim, e eu não sei o que fazer. Eles trabalham com ele, e vêm e recebem o pagamento daquele. — A mishná apresenta uma solução engenhosa para uma situação de necessidade real: o votado precisa de comida ou de serviços, mas a fonte natural desses recursos — seu companheiro — está proibida a ele pelo voto. Em vez de proibir totalmente a solução, a mishná ensina um mecanismo de três partes: o votado vai a um terceiro (o mercador ou os trabalhadores) e declara publicamente sua situação — "fulano está votado a não desfrutar de mim" —, tornando claro que ele não está pedindo um favor ao próprio votante, mas apenas informando um fato; o terceiro então lhe entrega a mercadoria ou presta o serviço por sua própria conta, como um empréstimo ou trabalho independente; e só depois é que o companheiro votante, se assim desejar, vem e paga ao mercador ou aos trabalhadores diretamente, sem que o dinheiro ou o pagamento jamais passe pelas mãos do votado. Dessa forma, o votado nunca recebe literalmente nada do companheiro — ele recebeu do mercador ou dos trabalhadores, que por sua vez foram reembolsados pelo votante — e a letra do voto permanece intacta, mesmo que seu efeito prático seja o sustento do votado às custas do votante.
O princípio de que uma pessoa deve declarar sua situação com transparência antes de receber ajuda — evitando qualquer aparência de estar violando seu próprio voto — ecoa o valor bíblico da retidão nos negócios e da clareza nas relações entre as pessoas.
"Não profanará sua palavra" exige que o votante cumpra seu voto com precisão literal — nem mais nem menos do que ele disse —, e é exatamente essa exigência de precisão que torna necessário, na mishná, o mecanismo indireto do mercador e dos trabalhadores. O votado não pode simplesmente receber comida ou serviços diretamente do companheiro, pois isso violaria a letra do voto; mas, ao declarar publicamente sua situação diante de um terceiro e deixar que o pagamento circule por outras mãos, ele assegura que a palavra do voto permaneça intacta, "conforme tudo o que saiu de sua boca", sem que isso o condene à fome ou à ruína material.
Rambam, no Perush HaMishná, situa este mecanismo dentro do mesmo princípio geral já estabelecido a respeito de pagar a dívida do companheiro: quitar uma obrigação de terceiros, sem entregar nada diretamente ao votado, não constitui desfrute.
Rambam liga explicitamente esta mishná ao princípio já estabelecido na segunda mishná do capítulo, sobre pagar a dívida do companheiro: uma vez que o mercador entregou a mercadoria e os trabalhadores prestaram o serviço, eles se tornam credores do votado — não mais do votante —, e quando o votante depois lhes paga, ele está simplesmente quitando uma dívida alheia, exatamente como no caso do shekel ou de qualquer outra dívida. Não há, em nenhum momento, transferência direta de bens do votante para o votado; por isso o mecanismo é permitido sem reservas.
Rashi, na Guemará (Nedarim 48a), analisa a estrutura do texto talmúdico desta mishná e a relação entre a declaração pública e o mecanismo de pagamento; Bartenura esclarece os limites do consentimento do votado.
Rashi observa que o conteúdo desta mishná já havia sido citado anteriormente na Guemará, em outro contexto (daf 43), mas apenas como prova textual para uma discussão sobre hefker relacionada à opinião de Rabi Yossi na mishná seguinte; aqui, porém, a mishná recebe seu tratamento próprio e completo, como parte do fluxo natural do capítulo, encerrando a discussão sobre a necessidade material do votado antes da mishná final, que trata do caso análogo de dois viajantes no caminho.
Rambam reitera a ligação com o princípio geral do capítulo — evitar que o votante entregue algo diretamente ao votado, canalizando o benefício por meio de terceiros que se tornam credores legítimos, quitados depois sem contato direto entre as partes originalmente proibidas.
Bartenura observa que "não tem o que comer" é apenas a situação típica descrita pela mishná, mas a regra vale igualmente mesmo que o votado tenha outros recursos — o mecanismo é permitido em qualquer caso de necessidade de bens ou serviços do companheiro. Ponto crucial: o companheiro votante paga ao mercador ou aos trabalhadores se e quando quiser — ele não pode ser forçado a fazê-lo, pois em nenhum momento assumiu formalmente essa obrigação perante o votado. Mas há um limite decisivo: se o próprio votante, desde o início, tivesse dito ao mercador "dá a ele, que eu pago depois", isso o tornaria explicitamente seu agente designado, e o benefício resultante seria proibido — pois nesse caso o votante estaria, na prática, agindo em nome próprio diretamente sobre o votado, e não apenas quitando uma dívida de terceiro já constituída independentemente.