Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Vav · Mishná 7 de 10

Uvas e azeitonas: quando "estas" muda tudo

הַנּוֹדֵר מִן הַיַּיִן, מֻתָּר בְּתַבְשִׁיל שֶׁיֶּשׁ בּוֹ טַעַם יַיִן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do vinho, das uvas e das azeitonas, ensinando que o votado de um fruto permanece livre para seu produto derivado — exceto quando aponta com a palavra "estas" para exemplares determinados, o que fecha inteiramente a porta da permissão.

O votado do vinho está permitido no guisado que tem sabor de vinho. Disse: konam, este vinho que eu não provo, e caiu num guisado, se há nele o suficiente para dar sabor, fica proibido. O votado das uvas está permitido no vinho. Das azeitonas, está permitido no azeite. Disse: konam, estas azeitonas e uvas que eu não provo, fica proibido nelas e no que delas sai.A mishná estabelece um padrão consistente: quem vota genericamente contra o vinho continua livre para comer um guisado temperado com ele, pois o guisado não é "vinho"; mas se especifica "este vinho" — um objeto determinado — e ele cai depois num guisado, aplica-se a mesma régua vista na mishná anterior sobre a carne determinada, e o sabor perceptível já é suficiente para proibir a mistura toda. O mesmo padrão vale para uvas e azeitonas: o voto genérico contra o fruto deixa livre seu produto — vinho e azeite, respectivamente —, pois na linguagem comum esses produtos já ganharam nome independente do fruto de origem. Mas se o votado disser "estas azeitonas e uvas", apontando para exemplares específicos diante de si, a proibição alcança tanto o fruto quanto tudo o que dele sair, sem exceção — a palavra demonstrativa "estas" fecha totalmente a distância entre a fruta e seu derivado.

הַנּוֹדֵר מִן הַיַּיִן, מֻתָּר בְּתַבְשִׁיל שֶׁיֶּשׁ בּוֹ טַעַם יַיִן. אָמַר קוֹנָם יַיִן זֶה שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, וְנָפַל לְתַבְשִׁיל, אִם יֶשׁ בּוֹ בְנוֹתֵן טַעַם, הֲרֵי זֶה אָסוּר. הַנּוֹדֵר מִן הָעֲנָבִים, מֻתָּר בְּיַיִן. מִן הַזֵּיתִים, מֻתָּר בְּשֶׁמֶן. אָמַר קוֹנָם זֵיתִים וַעֲנָבִים אֵלּוּ שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, אָסוּר בָּהֶן וּבַיּוֹצֵא מֵהֶן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A descrição da terra de Israel entre as sete espécies nomeia vinha e oliveira como fontes de vinho e azeite — os mesmos dois pares de fruto e produto que a mishná agora examina do ponto de vista do voto.

Devarim (Deuteronômio) 8:8
אֶרֶץ חִטָּה וּשְׂעֹרָה וְגֶפֶן וּתְאֵנָה וְרִמּוֹן, אֶרֶץ זֵית שֶׁמֶן וּדְבָשׁ
Terra de trigo e cevada, e vide e figueira e romã; terra de olival de azeite e mel.

A Torá, ao louvar a terra de Israel, nomeia a "vide" (gefen) e o "olival" (zeit) junto de seu produto já processado — o versículo termina em "azeite", não em "azeitona" —, sugerindo uma proximidade natural entre o fruto e aquilo que dele se extrai, a ponto de o próprio texto sagrado passar de um ao outro sem esforço. Essa proximidade natural entre fruto e produto é exatamente o que permite à mishná afirmar, como regra padrão, que o votado das uvas continua livre no vinho e o votado das azeitonas continua livre no azeite: a linguagem cotidiana trata esses produtos como suficientemente distintos do fruto cru para escaparem ao voto genérico, do mesmo modo que a Torá pode cantar a terra em termos de vinha e olival e ainda assim especificar seus frutos processados como a verdadeira bênção da terra. Mas quando o votado usa a palavra demonstrativa "estas", apontando para frutos determinados e presentes diante de si, ele fecha essa distância: já não fala da categoria geral louvada pela Torá, mas de objetos específicos cujo destino, fruto e produto, fica igualmente selado pela proibição.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Bartenura resume a halachá final quanto à disputa entre Rabi Yehuda e os sábios já tratada na mishná anterior, aplicada agora ao vinho.

Bartenura · Nedarim 6:7
מֻתָּר בְּתַבְשִׁיל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ טַעַם יַיִן. כְּרַבָּנָן דְּרַבִּי יְהוּדָה

Bartenura confirma que a primeira cláusula desta mishná segue a posição dos sábios contra Rabi Yehuda, já apresentada na disputa da mishná anterior sobre a carne: o votado genérico do vinho permanece livre para o guisado temperado com ele, pois a halachá não segue a visão mais restritiva de Rabi Yehuda. A segunda parte da mishná, sobre "este vinho" caindo no guisado, não depende dessa disputa — é consensual entre todos, pois se refere a um objeto determinado e específico, regido pela regra geral do sabor perceptível já explicada por Rambam na mishná anterior.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 52a-52b), explica por que "estas" fecha a permissão do produto derivado; Bartenura e Rambam completam com a lógica da distinção entre fruto genérico e fruto apontado.

Rashi · רש"י
Nedarim 52a-52b
מוּתָּר בְּתַבְשִׁיל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ טַעַם יַיִן — שֶׁהֲרֵי לֹא נָדַר מִטַּעֲמוֹ שֶׁל יַיִן... מַתְנִי' קוֹנָם זֵיתִים וַעֲנָבִים אֵלּוּ שֶׁאֵינִי טוֹעֵם — הוֹאִיל וְאָמַר טוֹעֵם אָסוּר בָּהֶן... וּבַיּוֹצֵא מֵהֶן — בְּשֶׁמֶן וּבְיַיִן

Rashi explica que o votado genérico do vinho não votou "do sabor do vinho", mas do vinho em si, de modo que o guisado apenas temperado com ele escapa naturalmente à proibição. Sobre a segunda parte, Rashi nota que a palavra "טוֹעֵם" ("que eu provo"), combinada com "estas" apontando para frutos específicos, é o que amarra tanto os frutos quanto o azeite e o vinho que deles sairiam — a Guemará chega a debater longamente se "estas" é a palavra decisiva ou se seria "que eu não provo", concluindo, segundo Rashi, que ambos os elementos juntos produzem esse efeito ampliado, incluindo até os derivados.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 6:7 (com base em 6:6)
מְשַׁעֲרִים אוֹתוֹ כְּשֶׁנִּתְעָרֵב בְּמִין אַחֵר בְּנוֹתֵן טַעַם כְּדִין שְׁאָר הָאִסּוּרִין כֻּלָּן

Rambam aplica aqui o mesmo princípio já explicado na mishná anterior sobre a carne determinada: assim como "esta carne" se torna uma peça de proibição sujeita à régua do sabor perceptível, também "este vinho" — apontado e determinado — segue a mesma régua ao cair num guisado. Rambam mostra assim que as duas mishnayot, aparentemente sobre alimentos diferentes, compartilham uma única estrutura jurídica: o voto genérico segue a linguagem comum das categorias, e o voto sobre um objeto apontado segue a régua técnica da mistura proibida.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 6:7
מֻתָּר בְּתַבְשִׁיל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ טַעַם יַיִן. כְּרַבָּנָן דְּרַבִּי יְהוּדָה

Bartenura, com sua concisão característica, aponta a filiação halachica da primeira cláusula da mishná à posição dos sábios já vencedora na disputa anterior. Ao tratar da segunda parte, sobre uvas e azeitonas apontadas com "estas", Bartenura confirma que a proibição alcança tanto o fruto quanto tudo o que dele sai — vinho e azeite —, encerrando este bloco de mishnayot sobre frutos e seus produtos com a mesma lição estrutural: o demonstrativo apontado é o que transforma um voto de categoria ampla num voto de objeto determinado, arrastando consigo tudo o que dele deriva.