Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Zayin · Mishná 2 de 9

Grão e produção agrícola: as cinco espécies e o feijão egípcio

הַנּוֹדֵר מִן הַדָּגָן, אָסוּר בְּפוֹל הַמִּצְרִי יָבֵשׁ, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa do voto sobre verdura para o voto sobre grão, distinguindo duas palavras próximas — dagan (grão) e tevuah (produção agrícola) — cuja diferença de alcance é o próprio ponto defendido por Rabi Meir contra os sábios.

Quem vota do grão, fica proibido no feijão egípcio seco — palavras de Rabi Meir. E os sábios dizem: não fica proibido senão nas cinco espécies. Rabi Meir diz: quem vota da produção agrícola, não fica proibido senão nas cinco espécies; mas quem vota do grão, fica proibido em tudo, e está permitido nos frutos da árvore e na verdura.Para Rabi Meir, a palavra "dagan" (grão) tem um alcance amplo que inclui qualquer coisa que se amontoa em monte (dagan, da raiz "medugan") — inclusive o feijão egípcio seco, que forma monte como um cereal, embora seja tecnicamente uma leguminosa. Os sábios discordam e restringem "dagan" apenas às cinco espécies de cereal reconhecidas pela Torá — trigo, cevada, centeio, aveia e espelta. Rabi Meir esclarece então sua própria posição com uma distinção fina entre dois termos: "tevuah" (produção agrícola), para ele, refere-se apenas às cinco espécies, exatamente como "dagan" é para os sábios; mas "dagan" no seu vocabulário é mais amplo ainda, abrangendo tudo que se amontoa, com a única exceção dos frutos da árvore e da verdura, que ficam fora mesmo dessa categoria ampla.

הַנּוֹדֵר מִן הַדָּגָן, אָסוּר בְּפוֹל הַמִּצְרִי יָבֵשׁ, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא בַחֲמֵשֶׁת הַמִּינִין. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, הַנּוֹדֵר מִן הַתְּבוּאָה, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא מֵחֲמֵשֶׁת הַמִּינִין. אֲבָל הַנּוֹדֵר מִן הַדָּגָן, אָסוּר בַּכֹּל, וּמֻתָּר בְּפֵרוֹת הָאִילָן וּבְיָרָק:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A própria Torá nomeia a terra de Israel como terra de trigo e cevada — as cinco espécies que os sábios fixam como o alcance exato do voto sobre grão.

Devarim (Deuteronômio) 8:8
אֶרֶץ חִטָּה וּשְׂעֹרָה וְגֶפֶן וּתְאֵנָה וְרִמּוֹן, אֶרֶץ זֵית שֶׁמֶן וּדְבָשׁ
Terra de trigo e cevada, e videira, e figueira, e romã; terra de olivas de azeite, e mel.

A Torá nomeia expressamente trigo e cevada como os primeiros produtos da terra de Israel, distinguindo-os, na mesma frase, da videira, da figueira e da romã — os frutos da árvore. Essa mesma distinção entre grão e fruto de árvore é o que a mishná fixa como fronteira do voto: mesmo na leitura mais ampla de Rabi Meir, quem vota do grão permanece livre para comer frutos da árvore e verdura, pois estes nunca se confundem, na linguagem, com trigo e cevada. As cinco espécies que os sábios reconhecem como o alcance exato de "dagan" — trigo, cevada, centeio, aveia e espelta — são precisamente as variedades derivadas dessas duas categorias mencionadas na Torá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Rambam decide a disputa no próprio Perush HaMishná, definindo com precisão as cinco espécies e a natureza botânica do feijão egípcio.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 7:2
חֲמֵשֶׁת הַמִּינִים הֵם הַחִטִּין וְהַשְּׂעוֹרִים וְהַכֻּסְּמִין וְשִׁבֹּלֶת שׁוּעָל וְשִׁיפוֹן... וְהַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Rambam identifica as cinco espécies mencionadas pelos sábios: trigo e espelta (variedades do trigo), e aveia e centeio (variedades da cevada), além da cevada propriamente dita. Rambam explica ainda que o feijão egípcio é um tipo de leguminosa que só se encontra na terra do Egito — daí seu nome —, e não deve ser confundido com o feijão comum conhecido popularmente. Rambam decide a halachá a favor dos sábios: o voto sobre grão fica restrito às cinco espécies.

Bartenura · Nedarim 7:2
הַנּוֹדֵר מִן הַדָּגָן אָסוּר בַּכֹּל. מִינֵי קִטְנִיּוֹת שֶׁעוֹשִׂין מֵהֶן כְּרִי. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר

Bartenura explica que, para Rabi Meir, "dagan" abrange todo tipo de leguminosa da qual se costuma formar um monte de colheita — como se faz com o cereal —, e não apenas as cinco espécies estritas. Bartenura confirma, porém, que a halachá não segue Rabi Meir nesta disputa: o voto sobre grão, tanto quanto o voto sobre produção agrícola, fica restrito às cinco espécies reconhecidas pelos sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 55a), identifica as cinco espécies e explica em que ponto exato os sábios concordam com Rabi Meir.

Rashi · רש"י
Nedarim 55a
מַתְנִי׳ אֶלָּא מֵחֲמֵשֶׁת מִינִין — חִטָּה וּשְׂעוֹרָה וְכֻסְּמִין וְשִׁיפוֹן וְשִׁבֹּלֶת שׁוּעָל: רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר בְּוַכוּ׳ — בְּהָא וַדַּאי מוֹדֵינָא לָךְ שֶׁהַנּוֹדֵר מִן הַתְּבוּאָה אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא מֵחֲמֵשֶׁת הַמִּינִין, אֲבָל הַנּוֹדֵר מִן הַדָּגָן אָסוּר בְּכָל מִין דְּמִדַּגָּן

Rashi lista as cinco espécies exatamente como Rambam: trigo, cevada, espelta, centeio e aveia. Sobre a distinção de Rabi Meir entre "tevuah" e "dagan", Rashi explica que Rabi Meir concede aos sábios que, no caso do voto sobre "tevuah" (produção agrícola), a proibição realmente se restringe às cinco espécies — nesse ponto específico não há disputa; a divergência aparece apenas quando o voto usa a palavra "dagan", que Rabi Meir entende como todo tipo de coisa que forma monte de colheita, incluindo leguminosas como o feijão egípcio.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 7:2
חֲמֵשֶׁת הַמִּינִים הֵם הַחִטִּין וְהַשְּׂעוֹרִים וְהַכֻּסְּמִין וְשִׁבֹּלֶת שׁוּעָל וְשִׁיפוֹן. כֻּסְּמִין מִין חִטִּים וְשִׁבֹּלֶת שׁוּעָל וְשִׁיפוֹן מִין שְׂעוֹרִים, וּפוֹל הַמִּצְרִי מִין מִמִּינֵי הַקִּטְנִית, אֵינוֹ נִמְצָא אֶלָּא בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם

Rambam detalha a taxonomia botânica das cinco espécies: espelta é uma variedade do trigo; aveia e centeio são variedades da cevada. O feijão egípcio, explica Rambam, é uma leguminosa que cresce exclusivamente na terra do Egito, daí o nome pelo qual os próprios médicos da época o identificavam — e não deve ser confundido com o feijão comum e mais difundido entre o povo.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 7:2
אָסוּר בְּפוֹל הַמִּצְרִי יָבֵשׁ. דְּדָגָן כָּל מִידֵי דְּמִדְּגַן מַשְׁמַע, כָּל דָּבָר שֶׁעוֹשִׂין מִמֶּנּוּ כְּרִי, וְהָא נַמִּי מִדְּגַן הוּא: הַנּוֹדֵר מִן הַדָּגָן אָסוּר בַּכֹּל. מִינֵי קִטְנִיּוֹת שֶׁעוֹשִׂין מֵהֶן כְּרִי

Bartenura explica a etimologia da posição de Rabi Meir: "dagan" deriva da mesma raiz de "medugan", que designa qualquer coisa amontoada em pilha de colheita — e como o feijão egípcio seco também se amontoa dessa forma, ele se enquadra na categoria, apesar de ser uma leguminosa e não um cereal propriamente dito. Bartenura fecha confirmando que a halachá não segue Rabi Meir: o voto sobre grão, como o voto sobre produção agrícola, fica restrito às cinco espécies de cereal.